sábado, 1 de novembro de 2008
sexta-feira, 31 de outubro de 2008
OS RATOS A COMER O QUEIJO
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A metáfora não podia ser mais oportuna, tendo em vista o surpreendente «lapso» que terá sido cometido por alguém, ainda não identificado, que decidiu introduzir na proposta de Orçamento de Estado para 2009 uma alteração à lei de financiamento dos partidos, que tornaria outra vez possível os donativos privados em dinheiro vivo, e não apenas, como agora sucede, através de cheques ou transferências bancárias.
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A marosca foi detectada pelo Diário Económico, mas o certo é que, até agora, ainda não foi possível identificar o rato que queria comer o queijo. Para grande espanto do estimável público, nem o primeiro-ministro nem o ministro das Finanças, principais responsáveis pela proposta de OE, conseguiram descobrir quem foi o ‘safardana’ que, segundo eles, cometeu este mero ‘lapso’ comendo-lhes ‘as papas na cabeça’.
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Curiosamente, também há poucos dias, o presidente da Entidade das Contas e Financiamentos Políticos, Miguel Fernandes, admitiu publicamente que este organismo não tem capacidade para controlar a corrupção associada aos donativos, acrescentando que só a alteração da legislação em vigor permitiria uma fiscalização eficaz das contas dos partidos. Queixume que caiu no ‘saco roto’ do inevitável dr. Vitalino Canas, porta-voz do PS, que mandou Miguel Fernandes ‘bugiar’, reclamando dele «maior eficácia, menos queixas e mais trabalho» – para gáudio dos ratos que comem o queijo.
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Como isto anda tudo ligado, convém salientar que a directora do Departamento Central de Investigação e Acção Penal, Cândida Almeida, também alertou, há poucos dias, para o regresso da corrupção «à moda de Al Capone», recordando as «prendas» que o famoso gangster de Chicago oferecia aos agentes da autoridade, e afirmando que «faltou coragem», na recente reforma penal, para combater a corrupção. Em suma: podem os ratos estar descansados que ninguém vai apanhá-los a comer o queijo.
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Alfredo Barroso
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sexta-feira, outubro 31, 2008
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quinta-feira, 30 de outubro de 2008
MAGOS DA MATEMÁTICA
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Em 2008, nada menos do que 1.052 escolas básicas conseguiram aquilo que, em 2007, só 222 tinham conseguido. De 83 por cento de ‘chumbos’ em 2007 desceu-se para 26 por cento em 2008. Estamos perante um esforço titânico de aprendizagem ou um caso de pura magia estatístico-política?!
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Estes resultados seriam motivo de grande regozijo, se não pesasse sobre eles a suspeita de ter havido uma acentuada diminuição do nível de exigência nos exames (não apenas de Matemática) para melhorar substancialmente as estatísticas em ano eleitoral. O nacional-porreirismo está em marcha!
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Assim, o parecer do Conselho Nacional da Educação a sugerir que os ‘chumbos’ sejam abolidos nem precisa de ser adoptado pelo Ministério. Basta ‘servir’ exames por medida a todos os cábulas, transformando-os em magos da Matemática. Exulta a Ministra e regozijam-se os paizinhos. Perdem os meninos e perde o País.
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É irresistível a comparação com aquilo que se passa no futebol português. Diz-se que a Liga Sagres está mais ‘competitiva’. Mas isso deve-se, infelizmente, à acentuada diminuição da qualidade das equipas chamadas ‘grandes’ e não, propriamente, ao facto de as equipas ‘pequenas’ e ‘médias’ terem subido de nível.
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Matemática e futebol em Portugal, a mesma luta? Pelo menos é o que parece!
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Alfredo Barroso
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quinta-feira, outubro 30, 2008
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quarta-feira, 8 de outubro de 2008
«O Capitalismo Total» - Prefácio
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Assim como «as árvores nunca crescem até ao céu», também não se vê como os mercados bolsistas poderão continuar a crescer a taxas quatro a cinco vezes superiores às taxas de crescimento anuais das economias ocidentais. Como salienta o autor deste livro, se tal acontecesse, «os lucros tomariam conta, pouco a pouco, de todos os lugares disponíveis para não deixarem nenhum aos rendimentos do trabalho». Ou seja, «a prazo, o capital seria o único factor de produção a ser remunerado». O que seria absurdo.
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Os efeitos do capitalismo financeiro, motor de uma globalização sem regras, sem freios e sem contrapoderes dignos desse nome, são devastadores: total desvalorização, fragmentação e precarização do trabalho; diminuição progressiva do poder de compra dos salários; deslocalizações, subinvestimento e desemprego; fusões e concentrações, sem outro critério que não seja o do aumento da rentabilidade através da diminuição dos encargos sociais; desmantelamento dos serviços públicos e dilapidação do Estado.
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Como a crise actual tem vindo a demonstrar, a especulação, que está na base do capitalismo financeiro, é comparável a uma bomba de fragmentação, a uma nova arma de destruição maciça que atinge, em diferentes graus, toda a gente sem distinção; tanto os países pobres como os desenvolvidos; tanto as classes sociais mais desfavorecidas como as classes médias, cujo poder de compra continua a declinar perigosamente.
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Tal como previa e temia o grande economista norte-americano Thorstein Veblen faz agora cem anos (1908), ao salientar os desajustamentos entre a produção industrial e a especulação financeira, o capital industrial acabou por ser absorvido e dominado pelo capital financeiro. É este que, na era da globalização, comanda a economia real e dita as suas leis ao mercado, à política, ao Estado-nação e a cada cidadão esquizofrenicamente dividido entre os papéis de consumidor, de trabalhador e, às vezes, de accionista.
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O autor deste livro, antigo banqueiro e gestor de grandes empresas, explica-nos com bastante clareza que o capitalismo moderno está organizado como uma gigantesca sociedade anónima, uma sociedade de proprietários igualmente anónimos. Na sua base, cerca de 300 milhões de accionistas, 90 % dos quais concentrados na América do Norte, na Europa Ocidental e no Japão, controlam a quase totalidade da capitalização bolsista mundial. Regra geral de meia idade, com formação superior e um nível de rendimentos elevado, esses accionistas anónimos confiam cerca de metade dos haveres financeiros que possuem a várias dezenas de milhares de gestores por conta de outrem, cujo único objectivo é o de enriquecer os seus mandantes, tirando partido da mundialização.
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Não pondo em causa o natural desejo de enriquecimento e a legítima vontade de empreender e de prosperar, o problema é que a fronteira que separa tais propósitos da pura cupidez é sistematicamente ultrapassada. Dado que as bonificações e stock options de que podem beneficiar dependem dos resultados obtidos, esses gestores pagos a peso de ouro sentem-se impelidos a alcançar performances cada vez mais surpreendentes em prazos sempre mais curtos. O desejo de ganhos ilimitados transforma-os em predadores. Taxas de rentabilidade do capital da ordem dos 15 a 20 %, só para distribuir dividendos, são totalmente absurdas, irrealistas e insustentáveis a longo prazo. Os lucros obtidos em bolsa, graças à especulação financeira, correspondem cada vez menos ao valor real das empresas e raramente são contrapartida de bens produzidos ou serviços prestados.
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Do mesmo modo, os vertiginosos aumentos de preços a que temos assistido nos últimos meses não têm qualquer relação com a realidade dos produtos a que se referem, sejam eles o petróleo, o aço, o cobre, o trigo, o milho, o arroz, o leite ou o imobiliário. A especulação nos mercados a prazo vai provocando bolhas especulativas que podem rebentar não se sabe quando. Fenómeno típico de uma economia de casino, em que as apostas se sucedem para inflacionar artificialmente os preços e, portanto, os lucros.
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Sob o signo do capitalismo financeiro, a «desigualdade fundamental entre ricos e pobres, à escala do globo», não pára de aumentar. Os «verdadeiramente ricos» (high net worth individuals) e os «ultra-ricos» (ultra high net worth individuals) afastam-se cada vez mais do resto da população mundial. Só 77 mil famílias «ultra-ricas» (menos de 1 % das «verdadeiramente ricas») detêm 15 % da riqueza mundial, ao passo que 50 % dos trabalhadores do planeta (1,4 milhares de milhões de famílias, 2,8 milhares de milhões de indivíduos) vivem com menos de dois dólares por dia. O capitalismo total é, de facto, um capitalismo sem projecto e sem preocupações sociais, dominado pela «execrável sede do ouro» de que falava Virgílio. Bastará referir que «5 % da população mundial, metade da qual nos EUA, detém nas suas mãos a quase totalidade da riqueza bolsista do planeta». O problema é que, conforme salienta o autor deste livro, «o actual modo de vida ocidental não é generalizável ao conjunto do planeta: 20 % dos seus habitantes já consomem 80 % dos seus recursos». Resta saber qual será o ponto de saturação.
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A acumulação de tanta fortuna em tão poucas mãos dá que pensar. E a pergunta justifica-se: onde começa a injustiça, em que momento se torna ela intolerável? Para o autor, a questão só pode obter resposta no plano da moral. Ele considera, aliás, que «o poder dos accionistas é, enquanto tal, invulnerável», e que «deitar abaixo o sistema num só país não teria qualquer efeito dado que a sua dominação é mundial». Por isso mesmo, acha que «será mais eficaz descrever a articulação das forças que governam a economia mundial», porque, «para mudar a partir de dentro a economia de mercado (…), é preciso ser capaz de expor em detalhe a sua técnica, decompor os seus mecanismos, saber quais alterar, onde pôr um travão e onde conceder mais liberdade» aos agentes económicos.
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Extremamente moderado nas soluções que propõe, nem por isso o autor é menos lúcido e radical nas críticas que faz. Por exemplo: quando salienta que «a norma técnica substituiu a lei, a comissão independente substituiu o legislador, o perito substituiu o homem político e a organização internacional substituiu o Estado»; quando sustenta que «o responsável político e o intelectual locais estão a tornar-se, contra a sua vontade, nos álibis democráticos de um poder superior e inacessível»; quando afirma que «a própria democracia não é mais do que um placebo local, sem efeito real contra a usurpação tecnocrática»; quando admite que o capitalismo financeiro continua a expandir-se sem limites, «com o risco inexplorado de uma derrocada mortífera»; quando reconhece que, «sob a aparência da liberdade, tornámo-nos dependentes» de um sistema demolidor.
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A maior dificuldade, conforme salienta o autor, reside em saber como reformar o capitalismo financeiro, como pôr termo aos seus abusos, como impedir que a opulência engendre tanta desigualdade, como proibir a privatização generalizada de bens comuns, como lutar contra a miséria e como conter a avidez do lucro, sem que tudo isso implique a destruição da economia de mercado e impeça a urgente reabilitação da democracia, do pluralismo, da liberdade, da solidariedade e da coesão social. Em suma: como conseguir que verdadeiras reformas evitem a eclosão de revoltas e, porventura, de revoluções?
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Raros são os livros escritos por especialistas que conseguem explicar aos leigos com tão grande clareza a complexidade e perversidade dos mecanismos do capitalismo financeiro que a todos afecta. Este é seguramente um desses livros. Vale a pena lê-lo.
Lisboa, 23 de Julho de 2008
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quarta-feira, outubro 08, 2008
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quinta-feira, 17 de julho de 2008
Bulgakov e Estaline - o Médico e o Monstro revisitados
- Infeliz poeta! Mas, meu caro, a culpa é toda sua. Não devia tratá-lo de modo tão atrevido e até mesmo impertinente. E agora está a pagá-las. E ainda devia estar agradecido por tudo isso lhe ter saído relativamente barato»
Do capítulo 13 de Margarita e o Mestre, de Mikhail Bulgakov
CONHECI Mikhail Afanassievitch Bulgakov – de quem, até então, apenas ouvira falar – no dia 11 de Junho de 1988, depois de uma das minhas habituais e nem sempre bem sucedidas incursões à Feira do Livro, no Parque Eduardo VII, em busca de pérolas e pechinchas da literatura, portuguesa e estrangeira.Este texto foi publicado no suplemento de Cultura do Diário de Notícias, em 12 de Novembro de 1992, e no livro intitulado «Janela Indiscreta», publicado por Alfredo Barroso e editado pela Quetzal em 1994.
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Alfredo Barroso
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quinta-feira, julho 17, 2008
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terça-feira, 29 de abril de 2008
Sinais de decadência política
Os partidos de poder e o próprio Estado transformaram-se, nas últimas décadas, em produtores de espectáculos exibidos em sessões contínuas. A vida política passou a ser uma sucessão ininterrupta de encenações medíocres para entreter telespectadores, e não para esclarecer cidadãos eleitores. Os políticos que aspiram ao poder, no partido ou no Estado, não são mais do que actores que cumprem um guião previamente elaborado por especialistas de imagem, comunicação, marketing e sondagens.
A política está, hoje, reduzida à imagem dos seus protagonistas, quase sempre superficial, ideologicamente indiferenciada e sem substância. O poder político formal, tanto no Estado como nos partidos dominantes, identifica-se com um rosto e um estilo, o corte dos fatos e a cor das gravatas. Não com um programa ou um conjunto de ideias e de políticas públicas. O discurso é oco e «politicamente correcto».
O verdadeiro poder ou poder real já não reside, aliás, nos órgãos de soberania do Estado democrático, designadamente nos Governos e nos Parlamentos, mas em outras entidades e instituições, sobretudo nos grandes grupos económicos e financeiros e nas elites de empresários, gestores e tecnocratas que os dirigem. É no ‘berço’ desses grupos poderosos que os partidos dominantes e os seus dirigentes vão ‘amamentar-se’. E já se sabe que «a mão que embala o berço é a mão que governa o mundo».
É a imagem pessoal dos candidatos, o estilo, a capacidade de atracção mediática de cada um, que interessa pôr em confronto. Não propriamente as ideias e programas que eles venham, eventualmente, a apresentar. Ninguém melhor do que PSL sabe disso. Por instinto ou por cinismo, pouco importa. É exactamente por saber disso que PSL faz tábua rasa do seu currículo e das suas prestações políticas mais recentes com a inocência perversa dos inimputáveis ou, se quiserem, o descaramento dos irresponsáveis.
Pedro Santana Lopes está sinceramente convicto de que foi um bom Primeiro-Ministro e um óptimo Presidente da Câmara. E acha que só não foi ainda melhor porque sinistras forças de bloqueio se conluiaram para lhe tramar a vida e pô-lo no olho da rua. PSL considera-se uma vítima. Mas tem-se em altíssima conta. A sua megalomania já o levou a comparar-se a Sílvio Berlusconi. É o seu mito do eterno retorno.
Como não é multimilionário, nem dono de um império mediático ao seu dispor, PSL supre tais carências fazendo valer o capital mediático constituído pela sua própria pessoa. Tal como Benito Mussolini, modelo de Berlusconi, PSL quer «fazer da própria vida a sua obra-prima». E certamente não desdenharia subscrever estas palavras de Il Duce, escritas já lá vão oitenta anos: «É a maior prova de abnegação que eu poderia dar para edificação dos meus semelhantes: apresentar-me a mim mesmo».
A esta luz, percebe-se melhor o autismo de PSL, que se vê a si próprio como o melhor actor político, o melhor produto mediático à disposição do PPD/PSD, rótulo de uma embalagem sem conteúdo que ele não se cansa de promover em vão. E, no entanto, mesmo que venha a ser derrotado em mais esta corrida para a chefia do partido, poucos duvidam de que hão-de ser os próprios media a ajudá-lo a recuperar de mais um revés. È que o poder mediático precisa de PSL a «andar por aí», para entreter o pagode.
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A decadência da política é consequência de múltiplos factores. A indiferenciação ideológica e a vacuidade do discurso político são certamente os mais chocantes.
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segunda-feira, 21 de abril de 2008
Jardim, Cavaco e a Democracia
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quarta-feira, 26 de março de 2008
Pacheco Pereira e a Guerra do Iraque
HÁ MAIS DUAS ‘VÍTIMAS’ da invasão do Iraque que até agora ainda não tinham sido contabilizadas e que só há poucos dias foram reveladas: os publicistas neoconservadores José Pacheco Pereira e José Manuel Fernandes. Felizmente estão vivos, não foram alvo de bombardeamentos americanos nem de atentados da Al-Qaeda, mas é suposto terem sido vítimas dos ataques soezes de ‘uma pequena turba’ (de esquerda, claro!) que os acusa de um grave ‘delito de opinião’: ‘terem estado a favor da invasão do Iraque’.
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quarta-feira, março 26, 2008
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sábado, 15 de março de 2008
Um "governo com resultados"... maus
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terça-feira, 18 de setembro de 2007
ENTÃO ISSO DIZ-SE, SENHOR GREENSPAN?
«Basta olhar para a carta do petróleo e para um mapa geoestratégico do mundo para se perceber porque é que Bush filho prefere atacar o Iraque, de Saddam Hussein, e não a Coreia do Norte, de Kim Jong-Il» - escrevia eu nessa mesma crónica. E a suprema ironia residia no facto de, exactamente ao contrário do Iraque, a Coreia do Norte possuir armas de destruição maciça, mas não possuir um único poço de petróleo. Era, portanto, bastante fácil de perceber porque é que Bush filho e os «falcões» neo-conservadores que o rodeavam queriam à viva força – ou seja, à lei da bomba! – invadir e ocupar o Iraque.
Alguns deles publicaram, então, livros que, lidos hoje, só podem ser motivo de gargalhada. Mas até um embaixador na moda (esquerdista in illo tempore) se prestou a avalizar tais livros publicamente. Tenho-os em casa e sei do que falo. Só não os cito por mero pudor. Mas não me esqueço do artigo que um ilustre economista, ex-ministro das Finanças do professor Cavaco Silva, publicou nessa altura, em resposta à minha crónica (embora sem me citar). «Não é o petróleo, estúpido!» - escreveu ele, puxando dos seus galões de economista ortodoxo, que acumula todo o saber do mundo e tem por costume prestar vassalagem aos «mandarins» do neo-liberalismo, do FMI e do Banco Mundial.
Imagino o melão com que terá ficado essa beleza de economista ao ler, agora, as afirmações que faz um dos seus ídolos, o senhor Alan Greenspan, acerca da invasão do Iraque. No livro de memórias que acaba de publicar, «The age of turbulence: adventures in a New World», o economista nomeado pelo presidente Reagan que presidiu durante mais de 18 anos à Reserva Federal dos E. U. A., acusa George W. Bush de ter ordenado a invasão do Iraque, em Março de 2003, para controlar o petróleo produzido nesse país. O senhor Alan Greenspan sabe bem do que fala e é bastante claro: «Entristece-me que seja inconveniente reconhecer publicamente o que todo o mundo sabe: que a guerra no Iraque foi basicamente por causa do petróleo». Então isso diz-se, senhor Greenspan?!
Afinal, sempre foi o petróleo, estúpido! O que é uma decepção, não só para o tal economista, mas também para muitos «ideólogos bombistas» que, ainda hoje, passados quase cinco anos de puro terror sobre a invasão do Iraque, são incapazes de reconhecer os erros de avaliação que cometeram e as tristes figuras que fizeram. O que nem é assim tão surpreendente, se pensarmos que, ao invés dos neo-conservadores norte-americanos, os «ideólogos bombistas» lusitanos continuam, todos eles, no poleiro a cantar de galo.
TANTO OU MAIS IMPORTANTE do que conhecer o já célebre documento que estabelece a nova «Estratégia Nacional de Segurança dos Estados Unidos» - publicado em 20 de Setembro de 2002 pela Administração do presidente George W. Bush - é analisar o não tão famoso relatório do «Grupo de Desenvolvimento da Política Energética Nacional» dos E.U.A. - redigido pelo vice-presidente Richard Cheney e publicado em 17 de Maio de 2001. Pouco propensos a economizar energia e bastante cépticos em relação ao desenvolvimento das chamadas energias renováveis, os E.U.A. deixaram há muito tempo de ser exportadores de petróleo e estão cada vez mais dependentes do petróleo importado, designadamente do Médio Oriente. A dependência norte-americana do petróleo estrangeiro rondava os 45 por cento do seu consumo total em 1997, trepou para 52 por cento em 2001 e prevê-se que vá atingir os 66 por cento em 2020. Daí a urgência de definir uma nova estratégia capaz de dar resposta ao aumento das necessidades de petróleo nos próximos 25 anos. É o que se faz no citado relatório, que «recomenda» à Administração do presidente George W. Bush que eleja o desenvolvimento das importações petrolíferas como «prioridade da sua política comercial e da sua política externa». Por isso se justifica tanto a paráfrase: é o petróleo, estúpido!Talvez se perceba melhor esta sede insaciável de petróleo, se tivermos em conta que os cidadãos norte-americanos gostam imenso de grandes automóveis e de veículos 4x4 (ou seja, todo-o-terreno) mas consideram absolutamente anormal - mesmo inadmissível - pagar muito mais do que um dólar (mais ou menos um euro) por cada galão de carburante (isto é, por 3,785 litros de gasolina). E nenhum político americano que queira ser eleito se atreverá a contrariá-los. Armas para todos e gasolina barata são emblemas do «american way of life». Se a isto juntarmos os poderosíssimos interesses das indústrias directa ou indirectamente ligadas à produção de todo o tipo de armamentos e os não menos poderosos interesses do «lobby» do petróleo, será bastante mais fácil compreender porque é que «Bush Filho, Dick Cheney & Friends» querem à viva força «libertar» o Iraque e manter tropas no Afeganistão, no Paquistão, nos Balcãs e em outros locais estratégicos dessa vastíssima região do mundo a que eles chamam Eurásia. Mais facilmente se perceberá, também, porque é que Osama Bin Laden e a Al Qaeda fazem, objectivamente, o jogo de Bush Filho e fornecem todos os argumentos de que Donald Rumsfeld e o Pentágono necessitam para operar a «revolução do pensamento militar» que está em curso nos E.U.A., para gáudio do «lobby» texano que os colocou no poder e dos «falcões» e «ideólogos bombistas» que os incitam à guerra.
Basta olhar para a carta do petróleo e para um mapa geoestratégico do mundo para se perceber porque é que Bush Filho prefere atacar o Iraque, de Saddam Hussein, e não a Coreia do Norte, de Kim Jong-Il. Aparentemente, seria mais «justificável» atacar a ditadura sanguinária do «Grande Sol do Século XXI», ou «Sublime Estrela Polar», porque tem armas de destruição maciça e seria bem mais fácil impôr uma democracia, ainda que «musculada», à semelhança do que acontece na Coreia do Sul. O problema é que não cheira a petróleo na Coreia do Norte e a China está mesmo ao pé. No Iraque, pelo contrário, há «ouro negro» a rodos (tem as segundas maiores reservas mundiais), o «Ladrão de Bagdade» está cada vez mais fraco e vulnerável e já não possui armas de destruição maciça. Além disso, o Irão e a Arábia Saudita (com as maiores reservas mundiais do precioso líquido) estão ali bem perto, dentro desse gigantesco «penico» do petróleo onde também cabem o Kuweit, o Bahrein, o Qatar e os Emirados Árabes Unidos. E há, ainda, Israel, sendo certo que Bush Filho deseja obter a todo o custo o apoio e o voto maciço do «lobby» judaico, para ser reeleito em 2004. A hiperpotência vadia depende cada vez mais dos recursos do resto do mundo. Os Estados párias são um bom pretexto para o Império projectar as suas forças. O pior virá depois.
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terça-feira, setembro 18, 2007
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sexta-feira, 31 de agosto de 2007
OS POBRES QUE PAGUEM A CRISE!
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Alfredo Barroso
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sexta-feira, agosto 31, 2007
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terça-feira, 14 de agosto de 2007
A Direita dos interesses rejubila e o país amocha
Seguem-se as perguntas feitas e respectivas respostas, estando em letra preta as que o jornal omitiu. Há, além disso, algumas - pequenas - diferenças entre o texto que aqui se afixa e o que veio a ser publicado, podendo este ser lido [aqui].
Um sportinguista interpreta o jogo da Supertaça FC Porto-Sporting como uma reposição da verdade desportiva?
Nos tempos que correm, a verdade desportiva anda muito por baixo, como se sabe. O Sporting terá sido prejudicado no campeonato e o FC Porto na Supertaça. Se pudesse escolher, teria preferido que o Sporting fosse campeão. Como não posso, consola-me que a Taça de Portugal e a Supertaça morem em Alvalade.
Prefere ver o seu Sporting no estádio, na mesa do café ou ouvir o relato na rádio?
Há muito que prefiro ver a bola sentado num sofá lá de casa. É mais fácil dormir quando o jogo se torna chato e sensaborão, com poucos ou nenhuns golos. O futebol está cada vez mais industrializado e tecnocrático e cada vez e menos interessante.
Paulo Bento é o «special one» do Sporting?
Não é, e ainda bem. O «special one» é um sobreexcitado e o Paulo Bento prefere treinar «com toda a tranquilidade». O Ricardo Araújo Pereira, que é «lampião», topou-o bem.
Simpatizava com Jesualdo Ferreira. Mudou de opinião desde que ele está a treinar o FCP?
Simpatizava, sim. Até escrevi algumas crónicas a elogiá-lo, no «DN». Mas parece-me que a arrogância lhe subiu à cabeça, quando passou a treinar o FCP. Não me agrada a forma como se refere a alguns adversários domésticos. Devia deixar esse «dirty job» para o especialista da casa, que é o presidente vitalício do clube.
Nasceu em Roma. O que há em si de italiano?
Sem dúvida o facto de ser filho de uma italiana. E o apelido Somera, que, por acaso, até é de origem espanhola. Talvez também a paixão pela ópera, apesar da minha melomania ter sido mais influenciada por alguns portugueses.
Tem saudades da tertúlia «Os vencidos da vida», que partilhava com António Barreto e António-Pedro de Vasconcelos? Qual a razão do nome?
Saudades não tenho. Mas as melhores referências até eram o Vasco Pulido Valente e o médico João Paulo Amorim, que já morreu. E não éramos nós que nos designávamos assim. Seria pretensioso fazê-lo. Eça, Ramalho e Antero são únicos e irrepetíveis.
É melómano. Ainda faz campeonatos com os amigos para ver quem tem mais CD?
Nunca fiz campeonatos desses com os amigos. Gostava era de ir comprar discos com alguns deles. E é verdade que, no princípio, comprávamos cd’s às cabazadas, seguindo o guia da Penguin elaborado por especialistas da revista Gramophone.
Quando terminou (se é que terminou) a sua fase rock, altura em que frequentava a discoteca lisboeta Ad Lib?
Poucas vezes fui ao Ad Lib. A boîte (assim se dizia in illo tempore) que mais frequentei foi a Stones. Para já não falar do Caruncho, onde ia abanar o capacete e beber um copo nos tempos do liceu e da faculdade. Ainda conservo uma pequena discoteca de música pop, completamente esmagada, é verdade, pela discoteca de música erudita.
Nunca o confundem com Alfredo Barroso, o histórico autarca do Redondo, banido pelo PCP?
Aconteceu uma vez, quando ele ainda era do PCP, a propósito de um abaixo-assinado sobre o Alqueva publicado nos jornais. Ele assinou e eu fui notícia.
Que televisão - pública e privada - temos hoje, uma década depois de ter publicado «A televisão que temos» (Contexto, 1995)?
A televisão generalista que descrevi nessas crónicas, a TQT, não mudou quase nada, nós é que nos habituámos a quase tudo. Como dizia o poeta, «estamos nus e gramamos».
Numa altura em que a ficção nacional parece querer ganhar espaço televisivo, defende que deve haver mais pudor na adaptação das obras de escritores como Camilo («Paixões Proibidas») ou Eça («O Crime do Padre Amaro»), ou esse pode ser um dos caminhos para despertar, nas pessoas que habitualmente não lêem, curiosidade sobre autores portugueses?
Duvido muito que desperte. É como a história dos «Três Tenores». Também diziam que era para despertar interesse pela ópera, mas apenas serviu para um Pavarotti decadente ganhar pipas de massa. De resto, não sou, nem quero ser, censor do gosto e só posso lamentar que algumas adaptações sejam abaixo de cão.
São vagamente conhecidas as suas zangas com Mário Soares, na altura em que era chefe da Casa Civil do Presidente da República. Qual dos dois era o osso mais difícil de roer?
Ao longo de mais de trinta anos de estreita colaboração política, alguns atritos pessoais eram inevitáveis. Foram zangas, como diz, e não braços-de-ferro de roer os ossos.
Foi, apesar de tudo, uma das pessoas a tentar demovê-lo de se candidatar às últimas presidenciais?
Não tentei demovê-lo, nem tentei empurrá-lo. Achava que ele não devia candidatar-se, mas nunca lho disse, por considerar que eu não tinha esse direito e que lhe cabia a ele tomar uma decisão. É um assunto arrumado, do qual só guardo más recordações.
Que leitura fez do país no dia da derrota?
A leitura óbvia: a de um país cujo eleitorado confirmava uma clara viragem à direita. Grande equívoco tinha sido considerar a vitória do engenheiro Sócrates nas eleições legislativas como uma vitória da esquerda. Era bom que fosse, mas não foi.
Continua a ser contra a regionalização?
Claro que sim. Mantêm-se de pé todas as razões de fundo que a desaconselham. Desde logo, a total incapacidade do poder político para descentralizar e desconcentrar. É por isso que prefere regionalizar, ou seja, retalhar para centralizar em miniatura.
Essa «esquerda moderna, que se diz muito amiga dos pobres, mas prefere deitar-se com os ricos» (http://sorumbatico.blogspot.com) está a conduzir o país para onde?
Está a conduzir um país resignado e sem alternativas credíveis para patamares de maior desigualdade e precariedade. A direita dos interesses rejubila, obviamente. E o país anónimo refila, mas amocha.
Irrita-o exactamente o quê em José Sócrates?
Já não tenho idade para me irritar. Apenas lamento que o PS seja hoje um instrumento de defesa dos grandes interesses financeiros e de empobrecimento da classe média e dos trabalhadores em geral. Quando vemos um avocat d’affaires como José Miguel Júdice a teorizar sobre a «esquerda moderna», está tudo dito sobre o estado actual do PS.
Quer explicar-me o que diz ser «a técnica da banda gástrica», que o Governo está a aplicar ao País?
Dantes, em períodos de crise económica, os trabalhadores tinham de apertar o cinto mas mantinham a esperança de vir a desapertá-lo. Hoje, o objectivo é apertar o estômago dos trabalhadores para que eles se desabituem de querer comer mais no futuro. Só ao capital financeiro é permitido comer à tripa forra e engordar sem limites.
Ao fim de 20 anos de colaboração no DN, e de nove no Expresso, foi «varrido». Foi um divórcio de comum acordo?
Regra geral, os cronistas convidados não se casam com os jornais. Ficam dependentes das «opções editorais» das suas direcções. Não as contesto, mas devo interpretá-las. E concluo que sou politicamente incorrecto e incómodo para os poderes do dia. Além de ter manifesta vocação para a dissidência. O facto de ter tido escandalosamente razão no que escrevi contra a guerra do Iraque e contra os Governos do engenheiro Guterres, foi um precedente que me tramou numa imprensa dirigida por «cristãos novos».
Acabou a liberdade de imprensa em Portugal?
Claro que não. Mas é evidente que quase todos os órgãos de comunicação social estão ideologicamente alinhados e controlados pela direita. Há alguns esquerdistas de serviço, que funcionam como uma espécie de «idiotas úteis» e «avalistas» nos jornais de direita. Mas os desalinhados e os dissidentes são banidos e marginalizados.
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Alfredo Barroso
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terça-feira, agosto 14, 2007
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terça-feira, 31 de julho de 2007
E VIVA O «PRECARIADO»!
EM ABONO DA VERDADE se diga que era a direita que queria pôr este país nos eixos. Mas a incompetência e o descrédito dos seus governos (Durão Barroso e Santana Lopes, ambos com Paulo Portas) fez com que eles caíssem, isto é, fugissem ou fossem corridos por indecente e má figura, para utilizar uma das expressões do povo fora dos eixos.
Criou-se, assim, um nicho (político) de mercado, propício a quem quisesse pôr o país na ordem - ou a pôr ordem no país, se optarmos por uma versão mais suave. Ordem nas contas públicas, no deve e haver do Estado, nos lucros das grandes empresas e nas perdas dos pequenos cidadãos, nos salários de quem ainda tem emprego, nos subsídios de quem já não o tem e nas reformas dos que estão a ficar com os pés para a cova.
O despropósito e despautério da direita lusíada fizeram com que esse formidável nicho de mercado viesse a ser ocupado, rapidamente e em força, pela chamada esquerda moderna (seja lá isso o que for), que se diz muito amiga dos pobres, mas prefere deitar-se com os ricos (certamente porque não cheiram mal da boca). E é nisso que estamos.
Sejamos sérios: para conservar a nação em bom estado, é preciso pôr o país nos eixos e meter o povo na ordem. O pedigree de esquerda (como diz o outro) é um óptimo disfarce e ajuda muito a convencer um país que é (pau) para toda a obra e por isso gosta de ser (pau) mandado. Um país que refila, mas amocha. Está habituado a resignar-se.
Ora, num país resignado e sem alternativas (o engenheiro Sócrates tirou o tapete programático ao doutor Marques Mendes e este foi espojar-se no Chão da Lagoa), conta bastante o ar severo de quem discursa, a catadura sombria de quem manda, a capacidade de indignação espectacular de quem está no poder. Indignação – imagine-se! – perante o atrevimento dos que não se resignam a ser tramados pelo poder e a ficar mais pobres e desamparados em consequência das reformas corajosas (?) que esse poder lhes impõe. (Já repararam que o nosso primeiro-ministro está sempre zangado quando discursa?).
Mas vejamos. Os partidos políticos que constituem o chamado bloco central (PS e PPD/PSD) ou o arco da governabilidade (expressão inventada pela direita para incluir também o CDS/PP, e, sobretudo, para excluir os que estão à esquerda do PS, ou seja, o PCP e o BE), estabeleceram dois critérios essenciais (ditados pela ortodoxia neo-liberal em voga) para avaliar o estado da nação, a saber: a redução (rápida e brutal) do défice orçamental; o aumento (mesmo que muito pindérico) da taxa de crescimento do PIB.
Pois bem. À luz destes dois critérios, ninguém duvidará de que a performance do governo da esquerda moderna chefiado pelo engenheiro Sócrates é bastante superior às performances dos patéticos governos da direita chefiados pelos doutores Durão Barroso e Santana Lopes (o que fugiu e o que anda por aí). Para já não falar da performance dos outros governos da esquerda moderna chefiados pelo engenheiro António Guterres (que se refugiou entre os refugiados das Nações Unidas). Agora é que a direita rejubila! Quer dizer: a direita dos interesses, das empresas, da alta finança, em suma: da massaroca!
Claro que, se avaliarmos os resultados deste governo da esquerda moderna à luz de outros critérios totalmente legítimos (embora não caros ao neo-liberalismo em voga) – por exemplo: o poder de compra dos cidadãos, que continua a diminuir; e a coesão da sociedade, que continua a degradar-se à medida em que cresce o desemprego, aumenta a precariedade e se alarga o fosso entre ricos e pobres –, é evidentemente desconsolador o balanço dos que estão acocorados no nicho político deixado vago pela direita lusíada.
Digamos que aquilo que este governo da esquerda moderna tem estado a fazer, com mais eficácia do que os governos anteriores e mais aplauso da direita da massaroca, é aplicar, à classe média em geral e aos trabalhadores em especial, a técnica da banda gástrica (novo método político cujos direitos de autor vou registar): já não se trata só de apertar o cinto, mas também de reduzir artificialmente a vontade de comer. No fundo, o propósito é o de reformatar a modernidade económica, banindo do vocabulário corrente as perigosíssimas noções de desenvolvimento humano, equidade e bem-estar social.
Estamos, assim, a assistir à emergência de uma nova classe social, a que alguns sociólogos já chamam «precariado». Uma espécie de neologismo que resulta da síntese dos termos proletariado (ao qual fora arrancada grande parte da classe média, no século XX) e precariedade (do emprego, do salário, da vida quotidiana e, portanto, do futuro). Viva, então, o precariado! Uma nova classe social tanto mais vulnerável quanto menos solidários e mais solitários forem os seus putativos membros – política e sindicalmente incapazes de se organizarem, envergonhados pela sua despromoção social, com receio de serem tratados como comunistas pela esquerda moderna e, por isso, já resignados.
Eu, que nunca fui comunista nem alguma vez pertenci à esquerda moderna (sou, mais prosaicamente, social-democrata genuíno, nada fictício), não tenciono resignar-me. Mas tenho perfeita consciência de que pouco ou nada posso fazer, para além das linhas desta prosa sorumbática - que não agrada ao poder do dia, seja ele político ou outro. Fui varrido há meses dos lugares de estilo onde se escreve prosa política convencional, isto é, atenta, veneradora e obrigada, ou, então, vagamente irreverente e inconformista q. b.. Pus agora a cabecinha de fora. Espero bem que não seja cortada. E viva o precariado!
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Alfredo Barroso
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terça-feira, julho 31, 2007
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sexta-feira, 13 de abril de 2007
A ESTÉTICA DO ALUMÍNIO
Esta advertência é indispensável para se perceber melhor a grande incomodidade e a imensa desdita de quem vive em «ALUMINIÓPOLIS». Já lá vão mais de vinte anos, o poeta avisou em prosa: «O alumínio está a expandir-se assustadoramente». Mais: «Por estes andares, Lisboa vai ter, não tarda muito, poentes e nascentes de alumínio». Já tem. Todo o país se passou, paulatinamente, para o alumínio. Em sentido real e figurado.
A estética do alumínio, com a sua caixilharia refulgente, saltou do urbanismo e da arquitectura de marquise para a política, a literatura, a música, os jornais, a rádio e a televisão de cordel. O «mau gosto gritante que o alumínio inculca» não é privilégio de mestres-de-obras e edis pragmáticos. É democraticamente partilhado por demagogos de feira, políticos de plástico, escrevinhadores a peso, publicistas a metro, apresentadores à hora, repórteres ao minuto, pantomineiros sem eira nem beira, aves canoras em saldo.
A estética do alumínio aposta a fundo na expressão de realce despropositada. É o frigorífico na sala de jantar com naperon em cima. É a inútil multiplicação de rotundas, cada qual com o seu mamarracho ao centro. É a bossa de camelo incrustada num corpo escorreito, que fica marreco. É o discurso da banha da cobra, que despreza a subtileza. É o riso alarve, que despreza a ironia. É o sonho dos néscios e o pesadelo dos incautos.
«Verdadeiros berros» e «autênticas fífias de alumínio» brotam insidiosamente de inúmeras fachadas, aproveitando todas as «janelas de oportunidade» para se expandirem e encaixilharem as suas marquises no nosso quotidiano de cidadãos desprevenidos. Já se sabe que uma larga maioria gosta e uma curta minoria não. Por isso, a pergunta do poeta lá se vai repetindo com ironia e desalento: «Então não é verdade que estamos kitsch?».
A democracia tem perversidades destas. É como «uma mulher em forma de S, de roupão florido e canteiro de papelotes à cabeça». Se estivesse vestida de papel de jornal «não faria mais restolho». É assim «porque é mais prático e, o que é pior, para tantos e tantos MAIS BONITO», como lamentava O’Neill. Mas também porque assim fica mais barato e é mais lucrativo. Indiferente ao gosto, o que o bezerro de oiro quer é facturar.
O o’neillismo é um pessimismo, como já perceberam. Mas não se confunde com resignação cristã. Mantém a lucidez e a ironia. Chateia-se solenemente. Protesta em voz alta. Indigna-se e não se conforma com a expansão do alumínio, reclamando o recurso a materiais mais nobres. Sem se iludir, todavia, quanto ao futuro da construção civil, dos mestres-de-obras e dos capatazes neste cada vez mais metafórico país encaixilhado em alumínio. Nem, aliás, quanto ao futuro da Pátria, da República, da Europa e do Mundo.
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Alfredo Barroso
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sexta-feira, abril 13, 2007
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sexta-feira, 6 de abril de 2007
UMA HISTÓRIA DE SERVIDÃO
UMA NAÇÃO SUJEITA DURANTE SÉCULOS ao terror físico e psicológico exercido pelos czares, os boiardos, a igreja ou o partido único dificilmente se libertará das tutelas que a oprimiram e dos hábitos que a servidão e a submissão nela inculcaram. Parece ser esta a única conclusão a retirar de quinhentos anos de história da velha Rússia, desde o sinistro reinado de Ivan o Terrível, entre 1533 e 1584, passando pela abdicação do czar Nicolau II, em Março de 1917, pela vitória da revolução bolchevique, em Outubro de 1917, pela «entronização» de José Estaline, em 1924, até à morte do czar vermelho, em 1953.É pelo menos esta a tese que defende o ex-diplomata russo Vladimir Fédorovski, num interessante ensaio histórico intitulado Le Roman du Kremlin, publicado em 2004. A partir do Kremlin - a fortaleza e o conjunto de igrejas e palácios que albergam a sede do poder, em Moscovo - Fédorovski percorre a história da Rússia, desde Ivan o Terrível até à actualidade, explicando como o poder político foi exercido - quer durante a tirania czarista quer durante a ditadura do proletariado - sobretudo graças à solidez da parceria sempre renovada entre os seus sucessivos detentores e uma temível polícia secreta.
A essência do poder, na Rússia, parece estar contida no compromisso assumido pelo ainda jovem czar Nicolau II, durante um discurso proferido perante a sua corte, no Kremlin: «Estou satisfeito por ver aqui os representantes de todas as classes, que vieram testemunhar os seus sentimentos de súbditos obedientes e submissos. Eu acredito nesses sentimentos, que sempre animaram o povo russo. E quero que saibam que vou manter o poder absoluto, com tanta firmeza como meu pai». Esta era uma claríssima advertência dirigida a todos quantos ainda alimentavam ilusões liberais ou reformistas. O novo czar correspondia, assim, aos alertas feitos pela sua temível polícia secreta, a Okhrana.
Foi crucial o papel desempenhado pela polícia política e pelos seus espiões, quer dentro quer fora das fronteiras da Rússia e tanto durante o regime czarista como durante o regime comunista. Esta é a faceta mais interessante do livro, ao explicar a evolução da «megapolícia secreta» russa. Desde a jurisdição de excepção - a opritchnina - instituída pelo crudelíssimo e paranóico Ivan o Terrível, passando pela Okhrana, dos Romanov, e pelo KGB, de Estaline, até ao actual FSB, cujos poderes foram bastante reforçados por Vladimir Putin (antigo coronel do KGB). Por isso, há quem tema «um KGB em vias de reconstituição» e alerte para um «processo de sovietização e restauração» da Rússia.
Impressiona esta atracção pelo mal. E o fascínio que os tiranos exercem. Estaline é um modelo. Tão cruel como Ivan o Terrível, o czar vermelho estudou com minúcia os métodos de tortura que o próprio Ivan praticava. Tão tímido e tão asceta como Salazar, vivia num «modesto apartamento de três divisões» improvisado no gigantesco Kremlin. Nada pior do que uma nação humilhada para desejar o regresso dos seus fantasmas.
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Alfredo Barroso
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sexta-feira, abril 06, 2007
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