sexta-feira, 31 de agosto de 2007
terça-feira, 14 de agosto de 2007
A Direita dos interesses rejubila e o país amocha
Seguem-se as perguntas feitas e respectivas respostas, estando em letra preta as que o jornal omitiu. Há, além disso, algumas - pequenas - diferenças entre o texto que aqui se afixa e o que veio a ser publicado, podendo este ser lido [aqui].
Um sportinguista interpreta o jogo da Supertaça FC Porto-Sporting como uma reposição da verdade desportiva?
Nos tempos que correm, a verdade desportiva anda muito por baixo, como se sabe. O Sporting terá sido prejudicado no campeonato e o FC Porto na Supertaça. Se pudesse escolher, teria preferido que o Sporting fosse campeão. Como não posso, consola-me que a Taça de Portugal e a Supertaça morem em Alvalade.
Prefere ver o seu Sporting no estádio, na mesa do café ou ouvir o relato na rádio?
Há muito que prefiro ver a bola sentado num sofá lá de casa. É mais fácil dormir quando o jogo se torna chato e sensaborão, com poucos ou nenhuns golos. O futebol está cada vez mais industrializado e tecnocrático e cada vez e menos interessante.
Paulo Bento é o «special one» do Sporting?
Não é, e ainda bem. O «special one» é um sobreexcitado e o Paulo Bento prefere treinar «com toda a tranquilidade». O Ricardo Araújo Pereira, que é «lampião», topou-o bem.
Simpatizava com Jesualdo Ferreira. Mudou de opinião desde que ele está a treinar o FCP?
Simpatizava, sim. Até escrevi algumas crónicas a elogiá-lo, no «DN». Mas parece-me que a arrogância lhe subiu à cabeça, quando passou a treinar o FCP. Não me agrada a forma como se refere a alguns adversários domésticos. Devia deixar esse «dirty job» para o especialista da casa, que é o presidente vitalício do clube.
Nasceu em Roma. O que há em si de italiano?
Sem dúvida o facto de ser filho de uma italiana. E o apelido Somera, que, por acaso, até é de origem espanhola. Talvez também a paixão pela ópera, apesar da minha melomania ter sido mais influenciada por alguns portugueses.
Tem saudades da tertúlia «Os vencidos da vida», que partilhava com António Barreto e António-Pedro de Vasconcelos? Qual a razão do nome?
Saudades não tenho. Mas as melhores referências até eram o Vasco Pulido Valente e o médico João Paulo Amorim, que já morreu. E não éramos nós que nos designávamos assim. Seria pretensioso fazê-lo. Eça, Ramalho e Antero são únicos e irrepetíveis.
É melómano. Ainda faz campeonatos com os amigos para ver quem tem mais CD?
Nunca fiz campeonatos desses com os amigos. Gostava era de ir comprar discos com alguns deles. E é verdade que, no princípio, comprávamos cd’s às cabazadas, seguindo o guia da Penguin elaborado por especialistas da revista Gramophone.
Quando terminou (se é que terminou) a sua fase rock, altura em que frequentava a discoteca lisboeta Ad Lib?
Poucas vezes fui ao Ad Lib. A boîte (assim se dizia in illo tempore) que mais frequentei foi a Stones. Para já não falar do Caruncho, onde ia abanar o capacete e beber um copo nos tempos do liceu e da faculdade. Ainda conservo uma pequena discoteca de música pop, completamente esmagada, é verdade, pela discoteca de música erudita.
Nunca o confundem com Alfredo Barroso, o histórico autarca do Redondo, banido pelo PCP?
Aconteceu uma vez, quando ele ainda era do PCP, a propósito de um abaixo-assinado sobre o Alqueva publicado nos jornais. Ele assinou e eu fui notícia.
Que televisão - pública e privada - temos hoje, uma década depois de ter publicado «A televisão que temos» (Contexto, 1995)?
A televisão generalista que descrevi nessas crónicas, a TQT, não mudou quase nada, nós é que nos habituámos a quase tudo. Como dizia o poeta, «estamos nus e gramamos».
Numa altura em que a ficção nacional parece querer ganhar espaço televisivo, defende que deve haver mais pudor na adaptação das obras de escritores como Camilo («Paixões Proibidas») ou Eça («O Crime do Padre Amaro»), ou esse pode ser um dos caminhos para despertar, nas pessoas que habitualmente não lêem, curiosidade sobre autores portugueses?
Duvido muito que desperte. É como a história dos «Três Tenores». Também diziam que era para despertar interesse pela ópera, mas apenas serviu para um Pavarotti decadente ganhar pipas de massa. De resto, não sou, nem quero ser, censor do gosto e só posso lamentar que algumas adaptações sejam abaixo de cão.
São vagamente conhecidas as suas zangas com Mário Soares, na altura em que era chefe da Casa Civil do Presidente da República. Qual dos dois era o osso mais difícil de roer?
Ao longo de mais de trinta anos de estreita colaboração política, alguns atritos pessoais eram inevitáveis. Foram zangas, como diz, e não braços-de-ferro de roer os ossos.
Foi, apesar de tudo, uma das pessoas a tentar demovê-lo de se candidatar às últimas presidenciais?
Não tentei demovê-lo, nem tentei empurrá-lo. Achava que ele não devia candidatar-se, mas nunca lho disse, por considerar que eu não tinha esse direito e que lhe cabia a ele tomar uma decisão. É um assunto arrumado, do qual só guardo más recordações.
Que leitura fez do país no dia da derrota?
A leitura óbvia: a de um país cujo eleitorado confirmava uma clara viragem à direita. Grande equívoco tinha sido considerar a vitória do engenheiro Sócrates nas eleições legislativas como uma vitória da esquerda. Era bom que fosse, mas não foi.
Continua a ser contra a regionalização?
Claro que sim. Mantêm-se de pé todas as razões de fundo que a desaconselham. Desde logo, a total incapacidade do poder político para descentralizar e desconcentrar. É por isso que prefere regionalizar, ou seja, retalhar para centralizar em miniatura.
Essa «esquerda moderna, que se diz muito amiga dos pobres, mas prefere deitar-se com os ricos» (http://sorumbatico.blogspot.com) está a conduzir o país para onde?
Está a conduzir um país resignado e sem alternativas credíveis para patamares de maior desigualdade e precariedade. A direita dos interesses rejubila, obviamente. E o país anónimo refila, mas amocha.
Irrita-o exactamente o quê em José Sócrates?
Já não tenho idade para me irritar. Apenas lamento que o PS seja hoje um instrumento de defesa dos grandes interesses financeiros e de empobrecimento da classe média e dos trabalhadores em geral. Quando vemos um avocat d’affaires como José Miguel Júdice a teorizar sobre a «esquerda moderna», está tudo dito sobre o estado actual do PS.
Quer explicar-me o que diz ser «a técnica da banda gástrica», que o Governo está a aplicar ao País?
Dantes, em períodos de crise económica, os trabalhadores tinham de apertar o cinto mas mantinham a esperança de vir a desapertá-lo. Hoje, o objectivo é apertar o estômago dos trabalhadores para que eles se desabituem de querer comer mais no futuro. Só ao capital financeiro é permitido comer à tripa forra e engordar sem limites.
Ao fim de 20 anos de colaboração no DN, e de nove no Expresso, foi «varrido». Foi um divórcio de comum acordo?
Regra geral, os cronistas convidados não se casam com os jornais. Ficam dependentes das «opções editorais» das suas direcções. Não as contesto, mas devo interpretá-las. E concluo que sou politicamente incorrecto e incómodo para os poderes do dia. Além de ter manifesta vocação para a dissidência. O facto de ter tido escandalosamente razão no que escrevi contra a guerra do Iraque e contra os Governos do engenheiro Guterres, foi um precedente que me tramou numa imprensa dirigida por «cristãos novos».
Acabou a liberdade de imprensa em Portugal?
Claro que não. Mas é evidente que quase todos os órgãos de comunicação social estão ideologicamente alinhados e controlados pela direita. Há alguns esquerdistas de serviço, que funcionam como uma espécie de «idiotas úteis» e «avalistas» nos jornais de direita. Mas os desalinhados e os dissidentes são banidos e marginalizados.
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terça-feira, agosto 14, 2007
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terça-feira, 31 de julho de 2007
E VIVA O «PRECARIADO»!
EM ABONO DA VERDADE se diga que era a direita que queria pôr este país nos eixos. Mas a incompetência e o descrédito dos seus governos (Durão Barroso e Santana Lopes, ambos com Paulo Portas) fez com que eles caíssem, isto é, fugissem ou fossem corridos por indecente e má figura, para utilizar uma das expressões do povo fora dos eixos.
Criou-se, assim, um nicho (político) de mercado, propício a quem quisesse pôr o país na ordem - ou a pôr ordem no país, se optarmos por uma versão mais suave. Ordem nas contas públicas, no deve e haver do Estado, nos lucros das grandes empresas e nas perdas dos pequenos cidadãos, nos salários de quem ainda tem emprego, nos subsídios de quem já não o tem e nas reformas dos que estão a ficar com os pés para a cova.
O despropósito e despautério da direita lusíada fizeram com que esse formidável nicho de mercado viesse a ser ocupado, rapidamente e em força, pela chamada esquerda moderna (seja lá isso o que for), que se diz muito amiga dos pobres, mas prefere deitar-se com os ricos (certamente porque não cheiram mal da boca). E é nisso que estamos.
Sejamos sérios: para conservar a nação em bom estado, é preciso pôr o país nos eixos e meter o povo na ordem. O pedigree de esquerda (como diz o outro) é um óptimo disfarce e ajuda muito a convencer um país que é (pau) para toda a obra e por isso gosta de ser (pau) mandado. Um país que refila, mas amocha. Está habituado a resignar-se.
Ora, num país resignado e sem alternativas (o engenheiro Sócrates tirou o tapete programático ao doutor Marques Mendes e este foi espojar-se no Chão da Lagoa), conta bastante o ar severo de quem discursa, a catadura sombria de quem manda, a capacidade de indignação espectacular de quem está no poder. Indignação – imagine-se! – perante o atrevimento dos que não se resignam a ser tramados pelo poder e a ficar mais pobres e desamparados em consequência das reformas corajosas (?) que esse poder lhes impõe. (Já repararam que o nosso primeiro-ministro está sempre zangado quando discursa?).
Mas vejamos. Os partidos políticos que constituem o chamado bloco central (PS e PPD/PSD) ou o arco da governabilidade (expressão inventada pela direita para incluir também o CDS/PP, e, sobretudo, para excluir os que estão à esquerda do PS, ou seja, o PCP e o BE), estabeleceram dois critérios essenciais (ditados pela ortodoxia neo-liberal em voga) para avaliar o estado da nação, a saber: a redução (rápida e brutal) do défice orçamental; o aumento (mesmo que muito pindérico) da taxa de crescimento do PIB.
Pois bem. À luz destes dois critérios, ninguém duvidará de que a performance do governo da esquerda moderna chefiado pelo engenheiro Sócrates é bastante superior às performances dos patéticos governos da direita chefiados pelos doutores Durão Barroso e Santana Lopes (o que fugiu e o que anda por aí). Para já não falar da performance dos outros governos da esquerda moderna chefiados pelo engenheiro António Guterres (que se refugiou entre os refugiados das Nações Unidas). Agora é que a direita rejubila! Quer dizer: a direita dos interesses, das empresas, da alta finança, em suma: da massaroca!
Claro que, se avaliarmos os resultados deste governo da esquerda moderna à luz de outros critérios totalmente legítimos (embora não caros ao neo-liberalismo em voga) – por exemplo: o poder de compra dos cidadãos, que continua a diminuir; e a coesão da sociedade, que continua a degradar-se à medida em que cresce o desemprego, aumenta a precariedade e se alarga o fosso entre ricos e pobres –, é evidentemente desconsolador o balanço dos que estão acocorados no nicho político deixado vago pela direita lusíada.
Digamos que aquilo que este governo da esquerda moderna tem estado a fazer, com mais eficácia do que os governos anteriores e mais aplauso da direita da massaroca, é aplicar, à classe média em geral e aos trabalhadores em especial, a técnica da banda gástrica (novo método político cujos direitos de autor vou registar): já não se trata só de apertar o cinto, mas também de reduzir artificialmente a vontade de comer. No fundo, o propósito é o de reformatar a modernidade económica, banindo do vocabulário corrente as perigosíssimas noções de desenvolvimento humano, equidade e bem-estar social.
Estamos, assim, a assistir à emergência de uma nova classe social, a que alguns sociólogos já chamam «precariado». Uma espécie de neologismo que resulta da síntese dos termos proletariado (ao qual fora arrancada grande parte da classe média, no século XX) e precariedade (do emprego, do salário, da vida quotidiana e, portanto, do futuro). Viva, então, o precariado! Uma nova classe social tanto mais vulnerável quanto menos solidários e mais solitários forem os seus putativos membros – política e sindicalmente incapazes de se organizarem, envergonhados pela sua despromoção social, com receio de serem tratados como comunistas pela esquerda moderna e, por isso, já resignados.
Eu, que nunca fui comunista nem alguma vez pertenci à esquerda moderna (sou, mais prosaicamente, social-democrata genuíno, nada fictício), não tenciono resignar-me. Mas tenho perfeita consciência de que pouco ou nada posso fazer, para além das linhas desta prosa sorumbática - que não agrada ao poder do dia, seja ele político ou outro. Fui varrido há meses dos lugares de estilo onde se escreve prosa política convencional, isto é, atenta, veneradora e obrigada, ou, então, vagamente irreverente e inconformista q. b.. Pus agora a cabecinha de fora. Espero bem que não seja cortada. E viva o precariado!
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Alfredo Barroso
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terça-feira, julho 31, 2007
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sexta-feira, 13 de abril de 2007
A ESTÉTICA DO ALUMÍNIO
Esta advertência é indispensável para se perceber melhor a grande incomodidade e a imensa desdita de quem vive em «ALUMINIÓPOLIS». Já lá vão mais de vinte anos, o poeta avisou em prosa: «O alumínio está a expandir-se assustadoramente». Mais: «Por estes andares, Lisboa vai ter, não tarda muito, poentes e nascentes de alumínio». Já tem. Todo o país se passou, paulatinamente, para o alumínio. Em sentido real e figurado.
A estética do alumínio, com a sua caixilharia refulgente, saltou do urbanismo e da arquitectura de marquise para a política, a literatura, a música, os jornais, a rádio e a televisão de cordel. O «mau gosto gritante que o alumínio inculca» não é privilégio de mestres-de-obras e edis pragmáticos. É democraticamente partilhado por demagogos de feira, políticos de plástico, escrevinhadores a peso, publicistas a metro, apresentadores à hora, repórteres ao minuto, pantomineiros sem eira nem beira, aves canoras em saldo.
A estética do alumínio aposta a fundo na expressão de realce despropositada. É o frigorífico na sala de jantar com naperon em cima. É a inútil multiplicação de rotundas, cada qual com o seu mamarracho ao centro. É a bossa de camelo incrustada num corpo escorreito, que fica marreco. É o discurso da banha da cobra, que despreza a subtileza. É o riso alarve, que despreza a ironia. É o sonho dos néscios e o pesadelo dos incautos.
«Verdadeiros berros» e «autênticas fífias de alumínio» brotam insidiosamente de inúmeras fachadas, aproveitando todas as «janelas de oportunidade» para se expandirem e encaixilharem as suas marquises no nosso quotidiano de cidadãos desprevenidos. Já se sabe que uma larga maioria gosta e uma curta minoria não. Por isso, a pergunta do poeta lá se vai repetindo com ironia e desalento: «Então não é verdade que estamos kitsch?».
A democracia tem perversidades destas. É como «uma mulher em forma de S, de roupão florido e canteiro de papelotes à cabeça». Se estivesse vestida de papel de jornal «não faria mais restolho». É assim «porque é mais prático e, o que é pior, para tantos e tantos MAIS BONITO», como lamentava O’Neill. Mas também porque assim fica mais barato e é mais lucrativo. Indiferente ao gosto, o que o bezerro de oiro quer é facturar.
O o’neillismo é um pessimismo, como já perceberam. Mas não se confunde com resignação cristã. Mantém a lucidez e a ironia. Chateia-se solenemente. Protesta em voz alta. Indigna-se e não se conforma com a expansão do alumínio, reclamando o recurso a materiais mais nobres. Sem se iludir, todavia, quanto ao futuro da construção civil, dos mestres-de-obras e dos capatazes neste cada vez mais metafórico país encaixilhado em alumínio. Nem, aliás, quanto ao futuro da Pátria, da República, da Europa e do Mundo.
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Alfredo Barroso
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sexta-feira, abril 13, 2007
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sexta-feira, 6 de abril de 2007
UMA HISTÓRIA DE SERVIDÃO
UMA NAÇÃO SUJEITA DURANTE SÉCULOS ao terror físico e psicológico exercido pelos czares, os boiardos, a igreja ou o partido único dificilmente se libertará das tutelas que a oprimiram e dos hábitos que a servidão e a submissão nela inculcaram. Parece ser esta a única conclusão a retirar de quinhentos anos de história da velha Rússia, desde o sinistro reinado de Ivan o Terrível, entre 1533 e 1584, passando pela abdicação do czar Nicolau II, em Março de 1917, pela vitória da revolução bolchevique, em Outubro de 1917, pela «entronização» de José Estaline, em 1924, até à morte do czar vermelho, em 1953.É pelo menos esta a tese que defende o ex-diplomata russo Vladimir Fédorovski, num interessante ensaio histórico intitulado Le Roman du Kremlin, publicado em 2004. A partir do Kremlin - a fortaleza e o conjunto de igrejas e palácios que albergam a sede do poder, em Moscovo - Fédorovski percorre a história da Rússia, desde Ivan o Terrível até à actualidade, explicando como o poder político foi exercido - quer durante a tirania czarista quer durante a ditadura do proletariado - sobretudo graças à solidez da parceria sempre renovada entre os seus sucessivos detentores e uma temível polícia secreta.
A essência do poder, na Rússia, parece estar contida no compromisso assumido pelo ainda jovem czar Nicolau II, durante um discurso proferido perante a sua corte, no Kremlin: «Estou satisfeito por ver aqui os representantes de todas as classes, que vieram testemunhar os seus sentimentos de súbditos obedientes e submissos. Eu acredito nesses sentimentos, que sempre animaram o povo russo. E quero que saibam que vou manter o poder absoluto, com tanta firmeza como meu pai». Esta era uma claríssima advertência dirigida a todos quantos ainda alimentavam ilusões liberais ou reformistas. O novo czar correspondia, assim, aos alertas feitos pela sua temível polícia secreta, a Okhrana.
Foi crucial o papel desempenhado pela polícia política e pelos seus espiões, quer dentro quer fora das fronteiras da Rússia e tanto durante o regime czarista como durante o regime comunista. Esta é a faceta mais interessante do livro, ao explicar a evolução da «megapolícia secreta» russa. Desde a jurisdição de excepção - a opritchnina - instituída pelo crudelíssimo e paranóico Ivan o Terrível, passando pela Okhrana, dos Romanov, e pelo KGB, de Estaline, até ao actual FSB, cujos poderes foram bastante reforçados por Vladimir Putin (antigo coronel do KGB). Por isso, há quem tema «um KGB em vias de reconstituição» e alerte para um «processo de sovietização e restauração» da Rússia.
Impressiona esta atracção pelo mal. E o fascínio que os tiranos exercem. Estaline é um modelo. Tão cruel como Ivan o Terrível, o czar vermelho estudou com minúcia os métodos de tortura que o próprio Ivan praticava. Tão tímido e tão asceta como Salazar, vivia num «modesto apartamento de três divisões» improvisado no gigantesco Kremlin. Nada pior do que uma nação humilhada para desejar o regresso dos seus fantasmas.
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sexta-feira, abril 06, 2007
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sexta-feira, 30 de março de 2007
O SÉCULO DE CONRAD
MUITO ANTES DE FRANCIS FORD COPPOLA se ter inspirado na extraordinária novela O Coração das Trevas, para realizar o filme Apocalypse Now (1979), já a filósofa Hannah Arendt considerara essa obra mais emblemática de Joseph Conrad como «a que melhor nos pode esclarecer sobre a verdadeira experiência do racismo em África», construindo a partir dela o capítulo III - Raça e burocracia - da segunda parte - O Imperialismo - do seu monumental estudo sobre As Origens do Totalitarismo, publicado em 1951.Podemos recuar ainda mais no «terrível século XX», em cujas trevas mergulhou a prosa desoladamente lúcida de Conrad, para irmos ao encontro de outros que também perceberam até que ponto a vastíssima obra literária desse eslavo anglófilo, nascido no século XIX, intuía e prenunciava tantos horrores que devastaram a Europa colonialista, imperialista, culta e decadente, sobretudo na primeira metade do século passado. Desde logo André Gide, que aprendeu inglês expressamente para poder ler Conrad no original. Mas também Thomas Mann, que lhe dedicou um belo ensaio, em 1925, no qual analisa o «brilhante e fascinante romance policial e político» que é O Agente Secreto.
Józef Teodor Nalecz Konrad Korzeniowski, polaco de pai e mãe, como o nome de baptismo indica, nasceu em 1857, há século e meio. O romance O Agente Secreto foi publicado em 1907, há um século. Duas efemérides que constituem um óptimo pretexto para convocar de novo a obra de Joseph Conrad (1857-1924) e incitar novas gerações a lê-la. Se possível no original, como André Gide. Apesar de o inglês ser a terceira língua de Conrad, a seguir ao polaco e ao francês, era aquela que mais admirava e foi a que ele adoptou (tardiamente, aos 21 anos) para escrever sobre o «espectáculo enigmático» e «a empresa perigosa que é a nossa existência», captando o «fragmento salvo da voracidade do tempo», tornando ficção mais do que «um episódio inquietante nas vidas obscuras de alguns indivíduos, arrancados à multidão ignorada dos perplexos, dos simples, dos que não têm voz» - como ele nos explica no famoso prefácio a O Negro do Narciso.
A ganância, a vontade de dominação, os abismos de crueldade a que uma e outra podem conduzir os homens, por mais civilizados que se considerem, estão patentes em obras tão poderosas como O Coração das Trevas (1902), Nostromo (1904) ou O Agente Secreto (1907), na qual Conrad prova ser um escritor tão extraordinário em terra firme como nos rios e mares que banham quase toda a sua obra. E há, também, essa admirável história de redenção pessoal de um jovem marinheiro, que é Lord Jim (1900). E todas as outras obras escritas por esse aristocrata polaco que quis ser contrabandista e marinheiro antes de se tornar inglês e escritor - transformando-se em Jóia da Coroa Britânica, como hoje o evoca Juan Gabriel Vásquez na sua esplêndida História Secreta de Costaguana, o nome da república sul-americana inventada por Conrad há mais de um século!
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sexta-feira, março 30, 2007
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sexta-feira, 23 de março de 2007
TIRANOS CULTOS
O certo é que, como ainda recentemente notava o historiador e filósofo Tzvetan Todorov, o profundo conhecimento dos clássicos chineses não impediu Mao Zedong de se tornar num dos maiores criminosos do século XX. Como se o exercício despótico do poder político e a frequentação dos clássicos fossem actividades totalmente dissociadas, permanecendo isoladas em compartimentos estanques na cabeça de um tirano.
Ao longo da história, não são assim tão raros os exemplos, porventura anómalos, de coexistência de cultura e crueldade no espírito de um déspota. Átila (395-453), único imperador dos Hunos, é um caso assaz curioso e enigmático. Sempre designado como o flagelo de Deus e apresentado como símbolo da ferocidade dos bárbaros e sinónimo de massacre e devastação, a verdade é que era um homem cultivado, falava fluentemente o grego e o latim, era um diplomata excepcional e um grande estratego – uma espécie de Napoleão que logrou, em 15 anos, construir um império do Danúbio aos Urais.
Numa excelente biografia de Átila (Gallimard, 2006), Eric Deschodt considera-o um «imperador anarquista», um homem encantador e tolerante, mais diplomata do que guerreiro, embora temível e implacável em combate. A sua ferocidade, que reflectia os costumes da época, não ultrapassava, no entanto, a dos generais romanos ou persas. Eric Deschodt salienta, aliás, que «a ferocidade da maioria dos imperadores romanos do seu tempo ultrapassava, de longe, a de Átila, sem igualar a sua bravura e o seu génio». Átila queria ser amado e temido, preferindo a sedução ao terror. Podia ter conquistado Roma e Constantinopla, mas desdenhou fazê-lo. Matou milhares de inimigos em combate, mas nunca perseguiu ninguém. E admitiu que era ele «o pior inimigo» de si próprio.
Seria improvável lobrigarmos estas características pessoais em Estaline, um dos mais cruéis tiranos da História. Todavia, conforme nos revela Simon Sebag Montefiore no livro Estaline - A Corte do Czar Vermelho (Aletheia, 2006), esse déspota paranóico e hipocondríaco era um bon vivant, lia Goethe, Maupassant e Zola, admirava Dostoievski, adorava ópera, ouvia vezes sem conta o mesmo concerto de Mozart, era cinéfilo e fã de Spencer Tracy e Clark Gable. É irresistível compará-lo ao carrasco psicopata e nazi do sórdido romance de Jonathan Littell, Les Bienveillantes (Gallimard, 2006), capaz de ler Stendahl e Flaubert numa pausa entre dois massacres bem ordenados. Desgraçadamente, nem sempre se pode afirmar, como Dostoievski, que «a beleza salvará o mundo».
«DN-6ª» - 23 Mar 07
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Alfredo Barroso
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sexta-feira, março 23, 2007
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sexta-feira, 16 de março de 2007
POLÍTICOS PARADOXAIS

SERÁ POSSÍVEL UM POLÍTICO APRESENTAR-SE, por um lado, como um homem íntegro, fiel aos ideais e aos amigos, devoto do serviço público, homem de cultura, humanista e amante da justiça, preocupado com a sorte dos mais pobres e desfavorecidos, adepto da ajuda ao Terceiro Mundo, ecologista e defensor do meio-ambiente – e comportar-se, por outro lado, como um chefe de facção astuto e sectário, capaz de desferir golpes baixos e de montar operações clandestinas para tramar adversários ou afastar do caminho rivais do seu próprio bando, usando e abusando dos privilégios e usufruindo de todos os luxos, sem olhar a despesas sumptuárias efectuadas com o dinheiro dos contribuintes?
Se admitirmos que a política não é o terreno privilegiado das virtudes teologais, nem é redutível a uma visão maniqueísta em que só contam o Bem e o Mal, traduzindo-se, pelo contrário, numa actividade bastante complexa, em que nem tudo o que parece é, as aparências iludem e os melhores resultados tantas vezes só se atingem por caminhos tortuosos, métodos pouco ortodoxos e procedimentos inconfessáveis – então, a resposta àquela questão só pode ser afirmativa. Sim, em democracia, os políticos com dimensão e fôlego muito superiores aos de um cidadão comum, não são modelos de virtudes que aspirem à santidade, nem Savonarolas que pregam a moral e acabam numa pira!
A carreira de um político de longo curso – ou de um político fora do comum, se se preferir – está cheia de «belezas ácidas». Esta feliz expressão, usou-a Serge July há quase 20 anos, num brilhante ensaio intitulado Le Salon des Artistes, simultaneamente elogioso e crítico, generoso e cruel, sobre cinco «feras» que, nos anos finais da década de 1980, ainda dominavam a «arena» política em França: François Mitterrand, Jacques Chirac, Giscard d’Estaing, Raymond Barre e Michel Rocard. De entre eles, não hesito em destacar Mitterrand e Chirac como políticos de longo curso e fora do comum.
Em ambos assentam como luvas as palavras de Serge July: «Os grandes artistas da política distinguem-se do magote de ambiciosos pela sua fé nas virtudes curativas da derrota». Embora subestimando, por vezes, os seus adversários, o certo é que Mitterrand e Chirac sofreram e superaram várias derrotas. E, assim como Mitterrand e os seus fiéis foram «beber» no exemplo de De Gaulle para melhor o combater, também Chirac e os seus adeptos se inspiraram no «modelo mitterrandiano» para conquistar o Eliseu.
Como Mitterrand há uma dúzia de anos, é agora Chirac quem suscita livros com balanços da sua longa carreira política de 45 anos. Cito dois. Em L’Inconnu de l’Élysée, Pierre Péan, jornalista de esquerda, enaltece as suas qualidades humanas e políticas. Em Chirac, Mon Ami de Trente Ans, Jean-François Probst, político de direita e colaborador próximo de Chirac, rebaixa-o, apontando-lhe inconfessáveis defeitos e abusos de poder. É assim, contraditório e paradoxal, o retrato fidedigno de alguns políticos maiores.
«DN-6ª» de 16 Mar 07
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Alfredo Barroso
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sexta-feira, março 16, 2007
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sexta-feira, 9 de março de 2007
A «MERDA DO DIABO»
BASTA OBSERVAR O MAPA DE ÁFRICA, fixando o olhar no Golfo da Guiné e nos seus oito Estados ribeirinhos produtores de petróleo - com a Nigéria à cabeça, mas também Angola e São Tomé e Príncipe na lista - para se perceber porque é que, em Washington, esta zona geoestratégica crucial é designada como o «próximo Golfo» - «next Gulf». O volume de reservas de petróleo já recenseadas - a maior parte offshore - é de tal ordem, que o seu inevitável destino é tornar-se a grande alternativa ao Golfo Pérsico. A cobiça dos países do Ocidente, com os EUA à cabeça, só tem paralelo na avidez das chamadas potências emergentes como a China, a Índia e o Brasil, que também já lá estão.A «maldição do ouro negro» - «merda do diabo», como chamam ao petróleo em África - está bem patente nesse insustentável paradoxo que é a Nigéria. Apesar de ser o primeiro produtor de petróleo africano e o quinto maior produtor mundial, 70 por cento dos seus habitantes vivem com pouco mais de um euro por dia, em bairros de lata onde se amontoam aos milhões, ameaçados pelas emanações tóxicas que provocam doenças respiratórias, pelas constantes fugas de petróleo que devastam zonas agrícolas e zonas piscatórias poluindo a cadeia alimentar, pelo banditismo e a corrupção, pela cupidez dos interesses privados que tomaram conta das instituições públicas. Assim, não espanta que a Nigéria vegete no 159º lugar do ranking de desenvolvimento humano da ONU (entre 177 países) e que a esperança de vida dos nigerianos não ultrapasse os 44 anos.
Hoje, não faltam os estudos que confirmam o forte aumento de guerras civis em países produtores de petróleo, gás natural e diamantes, desde o início da década de 1970 até ao final do século XX. Também o recente filme de Edward Zwick sobre a tragédia da Serra Leoa - Diamante de Sangue - serviu para ilustrar esse «círculo vicioso» que faz mergulhar na pobreza e na desgraça tantos países da África e da Ásia. Alice Sindzingre descreve-o com toda a crueza no Le Monde: «detenção de um recurso natural cobiçado nos países ricos; competição entre “senhores da guerra” para controlar a sua predação e para comprar armas; populações submetidas pelo terror; guerra civil perpétua».
O que hoje os estudos revelam e o cinema põe em evidência, foi objecto, há mais de 20 anos, de um surpreendente romance intitulado Uma Ambição no Deserto, fruto da imaginação, ironia, premonição e talento do escritor egípcio Albert Cossery. O primeiro-ministro de um emirado pobre, pacífico e feliz - por não ter «merda do diabo»! - deseja desempenhar um papel de relevo na cena internacional, atraindo as atenções da «grande potência imperialista». Promove, então, uma frente de libertação fantasma, uma série de atentados à bomba e uma falsa sedição para alarmar os «chacais». A metáfora é perfeita. Os livros de Cossery, todos editados pela Antígona, merecem ser lidos de fio a pavio. A imaginação é fértil, os personagens delirantes, a ironia mordaz e a escrita soberba.
«DN-6ª» - 9 Mar 07
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sexta-feira, março 09, 2007
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sexta-feira, 2 de março de 2007
CARICATURAS CONTRA O MEDO
Plantu, um dos mais notáveis caricaturistas franceses da actualidade (Le Monde, L’Express), invocava há poucos meses a máxima de Pierre Desproges - «on peut rire de tout, mais pas avec n’importe qui» («pode-se rir de tudo, mas não com qualquer um») - reivindicando para si próprio o direito à autocensura. A título de exemplo, invocava o facto de «não entrar na vida privada dos homens políticos». E explicava que «talvez não seja preciso desenhar Maomé para criticar o fundamentalismo». Cá em baixo, na Terra, há alvos mais do que suficientes para caricaturar – barbudos, intolerantes e fanáticos, guias religiosos e chefes políticos (Ahmadinejad e Bush incluídos). Por isso mesmo, diz Plantu, convém «reflectir sobre as nossas responsabilidades antes de embarcarmos em ataques acima das nuvens». Mais: «Podemos ser cáusticos e agressivos, mas sem ódio, sem desprezo, com subtileza, para não cairmos na armadilha dos integristas».
A posição adoptada por Plantu é compreensível e séria, tendo em conta o tipo de publicações em que colabora. Mas decorre de uma opção pessoal do caricaturista e não pode ser erigida em regra. Um jornal satírico dificilmente sobreviveria, se adoptasse tal critério. Por isso, é inteiramente legítima a atitude assumida pelo jornal Charlie Hebdo durante o julgamento de que foi alvo, em Paris, acusado por organizações islâmicas de publicar caricaturas que constituem uma «injúria pública contra um grupo de pessoas devido à sua religião» (a sentença só será conhecida a 15 de Março). Como sublinhou o seu director, Philipe Val: «Em terra laica, a religião não é um poder político. E, quando pretenda sê-lo, é preciso que ela aceite ser repelida para o domínio privado que é o seu». Sempre que qualquer religião revele o desejo de impor as suas regras a uma sociedade democrática - que é, por natureza, laica - tem de ser tratada exactamente de acordo com aquilo que é: «uma ideologia como qualquer outra, sujeita a todas as críticas».
Tão importante como não cairmos na armadilha dos integristas, com diz Plantu, é não cairmos na armadilha da nossa própria tolerância. O processo do Charlie Hebdo é um claro aviso. É essencial não dobrar a espinha. É preciso não ceder ao medo!
«DN-6ª» - 2 Mar 07
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sexta-feira, março 02, 2007
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sexta-feira, 23 de fevereiro de 2007
MÚSICA E PALAVRAS
«DN-6ª» de 23 Fev 07
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sexta-feira, 16 de fevereiro de 2007
SOB O SIGNO DE ORFEU
Poderemos imaginar o cenário em que foi concebida a primeira grande ópera da história da música, se pensarmos que o Palácio Ducal de Mântua era, todo ele, decorado por obras de grandes artistas da Renascença, como Corregio, Il Perugino, Mantegna ou Ticiano - e que Rubens foi o pintor oficial do Duque de Mântua entre 1600 e 1608.
Protegido por Vincenzo Gonzaga foi também Torquato Tasso, cuja poesia serviu de inspiração para muitos dos belíssimos madrigais compostos por Monteverdi. Da obra mais famosa de Tasso, Jerusalém Libertada, Monteverdi escolheu as mais belas estrofes do Canto X para compor outra das suas obras-primas, Il Combattimento di Tancredi e di Clorinda, estreada em 1624, quando o «oracolo della musica» já vivia em Veneza.
Mas a ópera L’Orfeo é um marco incontornável da história da música, porque é a obra fundadora da mais completa de todas as artes, porventura a «arte total», justamente por incorporar todas as outras artes – desde a música à literatura, passando pelo teatro e pela pintura. E é uma ópera sublime, de rara emoção e beleza, na qual o texto, a intriga, a arte cénica, o canto e a música instrumental se conjugam numa perfeita síntese.
A beleza de L’Orfeo é comparável ao esplendor das Vespro della Beata Vergine, obra publicada por Claudio Monteverdi em 1610, sem dúvida alguma a mais admirável e mais impressionante de todas as obras de música sacra alguma vez ouvidas, antes das Paixões de Bach. Tanto L’Orfeo como as Vespro della Beata Vergine ilustram o talento verdadeiramente genial de Monteverdi, que consegue ser inovador e, mesmo, profético, sem renunciar à herança da polifonia quinhentista, que ele incorpora no estilo novo. Foi ao operar a síntese entre tradição e inovação, justapondo o antigo e o moderno de modo tão criativo, que Monteverdi se tornou num compositor pioneiro e revolucionário.
A escolha do mito de Orfeu como tema da sua primeira obra dramática, justifica-se duplamente. Por um lado, enquanto «drama grego», tal mito ajusta-se na perfeição ao estilo novo, que cultiva a antiguidade clássica. Por outro lado, como salientou Nikolaus Harnoncourt, o mito de Orfeu oferece a Monteverdi uma «perspectiva programática»: a de «cantar o poder da Música, que triunfa sobre tudo e todos». Como disse Platão: «ela penetra no interior da alma» e «apodera-se dela da forma mais enérgica». Com a música de Monteverdi, ascendemos aos domínios do inefável. O seu fascínio é irresistível.
«DN-6ª» de 16 Fev 07
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sexta-feira, fevereiro 16, 2007
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sexta-feira, 9 de fevereiro de 2007
A POLÍTICA DO MEDO
A «CRUZADA ANTICOMUNISTA» e a «caça às bruxas» desencadeadas pelo senador Joe McCarthy no começo da Guerra Fria, entre 1950 e 1954, constituem um dos capítulos mais negros e vergonhosos, não só da história do Partido Republicano, mas da própria história da democracia nos EUA. Num excelente e documentado ensaio intitulado The Age of Anxiety - McCarthysm to Terrorism, o jornalista e historiador norte-americano Haynes Johnson recorda outro episódio negro da história dos EUA: a onda de histeria colectiva provocada pelo Grande Pânico Vermelho (Great Red Scare), nos anos que se seguiram à I Guerra Mundial. Mas o seu objectivo fundamental é analisar e descrever, em pormenor, o McCarthysmo, pondo em relevo os paralelismos e as semelhanças que devem estabelecer-se entre esse período negro da história dos EUA e o período actual, iniciado já no século XXI, após os atentados de 11 de Setembro de 2001. Como Haynes Johnson salienta, o McCarthysmo continua a ser uma história sem fim à vista.Tal como na época do McCarthysmo, a América de George W. Bush tem vindo a experimentar novos exemplos de tácticas de manipulação e intimidação características do senador McCarthy. Desta vez, porém, a iniciativa foi do próprio Presidente. Desde os atentados de 11 de Setembro, sucederam-se os exemplos de assassínios de carácter, de ofensas ao bom nome dos opositores, de acusações de falta de patriotismo dirigidas aos críticos da administração, de pressões exercidas sobre os meios de comunicação social, o Congresso e o poder judicial, de fugas selectivas de informação classificada visando a demonização de dissidentes, destruindo carreiras de funcionários públicos e manchando a reputação de oficiais das Forças Armadas. Tudo isto, restringindo e violando direitos, liberdades e garantias, recorrendo a métodos inquisitoriais do tipo «caça às bruxas» para intimidar os que se atrevem a protestar publicamente contra o Governo e não hesitando em invocar o segredo de Estado para encobrir os erros e mentiras do Governo.
O McCarthysmo foi o resultado da conjugação de ansiedades, medos e suspeitas difundidos na população, para criar um clima de histeria e paranóia na vida pública e na retórica política. Esses medos e suspeitas foram explorados e exacerbados, com cinismo e demagogia, por políticos oportunistas e sem escrúpulos, como Joseph McCarthy, que nunca hesitou em recorrer à mentira, à difamação e às falsas acusações. Haynes Johnson salienta que o McCarthysmo marcou indelevelmente, nos últimos 50 anos, a caminhada do Partido Republicano para a direita radical. No McCarthysmo mergulham as raízes do actual movimento conservador. Foi nele que foram beber os antigos esquerdistas que se tornaram neoconservadores. A chamada «cultura de guerra» que contamina os discursos de muitos políticos e intelectuais nos EUA, é outra das heranças do McCarthysmo. Quer no plano interno, quer no plano externo, a política do medo tem sido desastrosa.
«DN» - 09 Fev 07
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sexta-feira, 2 de fevereiro de 2007
ÚLTIMOS CIGARROS
HÁ O ALCATRÃO, a nicotina e o monóxido de carbono. Bem sei. Mas há, também, o polónio-210 (210Po), «a pior de todas as substâncias», descoberto em 1898 por Pierre e Marie Curie. É mil vezes mais tóxico do que o plutónio e um milhão de vezes mais do que o cianeto. Dez microgramas bastam para matar, lenta e irreversivelmente. Como no caso do ex-espião soviético Alexandre Litvinenko, envenenado por essa dose letal, que lhe devorou todos os glóbulos vermelhos nas últimas semanas de 2006.Como explica Fabien Gruhier, num artigo publicado em Le Nouvel Observateur, o polónio-210 está omnipresente na natureza e, mesmo, no organismo humano, embora em concentrações ínfimas, já que é permanentemente produzido pela desintegração do urânio e do tório, abundantes na crosta terrestre. Todavia, os fumadores absorvem mais polónio do que os não fumadores, por causa dos fosfatos ligeiramente radioactivos que são utilizados como fertilizantes nos campos de tabaco. Pior: em estudo científico feito nos EUA afirma-se que a inalação de polónio «natural», via fumo do cigarro, «contribui pelo menos em 90 por cento para os cancros do pulmão dos fumadores».
Aconselhado por um médico especialista, que nem sequer me falou do polónio e me poupou a um sermão sobre os malefícios do tabaco, preparo-me para fumar o último cigarro dentro de poucos dias. O primeiro impulso que tive, nem foi o de reler o célebre monólogo de Tchekov, que interpretei aos 18 anos, mas sim o de voltar a folhear a obra-prima de Ítalo Svevo, A Consciência de Zeno, publicada em 1923 (a Editorial Minerva deu à estampa uma versão portuguesa, pouco rigorosa e sem qualquer data). Espero bem que não me aconteça o mesmo que a Zeno Cosini, com as tentativas repetidas, inúteis e tragicómicas para deixar de fumar enquanto reflecte sobre a sua existência.
As reflexões e interrogações do protagonista, Zeno (ou do escritor, Ítalo Svevo, pseudónimo de Ettore Schmitz), fazem todo o sentido. É pior o vício, ou a obsessão de se libertar do vício? A doença, ou a obsessão da doença? Os dias cheios de cigarros, ou os dias plenos de promessas de não fumar mais? Não será só quando uma coisa ou uma pessoa está a ponto de se perder que o prazer se inflama? Como diria o velho higienista de Goldoni, quererei morrer são, depois de ter passado toda a vida doente? A vida – diz Zeno – parece-se um pouco com a doença. A grande diferença, relativamente às outras doenças, é que a vida é sempre mortal. E não suporta qualquer tratamento.
No leito de morte, após um acidente de automóvel, o escritor viu um sobrinho a fumar e pediu-lhe um cigarro. O sobrinho disse-lhe que não. E Svevo, já com a língua entaramelada, balbuciou: «Este seria verdadeiramente o último cigarro». Foi em 1928. Quase 80 anos depois, espero bem que o semáforo vermelho que me acenderam – e, já agora, o polónio-210 – me intimem a fumar o último cigarro daqui a uns dias.
«DN» - 02 Fev 07
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segunda-feira, 29 de janeiro de 2007
O EMBARAÇO DA ESCOLHA
Primeiro a Monarquia (1143-1910). Entre reis e outras personalidades políticas, elegi: D. Afonso Henriques (1108-1185), D. Dinis (1261-1325), D. João I (1357-1433), D. Duarte (1391-1438), o Infante D. Pedro (1392-1449), D. João II (1455-1495), Vasco da Gama (1469-1524), o Marquês de Pombal (1699-1782), D. Pedro IV (1798-1834), Mouzinho da Silveira (1780-1849) e Fontes Pereira de Melo (1819-1887). Para a minha lista dos 10, acabei por eleger D. João II, D. Pedro IV e Fontes Pereira de Melo.
Entre homens de cultura durante a Monarquia, elegi: Fernão Lopes (1380-1459), Gil Vicente (465-1536), Grão Vasco (1475-1542), João de Barros (1496-1570), Damião de Góis (1502-1574), Pedro Nunes (1502-1578), Fernão Mendes Pinto (1510-1583), Luís de Camões (1524-1580), Padre António Vieira (1608-1697), D. Francisco Manuel de Melo (1608-1666), Carlos Seixas (1704-1742), António José da Silva (1705-1739), Luís António Verney (1713-1792), Domingos Bontempo (1771-1842), Almeida Garrett (1799-1854), Alexandre Herculano (1810-1877), Camilo Castelo Branco (1825-1890), Eça de Queiroz (1845-1900) e Cesário Verde (1855-1886). À lista dos 10, apenas foram parar Luís de Camões, António Vieira, Camilo Castelo Branco e Eça de Queirós.
No século XX, elegi Teixeira Gomes (1860-1941) e Afonso Costa (1871-1937), entre os políticos da I República. Saltei por cima do Estado Novo, já que Salazar (1889-1970) só é relevante pelas piores razões. Quanto à resistência à ditadura, ao 25 de Abril e à II República, optei por Álvaro Cunhal (1913-2005), Salgueiro Maia (1944-1992) e Mário Soares (1924), único dos vivos que citei, por ser o símbolo da democracia e da integração europeia. Só Afonso Costa e Mário Soares couberam na lista dos 10.
Percorrendo a cultura portuguesa do século XX, elegi, entre os que já morreram: Raul Brandão (1867-1930), Teixeira de Pascoaes (1877-1952), Fernando Pessoa (1888-1935), Amadeo de Souza-Cardozo (1887-1918), Aquilino Ribeiro (1885-1963), Vieira da Silva (1908-1992), Jorge de Sena (1919-1978), Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004), Amália Rodrigues (1920-1999), Mário Cesariny (1923-2006), Alexandre O’Neill (1924-1986) e José Cardoso Pires (1925-1998). Vieira da Silva está entre os 10. O embaraço da escolha foi grande. Mas alivio a consciência expondo a lista toda.
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segunda-feira, janeiro 29, 2007
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