quinta-feira, 27 de novembro de 2008
Ladram os cães de Pavlov…
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quarta-feira, 26 de novembro de 2008
Resíduos tóxicos do cavaquismo
O CAVAQUISMO EXISTIU, durante dez anos (1985-1995), e alguns dos seus resíduos mais tóxicos ainda hoje infectam a paisagem política portuguesa. Para quem já se esquecera dos escândalos que então rebentavam semanalmente nas primeiras páginas dos jornais, aí estão mais alguns exemplos edificantes que ajudam a refrescar a memória.
Sempre pensei que o cavaquismo era assim uma espécie de salazarismo democrático, em que o seu mentor era um poço de virtudes morais, o seu aparelho político um saco de gatos e boa parte dos seus apoiantes mais firmes e mais ilustres uma cambada de oportunistas e arrivistas em busca de sucesso material rápido e a qualquer preço.
A rigidez autoritária do poço de virtudes morais sufocou o espírito crítico e deu asas ao negocismo infrene como emblema de progresso, afinal efémero e ilusório. A verdade é que o «monstro» nasceu e começou a alimentar-se no seio do cavaquismo e que a «má moeda» prosperou no interior das suas hostes. A memória do povo é que é curta.
Os resíduos tóxicos do cavaquismo perduram. E contaminam todo o «bloco central». Os interesses sobrepuseram-se às ideias e aos programas abrindo a via ao pragmatismo sem princípios e à política sem alma. Nos dois pólos do «bloco central», Belém e São Bento, vicejam os eucaliptos que criam o deserto à sua volta. Por isso não espanta que Manuel Dias Loureiro e Jorge Coelho sejam uma espécie de expoentes do sucesso da coisa.
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domingo, 23 de novembro de 2008
«Berlusconis» lusitanos
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Como é que eles conseguiram acumular tão rapidamente pés-de-meia tão grandes, se não à custa dos seus contactos políticos e de um escandaloso tráfico de influências?!
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Guardadas as devidas proporções, seguiram o exemplo de Berlusconi, o barão predador italiano que singrou na politiquice e nas negociatas graças à extraordinária habilidade de vendedor de carros em segunda mão e ao charme de cançonetista de cruzeiro estival.
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Como explicou há um século o grande economista americano Thorstein Veblen, estes barões predadores constituem uma «classe ociosa» que não hesita perante a mentira, a fraude, a falsificação, a manipulação e a corrupção, para acumular lucros especulativos e riquezas improdutivas. A sua divisa é o lema de Ivan Boesky, um dos mais célebres vigaristas a singrar em Wall Street: «Greed is good» («A ganância é uma coisa boa»)!
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O problema é que, como diz o escritor italiano Andrea Camilleri, Berlusconi «limita-se a interpretar perfeitamente o mau humor e o mal-estar das pessoas» e a convencê-las de que, qualquer dia, também podem vir a ser como ele. Em suma, parafraseando Veblen, o que as pessoas desejam é imitar os «Berlusconis» de trazer por casa, numa irresistível atracção pelo exibicionismo, o narcisismo e a afectação típicos da «classe ociosa».
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Ainda há dias vimos um Berlusconi lusitano a tentar justificar em público a sua fortuna, com a arrogância, a displicência e o sentimento de impunidade típicos de um arrivista. Não hesitou em contradizer-se e em mentir. Só lhe faltou cantar o «Only You»!
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quarta-feira, 19 de novembro de 2008
MFL e a "graça pesada'’
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quarta-feira, novembro 19, 2008
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…e não se pode exterminá-los?
COMO SE JÁ NÃO BASTASSE o portuguesíssimo doutor Durão Barroso ser apontado a dedo como um presidente da Comissão Europeia «incompetente, inócuo e subserviente», vem agora o «Financial Times» proclamar que o portuguesíssimo doutor Fernando Teixeira dos Santos é o pior ministro das Finanças entre 19 países da União Europeia, com uma péssima «performance» política e um mau desempenho ao nível macroeconómico.
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Como não há duas desgraças sem três, a lusitaníssima doutora Manuela Ferreira Leite, inefável presidente do PSD, achou por bem confessar em público que «não acredita em reformas quando se está em democracia», acrescentando, para que não subsista qualquer dúvida: «E até nem sei se a certa altura não seria bom haver seis meses sem democracia, mete-se tudo na ordem e depois então venha a democracia». Assim, sem pestanejar!
Tanta desgraça e tanto disparate juntos, que nem o patriotismo mais pacóvio pode iludir, seriam motivo para rir se não fosse a vontade de chorar. Infelizmente, no ambiente geral de mediocridade que caracteriza a classe política dominante, ninguém se atreve a propor a remoção daquelas três criaturas dos altos cargos políticos que tão mal desempenham. Caso para perguntar, parafraseando Karl Valentin: «…E não se pode exterminá-los?».
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terça-feira, 18 de novembro de 2008
Durão não desgruda
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Infelizmente para o patriotismo bacoco dos «tugas» que nos governam, entre os quais se inclui o primeiro-ministro «socialista mas pouco» José Sócrates, a recondução de Durão Barroso será mais um sintoma de degradação e um sinal de decadência da UE. Ele é um símbolo vivo do pragmatismo sem princípios, sem ideias e sem ideais, que caracteriza esta geração de políticos europeus no poder. E é um dos exemplos mais flagrantes do oportunismo, da mediocridade e da incompetência na condução dos negócios públicos, tanto a nível interno (foi mau primeiro-ministro) como a nível supranacional.
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Não são poucas as vozes que criticam o presidente da Comissão Europeia pela «falta de liderança, timidez e incompetência» na gestão desta grave crise económica e financeira. «O presidente incompetente da CE», como lhe chama sem pestanejar Joschcka Fischer, anseia por que lhe renovem o mandato graças à «inocuidade» e à «subserviência» que demonstra em relação aos seus «patrões» políticos. Para tanto, não hesitou em assumir o papel de «chevalier servant» de Nicholas Sarkozy, durante a presidência francesa ainda em curso, revelando total «inaptidão» para dar voz própria à Comissão Europeia.
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sexta-feira, 14 de novembro de 2008
Paranóias políticas
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A megalomania – assim se designa tal tendência – conduz, regra geral, à interpretação errónea da realidade em consequência da susceptibilidade aguda do político, que acaba por se traduzir numa desconfiança extrema que pode chegar ao delírio persecutório.
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Verifica-se, em suma, uma concentração patológica do político sobre si próprio, que se caracteriza, ao mesmo tempo, por um subjectivismo delirante e um alheamento do real. Este ensimesmamento, a que se chama autismo, acaba por desviar o político daquilo que o senso comum considera correcto e razoável, e leva-o mesmo a experimentar satisfação na prática de comportamentos estranhos, em que avultam a crueldade e a dissimulação.
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Se quisermos aplicar à actualidade política portuguesa, continental e insular, esta grelha de perturbações mentais – na qual se entrecruzam megalomania, paranóia, autismo e perversidade – facilmente concluiremos que não serão assim tão poucos os políticos lusitanos cujos comportamentos paranóides os situam na antecâmara do manicómio.
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domingo, 9 de novembro de 2008
Bafio antidemocrático
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domingo, novembro 09, 2008
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sexta-feira, 7 de novembro de 2008
Cavaco dará cavaco?
Ninguém duvide de que o que está em causa, na Região Autónoma da Madeira, é «o regular funcionamento das instituições democráticas», de que o Presidente da República é o garante, nos termos do artigo 120.º da Constituição. Sendo certo que a necessidade de garantir o regular funcionamento da Assembleia Legislativa Regional da Madeira pode implicar a sua dissolução pelo Presidente da República.
Tão afoito e desenvolto no caso do Estatuto dos Açores (em que lhe assiste, sem dúvida, alguma razão), veremos se o Presidente da República quebra a sua proverbial timidez sempre que é confrontado com os desmandos antidemocráticos praticados pelo King Kong do Funchal e pelo exército de símios que o macaqueiam.
São raros, num mandato presidencial, os momentos críticos que põem verdadeiramente à prova o titular do cargo, testando a sua firmeza, a sua imparcialidade e a sua coragem políticas. Este caso da Madeira é um deles. Veremos como o Presidente da República se comporta. Dar ou não dar cavaco, eis a questão…
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terça-feira, 4 de novembro de 2008
FILHOS DO «BLOCO CENTRAL»…
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Foram ambos ministros. Um deles, terá mesmo chegado a telefonar à progenitora para lhe anunciar: «Mãe, sou ministro!». O outro, foi a um programa de humor bastante duvidoso fazer uma figura ridícula, desfigurando a bela canção «Only you»…
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Ambos fizeram das suas carreiras político-partidárias e dos seus cargos governamentais os trampolins de onde saltaram para o sector privado das empresas e dos negócios…
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Um, enriqueceu rapidamente e chegou a estar ligado, entre outros negócios e empresas, a um banco que está agora à beira da falência e em vias de ser nacionalizado…
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O outro, é administrador executivo (CEO) do maior potentado português da construção civil e obras públicas, proprietário da empresa que detém a «concessão» do terminal de carga do porto de Lisboa, em «boa hora» renovada por muitos anos e bons…
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São almas gémeas, filhos queridos do «bloco central» de interesses que nos governa. Um, pontificou no PSD e não se lhe conhecem outros antecedentes políticos. O outro, no PS, onde caiu de pára-quedas depois de passar pela UDP e por Macau. Bons rapazes, inteligências fulgurantes, golpes de vista geniais – e a fortuna sorriu-lhes…
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O «fim das ideologias» é com eles! As suas carreiras edificantes são exemplos para uma juventude que ambicione enveredar pela política – no PSD ou no PS, tanto faz! – para, a seguir, dar o salto para o mundo do negocismo infrene e do enriquecimento fácil…
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Não será difícil adivinhar o lema que os guiou: «Loureiro & Coelho, a mesma luta!»…
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terça-feira, novembro 04, 2008
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sábado, 1 de novembro de 2008
SÓCRATES E A BANHA DA COBRA
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sábado, novembro 01, 2008
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sexta-feira, 31 de outubro de 2008
OS RATOS A COMER O QUEIJO
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A metáfora não podia ser mais oportuna, tendo em vista o surpreendente «lapso» que terá sido cometido por alguém, ainda não identificado, que decidiu introduzir na proposta de Orçamento de Estado para 2009 uma alteração à lei de financiamento dos partidos, que tornaria outra vez possível os donativos privados em dinheiro vivo, e não apenas, como agora sucede, através de cheques ou transferências bancárias.
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A marosca foi detectada pelo Diário Económico, mas o certo é que, até agora, ainda não foi possível identificar o rato que queria comer o queijo. Para grande espanto do estimável público, nem o primeiro-ministro nem o ministro das Finanças, principais responsáveis pela proposta de OE, conseguiram descobrir quem foi o ‘safardana’ que, segundo eles, cometeu este mero ‘lapso’ comendo-lhes ‘as papas na cabeça’.
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Curiosamente, também há poucos dias, o presidente da Entidade das Contas e Financiamentos Políticos, Miguel Fernandes, admitiu publicamente que este organismo não tem capacidade para controlar a corrupção associada aos donativos, acrescentando que só a alteração da legislação em vigor permitiria uma fiscalização eficaz das contas dos partidos. Queixume que caiu no ‘saco roto’ do inevitável dr. Vitalino Canas, porta-voz do PS, que mandou Miguel Fernandes ‘bugiar’, reclamando dele «maior eficácia, menos queixas e mais trabalho» – para gáudio dos ratos que comem o queijo.
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Como isto anda tudo ligado, convém salientar que a directora do Departamento Central de Investigação e Acção Penal, Cândida Almeida, também alertou, há poucos dias, para o regresso da corrupção «à moda de Al Capone», recordando as «prendas» que o famoso gangster de Chicago oferecia aos agentes da autoridade, e afirmando que «faltou coragem», na recente reforma penal, para combater a corrupção. Em suma: podem os ratos estar descansados que ninguém vai apanhá-los a comer o queijo.
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sexta-feira, outubro 31, 2008
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quinta-feira, 30 de outubro de 2008
MAGOS DA MATEMÁTICA
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Em 2008, nada menos do que 1.052 escolas básicas conseguiram aquilo que, em 2007, só 222 tinham conseguido. De 83 por cento de ‘chumbos’ em 2007 desceu-se para 26 por cento em 2008. Estamos perante um esforço titânico de aprendizagem ou um caso de pura magia estatístico-política?!
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Estes resultados seriam motivo de grande regozijo, se não pesasse sobre eles a suspeita de ter havido uma acentuada diminuição do nível de exigência nos exames (não apenas de Matemática) para melhorar substancialmente as estatísticas em ano eleitoral. O nacional-porreirismo está em marcha!
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Assim, o parecer do Conselho Nacional da Educação a sugerir que os ‘chumbos’ sejam abolidos nem precisa de ser adoptado pelo Ministério. Basta ‘servir’ exames por medida a todos os cábulas, transformando-os em magos da Matemática. Exulta a Ministra e regozijam-se os paizinhos. Perdem os meninos e perde o País.
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É irresistível a comparação com aquilo que se passa no futebol português. Diz-se que a Liga Sagres está mais ‘competitiva’. Mas isso deve-se, infelizmente, à acentuada diminuição da qualidade das equipas chamadas ‘grandes’ e não, propriamente, ao facto de as equipas ‘pequenas’ e ‘médias’ terem subido de nível.
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Matemática e futebol em Portugal, a mesma luta? Pelo menos é o que parece!
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quinta-feira, outubro 30, 2008
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quarta-feira, 8 de outubro de 2008
«O Capitalismo Total» - Prefácio
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Assim como «as árvores nunca crescem até ao céu», também não se vê como os mercados bolsistas poderão continuar a crescer a taxas quatro a cinco vezes superiores às taxas de crescimento anuais das economias ocidentais. Como salienta o autor deste livro, se tal acontecesse, «os lucros tomariam conta, pouco a pouco, de todos os lugares disponíveis para não deixarem nenhum aos rendimentos do trabalho». Ou seja, «a prazo, o capital seria o único factor de produção a ser remunerado». O que seria absurdo.
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Os efeitos do capitalismo financeiro, motor de uma globalização sem regras, sem freios e sem contrapoderes dignos desse nome, são devastadores: total desvalorização, fragmentação e precarização do trabalho; diminuição progressiva do poder de compra dos salários; deslocalizações, subinvestimento e desemprego; fusões e concentrações, sem outro critério que não seja o do aumento da rentabilidade através da diminuição dos encargos sociais; desmantelamento dos serviços públicos e dilapidação do Estado.
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Como a crise actual tem vindo a demonstrar, a especulação, que está na base do capitalismo financeiro, é comparável a uma bomba de fragmentação, a uma nova arma de destruição maciça que atinge, em diferentes graus, toda a gente sem distinção; tanto os países pobres como os desenvolvidos; tanto as classes sociais mais desfavorecidas como as classes médias, cujo poder de compra continua a declinar perigosamente.
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Tal como previa e temia o grande economista norte-americano Thorstein Veblen faz agora cem anos (1908), ao salientar os desajustamentos entre a produção industrial e a especulação financeira, o capital industrial acabou por ser absorvido e dominado pelo capital financeiro. É este que, na era da globalização, comanda a economia real e dita as suas leis ao mercado, à política, ao Estado-nação e a cada cidadão esquizofrenicamente dividido entre os papéis de consumidor, de trabalhador e, às vezes, de accionista.
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O autor deste livro, antigo banqueiro e gestor de grandes empresas, explica-nos com bastante clareza que o capitalismo moderno está organizado como uma gigantesca sociedade anónima, uma sociedade de proprietários igualmente anónimos. Na sua base, cerca de 300 milhões de accionistas, 90 % dos quais concentrados na América do Norte, na Europa Ocidental e no Japão, controlam a quase totalidade da capitalização bolsista mundial. Regra geral de meia idade, com formação superior e um nível de rendimentos elevado, esses accionistas anónimos confiam cerca de metade dos haveres financeiros que possuem a várias dezenas de milhares de gestores por conta de outrem, cujo único objectivo é o de enriquecer os seus mandantes, tirando partido da mundialização.
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Não pondo em causa o natural desejo de enriquecimento e a legítima vontade de empreender e de prosperar, o problema é que a fronteira que separa tais propósitos da pura cupidez é sistematicamente ultrapassada. Dado que as bonificações e stock options de que podem beneficiar dependem dos resultados obtidos, esses gestores pagos a peso de ouro sentem-se impelidos a alcançar performances cada vez mais surpreendentes em prazos sempre mais curtos. O desejo de ganhos ilimitados transforma-os em predadores. Taxas de rentabilidade do capital da ordem dos 15 a 20 %, só para distribuir dividendos, são totalmente absurdas, irrealistas e insustentáveis a longo prazo. Os lucros obtidos em bolsa, graças à especulação financeira, correspondem cada vez menos ao valor real das empresas e raramente são contrapartida de bens produzidos ou serviços prestados.
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Do mesmo modo, os vertiginosos aumentos de preços a que temos assistido nos últimos meses não têm qualquer relação com a realidade dos produtos a que se referem, sejam eles o petróleo, o aço, o cobre, o trigo, o milho, o arroz, o leite ou o imobiliário. A especulação nos mercados a prazo vai provocando bolhas especulativas que podem rebentar não se sabe quando. Fenómeno típico de uma economia de casino, em que as apostas se sucedem para inflacionar artificialmente os preços e, portanto, os lucros.
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Sob o signo do capitalismo financeiro, a «desigualdade fundamental entre ricos e pobres, à escala do globo», não pára de aumentar. Os «verdadeiramente ricos» (high net worth individuals) e os «ultra-ricos» (ultra high net worth individuals) afastam-se cada vez mais do resto da população mundial. Só 77 mil famílias «ultra-ricas» (menos de 1 % das «verdadeiramente ricas») detêm 15 % da riqueza mundial, ao passo que 50 % dos trabalhadores do planeta (1,4 milhares de milhões de famílias, 2,8 milhares de milhões de indivíduos) vivem com menos de dois dólares por dia. O capitalismo total é, de facto, um capitalismo sem projecto e sem preocupações sociais, dominado pela «execrável sede do ouro» de que falava Virgílio. Bastará referir que «5 % da população mundial, metade da qual nos EUA, detém nas suas mãos a quase totalidade da riqueza bolsista do planeta». O problema é que, conforme salienta o autor deste livro, «o actual modo de vida ocidental não é generalizável ao conjunto do planeta: 20 % dos seus habitantes já consomem 80 % dos seus recursos». Resta saber qual será o ponto de saturação.
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A acumulação de tanta fortuna em tão poucas mãos dá que pensar. E a pergunta justifica-se: onde começa a injustiça, em que momento se torna ela intolerável? Para o autor, a questão só pode obter resposta no plano da moral. Ele considera, aliás, que «o poder dos accionistas é, enquanto tal, invulnerável», e que «deitar abaixo o sistema num só país não teria qualquer efeito dado que a sua dominação é mundial». Por isso mesmo, acha que «será mais eficaz descrever a articulação das forças que governam a economia mundial», porque, «para mudar a partir de dentro a economia de mercado (…), é preciso ser capaz de expor em detalhe a sua técnica, decompor os seus mecanismos, saber quais alterar, onde pôr um travão e onde conceder mais liberdade» aos agentes económicos.
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Extremamente moderado nas soluções que propõe, nem por isso o autor é menos lúcido e radical nas críticas que faz. Por exemplo: quando salienta que «a norma técnica substituiu a lei, a comissão independente substituiu o legislador, o perito substituiu o homem político e a organização internacional substituiu o Estado»; quando sustenta que «o responsável político e o intelectual locais estão a tornar-se, contra a sua vontade, nos álibis democráticos de um poder superior e inacessível»; quando afirma que «a própria democracia não é mais do que um placebo local, sem efeito real contra a usurpação tecnocrática»; quando admite que o capitalismo financeiro continua a expandir-se sem limites, «com o risco inexplorado de uma derrocada mortífera»; quando reconhece que, «sob a aparência da liberdade, tornámo-nos dependentes» de um sistema demolidor.
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A maior dificuldade, conforme salienta o autor, reside em saber como reformar o capitalismo financeiro, como pôr termo aos seus abusos, como impedir que a opulência engendre tanta desigualdade, como proibir a privatização generalizada de bens comuns, como lutar contra a miséria e como conter a avidez do lucro, sem que tudo isso implique a destruição da economia de mercado e impeça a urgente reabilitação da democracia, do pluralismo, da liberdade, da solidariedade e da coesão social. Em suma: como conseguir que verdadeiras reformas evitem a eclosão de revoltas e, porventura, de revoluções?
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Raros são os livros escritos por especialistas que conseguem explicar aos leigos com tão grande clareza a complexidade e perversidade dos mecanismos do capitalismo financeiro que a todos afecta. Este é seguramente um desses livros. Vale a pena lê-lo.
Lisboa, 23 de Julho de 2008
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Alfredo Barroso
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quarta-feira, outubro 08, 2008
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