sexta-feira, 13 de abril de 2007

A ESTÉTICA DO ALUMÍNIO

SEMPRE FUI UM O’NEILLISTA, confesso. Pelo menos desde quando me atrevi a dizer em público Um adeus português, era ainda um rapazelho, muito verdes anos, a apanhar bonés na vida. E não há-de ser agora, que já palmilho há um bom par de anos a casa dos sessenta, que vou deixar de o ser. Burro velho não aprende línguas, nem vira casacas.

Esta advertência é indispensável para se perceber melhor a grande incomodidade e a imensa desdita de quem vive em «ALUMINIÓPOLIS». Já lá vão mais de vinte anos, o poeta avisou em prosa: «O alumínio está a expandir-se assustadoramente». Mais: «Por estes andares, Lisboa vai ter, não tarda muito, poentes e nascentes de alumínio». Já tem. Todo o país se passou, paulatinamente, para o alumínio. Em sentido real e figurado.

A estética do alumínio, com a sua caixilharia refulgente, saltou do urbanismo e da arquitectura de marquise para a política, a literatura, a música, os jornais, a rádio e a televisão de cordel. O «mau gosto gritante que o alumínio inculca» não é privilégio de mestres-de-obras e edis pragmáticos. É democraticamente partilhado por demagogos de feira, políticos de plástico, escrevinhadores a peso, publicistas a metro, apresentadores à hora, repórteres ao minuto, pantomineiros sem eira nem beira, aves canoras em saldo.

A estética do alumínio aposta a fundo na expressão de realce despropositada. É o frigorífico na sala de jantar com naperon em cima. É a inútil multiplicação de rotundas, cada qual com o seu mamarracho ao centro. É a bossa de camelo incrustada num corpo escorreito, que fica marreco. É o discurso da banha da cobra, que despreza a subtileza. É o riso alarve, que despreza a ironia. É o sonho dos néscios e o pesadelo dos incautos.

«Verdadeiros berros» e «autênticas fífias de alumínio» brotam insidiosamente de inúmeras fachadas, aproveitando todas as «janelas de oportunidade» para se expandirem e encaixilharem as suas marquises no nosso quotidiano de cidadãos desprevenidos. Já se sabe que uma larga maioria gosta e uma curta minoria não. Por isso, a pergunta do poeta lá se vai repetindo com ironia e desalento: «Então não é verdade que estamos kitsch?».

A democracia tem perversidades destas. É como «uma mulher em forma de S, de roupão florido e canteiro de papelotes à cabeça». Se estivesse vestida de papel de jornal «não faria mais restolho». É assim «porque é mais prático e, o que é pior, para tantos e tantos MAIS BONITO», como lamentava O’Neill. Mas também porque assim fica mais barato e é mais lucrativo. Indiferente ao gosto, o que o bezerro de oiro quer é facturar.

O o’neillismo é um pessimismo, como já perceberam. Mas não se confunde com resignação cristã. Mantém a lucidez e a ironia. Chateia-se solenemente. Protesta em voz alta. Indigna-se e não se conforma com a expansão do alumínio, reclamando o recurso a materiais mais nobres. Sem se iludir, todavia, quanto ao futuro da construção civil, dos mestres-de-obras e dos capatazes neste cada vez mais metafórico país encaixilhado em alumínio. Nem, aliás, quanto ao futuro da Pátria, da República, da Europa e do Mundo.

NOTA: Esta crónica foi escrita para o derradeiro número da Revista «6ª» do «DN», cuja publicação deveria cessar no dia 13 de Abril de 2007, mas, afinal, cessou no passado dia 6 de Abril.

sexta-feira, 6 de abril de 2007

UMA HISTÓRIA DE SERVIDÃO

UMA NAÇÃO SUJEITA DURANTE SÉCULOS ao terror físico e psicológico exercido pelos czares, os boiardos, a igreja ou o partido único dificilmente se libertará das tutelas que a oprimiram e dos hábitos que a servidão e a submissão nela inculcaram. Parece ser esta a única conclusão a retirar de quinhentos anos de história da velha Rússia, desde o sinistro reinado de Ivan o Terrível, entre 1533 e 1584, passando pela abdicação do czar Nicolau II, em Março de 1917, pela vitória da revolução bolchevique, em Outubro de 1917, pela «entronização» de José Estaline, em 1924, até à morte do czar vermelho, em 1953.

É pelo menos esta a tese que defende o ex-diplomata russo Vladimir Fédorovski, num interessante ensaio histórico intitulado Le Roman du Kremlin, publicado em 2004. A partir do Kremlin - a fortaleza e o conjunto de igrejas e palácios que albergam a sede do poder, em Moscovo - Fédorovski percorre a história da Rússia, desde Ivan o Terrível até à actualidade, explicando como o poder político foi exercido - quer durante a tirania czarista quer durante a ditadura do proletariado - sobretudo graças à solidez da parceria sempre renovada entre os seus sucessivos detentores e uma temível polícia secreta.

A essência do poder, na Rússia, parece estar contida no compromisso assumido pelo ainda jovem czar Nicolau II, durante um discurso proferido perante a sua corte, no Kremlin: «Estou satisfeito por ver aqui os representantes de todas as classes, que vieram testemunhar os seus sentimentos de súbditos obedientes e submissos. Eu acredito nesses sentimentos, que sempre animaram o povo russo. E quero que saibam que vou manter o poder absoluto, com tanta firmeza como meu pai». Esta era uma claríssima advertência dirigida a todos quantos ainda alimentavam ilusões liberais ou reformistas. O novo czar correspondia, assim, aos alertas feitos pela sua temível polícia secreta, a Okhrana.

Foi crucial o papel desempenhado pela polícia política e pelos seus espiões, quer dentro quer fora das fronteiras da Rússia e tanto durante o regime czarista como durante o regime comunista. Esta é a faceta mais interessante do livro, ao explicar a evolução da «megapolícia secreta» russa. Desde a jurisdição de excepção - a opritchnina - instituída pelo crudelíssimo e paranóico Ivan o Terrível, passando pela Okhrana, dos Romanov, e pelo KGB, de Estaline, até ao actual FSB, cujos poderes foram bastante reforçados por Vladimir Putin (antigo coronel do KGB). Por isso, há quem tema «um KGB em vias de reconstituição» e alerte para um «processo de sovietização e restauração» da Rússia.

Impressiona esta atracção pelo mal. E o fascínio que os tiranos exercem. Estaline é um modelo. Tão cruel como Ivan o Terrível, o czar vermelho estudou com minúcia os métodos de tortura que o próprio Ivan praticava. Tão tímido e tão asceta como Salazar, vivia num «modesto apartamento de três divisões» improvisado no gigantesco Kremlin. Nada pior do que uma nação humilhada para desejar o regresso dos seus fantasmas.
«DN-6ª» de 6 Abr 07

sexta-feira, 30 de março de 2007

O SÉCULO DE CONRAD

MUITO ANTES DE FRANCIS FORD COPPOLA se ter inspirado na extraordinária novela O Coração das Trevas, para realizar o filme Apocalypse Now (1979), já a filósofa Hannah Arendt considerara essa obra mais emblemática de Joseph Conrad como «a que melhor nos pode esclarecer sobre a verdadeira experiência do racismo em África», construindo a partir dela o capítulo III - Raça e burocracia - da segunda parte - O Imperialismo - do seu monumental estudo sobre As Origens do Totalitarismo, publicado em 1951.

Podemos recuar ainda mais no «terrível século XX», em cujas trevas mergulhou a prosa desoladamente lúcida de Conrad, para irmos ao encontro de outros que também perceberam até que ponto a vastíssima obra literária desse eslavo anglófilo, nascido no século XIX, intuía e prenunciava tantos horrores que devastaram a Europa colonialista, imperialista, culta e decadente, sobretudo na primeira metade do século passado. Desde logo André Gide, que aprendeu inglês expressamente para poder ler Conrad no original. Mas também Thomas Mann, que lhe dedicou um belo ensaio, em 1925, no qual analisa o «brilhante e fascinante romance policial e político» que é O Agente Secreto.

Józef Teodor Nalecz Konrad Korzeniowski, polaco de pai e mãe, como o nome de baptismo indica, nasceu em 1857, há século e meio. O romance O Agente Secreto foi publicado em 1907, há um século. Duas efemérides que constituem um óptimo pretexto para convocar de novo a obra de Joseph Conrad (1857-1924) e incitar novas gerações a lê-la. Se possível no original, como André Gide. Apesar de o inglês ser a terceira língua de Conrad, a seguir ao polaco e ao francês, era aquela que mais admirava e foi a que ele adoptou (tardiamente, aos 21 anos) para escrever sobre o «espectáculo enigmático» e «a empresa perigosa que é a nossa existência», captando o «fragmento salvo da voracidade do tempo», tornando ficção mais do que «um episódio inquietante nas vidas obscuras de alguns indivíduos, arrancados à multidão ignorada dos perplexos, dos simples, dos que não têm voz» - como ele nos explica no famoso prefácio a O Negro do Narciso.

A ganância, a vontade de dominação, os abismos de crueldade a que uma e outra podem conduzir os homens, por mais civilizados que se considerem, estão patentes em obras tão poderosas como O Coração das Trevas (1902), Nostromo (1904) ou O Agente Secreto (1907), na qual Conrad prova ser um escritor tão extraordinário em terra firme como nos rios e mares que banham quase toda a sua obra. E há, também, essa admirável história de redenção pessoal de um jovem marinheiro, que é Lord Jim (1900). E todas as outras obras escritas por esse aristocrata polaco que quis ser contrabandista e marinheiro antes de se tornar inglês e escritor - transformando-se em Jóia da Coroa Britânica, como hoje o evoca Juan Gabriel Vásquez na sua esplêndida História Secreta de Costaguana, o nome da república sul-americana inventada por Conrad há mais de um século!
«DN-6ª» - 30 Mar 07

sexta-feira, 23 de março de 2007

TIRANOS CULTOS


AINDA HOJE NOS SURPREENDEMOS com a revelação de que um tirano ou um déspota particularmente cruel e sanguinário era, afinal, um homem culto, leitor e admirador das melhores obras literárias, clássicas ou contemporâneas, apreciador de grande música ou dos melhores filmes, sem que tal o tenha demovido ou impedido de ordenar a execução dos crimes mais brutais – da tortura ao homicídio, do massacre ao genocídio.

O certo é que, como ainda recentemente notava o historiador e filósofo Tzvetan Todorov, o profundo conhecimento dos clássicos chineses não impediu Mao Zedong de se tornar num dos maiores criminosos do século XX. Como se o exercício despótico do poder político e a frequentação dos clássicos fossem actividades totalmente dissociadas, permanecendo isoladas em compartimentos estanques na cabeça de um tirano.

Ao longo da história, não são assim tão raros os exemplos, porventura anómalos, de coexistência de cultura e crueldade no espírito de um déspota. Átila (395-453), único imperador dos Hunos, é um caso assaz curioso e enigmático. Sempre designado como o flagelo de Deus e apresentado como símbolo da ferocidade dos bárbaros e sinónimo de massacre e devastação, a verdade é que era um homem cultivado, falava fluentemente o grego e o latim, era um diplomata excepcional e um grande estratego – uma espécie de Napoleão que logrou, em 15 anos, construir um império do Danúbio aos Urais.

Numa excelente biografia de Átila (Gallimard, 2006), Eric Deschodt considera-o um «imperador anarquista», um homem encantador e tolerante, mais diplomata do que guerreiro, embora temível e implacável em combate. A sua ferocidade, que reflectia os costumes da época, não ultrapassava, no entanto, a dos generais romanos ou persas. Eric Deschodt salienta, aliás, que «a ferocidade da maioria dos imperadores romanos do seu tempo ultrapassava, de longe, a de Átila, sem igualar a sua bravura e o seu génio». Átila queria ser amado e temido, preferindo a sedução ao terror. Podia ter conquistado Roma e Constantinopla, mas desdenhou fazê-lo. Matou milhares de inimigos em combate, mas nunca perseguiu ninguém. E admitiu que era ele «o pior inimigo» de si próprio.

Seria improvável lobrigarmos estas características pessoais em Estaline, um dos mais cruéis tiranos da História. Todavia, conforme nos revela Simon Sebag Montefiore no livro Estaline - A Corte do Czar Vermelho (Aletheia, 2006), esse déspota paranóico e hipocondríaco era um bon vivant, lia Goethe, Maupassant e Zola, admirava Dostoievski, adorava ópera, ouvia vezes sem conta o mesmo concerto de Mozart, era cinéfilo e fã de Spencer Tracy e Clark Gable. É irresistível compará-lo ao carrasco psicopata e nazi do sórdido romance de Jonathan Littell, Les Bienveillantes (Gallimard, 2006), capaz de ler Stendahl e Flaubert numa pausa entre dois massacres bem ordenados. Desgraçadamente, nem sempre se pode afirmar, como Dostoievski, que «a beleza salvará o mundo».

«DN-6ª» - 23 Mar 07

sexta-feira, 16 de março de 2007

POLÍTICOS PARADOXAIS


SERÁ POSSÍVEL UM POLÍTICO APRESENTAR-SE, por um lado, como um homem íntegro, fiel aos ideais e aos amigos, devoto do serviço público, homem de cultura, humanista e amante da justiça, preocupado com a sorte dos mais pobres e desfavorecidos, adepto da ajuda ao Terceiro Mundo, ecologista e defensor do meio-ambiente – e comportar-se, por outro lado, como um chefe de facção astuto e sectário, capaz de desferir golpes baixos e de montar operações clandestinas para tramar adversários ou afastar do caminho rivais do seu próprio bando, usando e abusando dos privilégios e usufruindo de todos os luxos, sem olhar a despesas sumptuárias efectuadas com o dinheiro dos contribuintes?

Se admitirmos que a política não é o terreno privilegiado das virtudes teologais, nem é redutível a uma visão maniqueísta em que só contam o Bem e o Mal, traduzindo-se, pelo contrário, numa actividade bastante complexa, em que nem tudo o que parece é, as aparências iludem e os melhores resultados tantas vezes só se atingem por caminhos tortuosos, métodos pouco ortodoxos e procedimentos inconfessáveis – então, a resposta àquela questão só pode ser afirmativa. Sim, em democracia, os políticos com dimensão e fôlego muito superiores aos de um cidadão comum, não são modelos de virtudes que aspirem à santidade, nem Savonarolas que pregam a moral e acabam numa pira!

A carreira de um político de longo curso – ou de um político fora do comum, se se preferir – está cheia de «belezas ácidas». Esta feliz expressão, usou-a Serge July há quase 20 anos, num brilhante ensaio intitulado Le Salon des Artistes, simultaneamente elogioso e crítico, generoso e cruel, sobre cinco «feras» que, nos anos finais da década de 1980, ainda dominavam a «arena» política em França: François Mitterrand, Jacques Chirac, Giscard d’Estaing, Raymond Barre e Michel Rocard. De entre eles, não hesito em destacar Mitterrand e Chirac como políticos de longo curso e fora do comum.

Em ambos assentam como luvas as palavras de Serge July: «Os grandes artistas da política distinguem-se do magote de ambiciosos pela sua fé nas virtudes curativas da derrota». Embora subestimando, por vezes, os seus adversários, o certo é que Mitterrand e Chirac sofreram e superaram várias derrotas. E, assim como Mitterrand e os seus fiéis foram «beber» no exemplo de De Gaulle para melhor o combater, também Chirac e os seus adeptos se inspiraram no «modelo mitterrandiano» para conquistar o Eliseu.

Como Mitterrand há uma dúzia de anos, é agora Chirac quem suscita livros com balanços da sua longa carreira política de 45 anos. Cito dois. Em L’Inconnu de l’Élysée, Pierre Péan, jornalista de esquerda, enaltece as suas qualidades humanas e políticas. Em Chirac, Mon Ami de Trente Ans, Jean-François Probst, político de direita e colaborador próximo de Chirac, rebaixa-o, apontando-lhe inconfessáveis defeitos e abusos de poder. É assim, contraditório e paradoxal, o retrato fidedigno de alguns políticos maiores.

«DN-6ª» de 16 Mar 07

sexta-feira, 9 de março de 2007

A «MERDA DO DIABO»

BASTA OBSERVAR O MAPA DE ÁFRICA, fixando o olhar no Golfo da Guiné e nos seus oito Estados ribeirinhos produtores de petróleo - com a Nigéria à cabeça, mas também Angola e São Tomé e Príncipe na lista - para se perceber porque é que, em Washington, esta zona geoestratégica crucial é designada como o «próximo Golfo» - «next Gulf». O volume de reservas de petróleo já recenseadas - a maior parte offshore - é de tal ordem, que o seu inevitável destino é tornar-se a grande alternativa ao Golfo Pérsico. A cobiça dos países do Ocidente, com os EUA à cabeça, só tem paralelo na avidez das chamadas potências emergentes como a China, a Índia e o Brasil, que também já lá estão.

A «maldição do ouro negro» - «merda do diabo», como chamam ao petróleo em África - está bem patente nesse insustentável paradoxo que é a Nigéria. Apesar de ser o primeiro produtor de petróleo africano e o quinto maior produtor mundial, 70 por cento dos seus habitantes vivem com pouco mais de um euro por dia, em bairros de lata onde se amontoam aos milhões, ameaçados pelas emanações tóxicas que provocam doenças respiratórias, pelas constantes fugas de petróleo que devastam zonas agrícolas e zonas piscatórias poluindo a cadeia alimentar, pelo banditismo e a corrupção, pela cupidez dos interesses privados que tomaram conta das instituições públicas. Assim, não espanta que a Nigéria vegete no 159º lugar do ranking de desenvolvimento humano da ONU (entre 177 países) e que a esperança de vida dos nigerianos não ultrapasse os 44 anos.


Hoje, não faltam os estudos que confirmam o forte aumento de guerras civis em países produtores de petróleo, gás natural e diamantes, desde o início da década de 1970 até ao final do século XX. Também o recente filme de Edward Zwick sobre a tragédia da Serra Leoa - Diamante de Sangue - serviu para ilustrar esse «círculo vicioso» que faz mergulhar na pobreza e na desgraça tantos países da África e da Ásia. Alice Sindzingre descreve-o com toda a crueza no Le Monde: «detenção de um recurso natural cobiçado nos países ricos; competição entre “senhores da guerra” para controlar a sua predação e para comprar armas; populações submetidas pelo terror; guerra civil perpétua».


O que hoje os estudos revelam e o cinema põe em evidência, foi objecto, há mais de 20 anos, de um surpreendente romance intitulado Uma Ambição no Deserto, fruto da imaginação, ironia, premonição e talento do escritor egípcio Albert Cossery. O primeiro-ministro de um emirado pobre, pacífico e feliz - por não ter «merda do diabo»! - deseja desempenhar um papel de relevo na cena internacional, atraindo as atenções da «grande potência imperialista». Promove, então, uma frente de libertação fantasma, uma série de atentados à bomba e uma falsa sedição para alarmar os «chacais». A metáfora é perfeita. Os livros de Cossery, todos editados pela Antígona, merecem ser lidos de fio a pavio. A imaginação é fértil, os personagens delirantes, a ironia mordaz e a escrita soberba.

«DN-6ª» - 9 Mar 07
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sexta-feira, 2 de março de 2007

CARICATURAS CONTRA O MEDO


PODE-SE CARICATURAR TUDO E TODOS na praça pública? Ou o incitamento público ao riso e à gargalhada têm limites? Num Estado de direito democrático, pluralista e laico, os únicos limites objectivos ao exercício da liberdade de expressão são os fixados por lei geral e abstracta (por exemplo: o abuso da liberdade de Imprensa; o direito ao bom nome e reputação), não sendo admissível, todavia, a existência de qualquer mecanismo institucionalizado de censura prévia. Quaisquer outros limites só podem ser de natureza individual e subjectiva, voluntariamente assumidos e aceites por cada cidadão, em nome das suas convicções pessoais (nomeadamente, as religiosas) ou do que considera serem, por exemplo, regras de boa educação e critérios de bom senso e bom gosto.

Plantu, um dos mais notáveis caricaturistas franceses da actualidade (Le Monde, L’Express), invocava há poucos meses a máxima de Pierre Desproges - «on peut rire de tout, mais pas avec n’importe qui» («pode-se rir de tudo, mas não com qualquer um») - reivindicando para si próprio o direito à autocensura. A título de exemplo, invocava o facto de «não entrar na vida privada dos homens políticos». E explicava que «talvez não seja preciso desenhar Maomé para criticar o fundamentalismo». Cá em baixo, na Terra, há alvos mais do que suficientes para caricaturar – barbudos, intolerantes e fanáticos, guias religiosos e chefes políticos (Ahmadinejad e Bush incluídos). Por isso mesmo, diz Plantu, convém «reflectir sobre as nossas responsabilidades antes de embarcarmos em ataques acima das nuvens». Mais: «Podemos ser cáusticos e agressivos, mas sem ódio, sem desprezo, com subtileza, para não cairmos na armadilha dos integristas».

A posição adoptada por Plantu é compreensível e séria, tendo em conta o tipo de publicações em que colabora. Mas decorre de uma opção pessoal do caricaturista e não pode ser erigida em regra. Um jornal satírico dificilmente sobreviveria, se adoptasse tal critério. Por isso, é inteiramente legítima a atitude assumida pelo jornal Charlie Hebdo durante o julgamento de que foi alvo, em Paris, acusado por organizações islâmicas de publicar caricaturas que constituem uma «injúria pública contra um grupo de pessoas devido à sua religião» (a sentença só será conhecida a 15 de Março). Como sublinhou o seu director, Philipe Val: «Em terra laica, a religião não é um poder político. E, quando pretenda sê-lo, é preciso que ela aceite ser repelida para o domínio privado que é o seu». Sempre que qualquer religião revele o desejo de impor as suas regras a uma sociedade democrática - que é, por natureza, laica - tem de ser tratada exactamente de acordo com aquilo que é: «uma ideologia como qualquer outra, sujeita a todas as críticas».

Tão importante como não cairmos na armadilha dos integristas, com diz Plantu, é não cairmos na armadilha da nossa própria tolerância. O processo do Charlie Hebdo é um claro aviso. É essencial não dobrar a espinha. É preciso não ceder ao medo!

«DN-6ª» - 2 Mar 07

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2007

MÚSICA E PALAVRAS


QUANDO MENCIONAMOS UMA ÓPERA, a primeira referência que nos ocorre é o nome do compositor, isto é, do autor da partitura musical. A partir daqui, é habitual passarmos a discutir os intérpretes que preferimos - sejam os cantores, sejam os maestros. Também se tornou frequente comentar as encenações e, até, as cenografias. Bem mais raro é falar dos autores dos libretos, mesmo quando se trata de excelentes escritores, dramaturgos e poetas - ou, até, dos próprios compositores. «Prima la musica - dopo le parole»? «Prima le parole - dopo la musica»? Para uma larga maioria de amantes da Ópera, o predomínio da música sobre as palavras parece não oferecer, hoje, qualquer dúvida.

E, no entanto, é evidente que a Ópera nunca poderá dispensá-las: nem a música, nem as palavras. Não existe Ópera sem partitura ou sem libreto. Mesmo sendo verdade que uma óptima partitura consegue sobreviver a um libreto medíocre, ao passo que uma partitura medíocre nunca poderá salvar um óptimo libreto. Seja como for, são vários os libretistas de grande talento que conquistaram lugares de relevo na história da Ópera, ao longo dos 400 anos que ela já percorreu. Sendo o espaço exíguo para mencioná-los um por um, optei por referir apenas três, entre os melhores, dadas as magníficas parcerias que formaram com três dos maiores compositores da história da Música.

Na segunda metade do século XVIII, é incontornável a parceria constituída pelo divino Mozart e o libertino abade italiano Lorenzo da Ponte – autor de 36 libretos e das pitorescas Memórias de uma vida tumultuosa, digna de Casanova. Três óperas bastaram para o imortalizar, ao escrever para Mozart os libretos de três obras-primas: Le Nozze di Fígaro (1786), Don Giovanni (1787) e Cosi Fan Tutte (1790). Uma dupla infernal, em que o génio do compositor de modo algum diminui o talento do libretista.

Na segunda metade do século XIX, outra dupla notável reuniu Giuseppe Verdi e Arrigo Boito, excelente poeta italiano, além de compositor e libretista. Colaborou com Verdi na remodelação de Simon Boccanegra (1881), dando um contributo decisivo para a transformar numa ópera admirável. Mas foi, sobretudo, o autor dos libretos de outras duas obras-primas de Verdi: Otello (1887), a partir da peça homónima de Shakespeare; e Falstaff (1893), a partir de duas outras peças de Shakespeare: As Alegres Comadres de Windsor e Henrique IV. Boito mostra-se à altura de Shakespeare e de Verdi.

Já no princípio do século XX, a magnífica colaboração entre Richard Strauss e o excelente poeta e dramaturgo austríaco Hugo von Hofmannsthal deu origem a algumas óperas memoráveis, sobretudo: Elektra (1909), Der Rosenkavalier (1911), Ariadne auf Naxos (1913), Die Frau Ohne Shatten (1919) e Arabella (1933), esta última estreada já depois da morte de Hofmannsthal, em 1929. O inegável valor intrínseco dos libretos foi admiravelmente posto em relevo pelo génio de Richard Strauss. Desça o pano!

«DN-6ª» de 23 Fev 07
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sexta-feira, 16 de fevereiro de 2007

SOB O SIGNO DE ORFEU

Claudio Monteverdi
FOI HÁ 400 ANOS, em Mântua, provavelmente no dia 24 de Fevereiro de 1607, que nasceu esse género genuinamente europeu da grande música a que chamamos Ópera. O nascimento foi auspicioso e ficou a dever-se, acima de tudo e todos, ao génio musical de Claudio Monteverdi, que concebeu uma «favola in musica» intitulada L’Orfeo, a partir de um libreto escrito por Alessandro Striggio, secretário de Vincenzo Gonzaga, Duque de Mântua, patrono (e nem sempre bom patrão) do grande compositor desde 1590.

Poderemos imaginar o cenário em que foi concebida a primeira grande ópera da história da música, se pensarmos que o Palácio Ducal de Mântua era, todo ele, decorado por obras de grandes artistas da Renascença, como Corregio, Il Perugino, Mantegna ou Ticiano - e que Rubens foi o pintor oficial do Duque de Mântua entre 1600 e 1608.

Protegido por Vincenzo Gonzaga foi também Torquato Tasso, cuja poesia serviu de inspiração para muitos dos belíssimos madrigais compostos por Monteverdi. Da obra mais famosa de Tasso, Jerusalém Libertada, Monteverdi escolheu as mais belas estrofes do Canto X para compor outra das suas obras-primas, Il Combattimento di Tancredi e di Clorinda, estreada em 1624, quando o «oracolo della musica» já vivia em Veneza.

Mas a ópera L’Orfeo é um marco incontornável da história da música, porque é a obra fundadora da mais completa de todas as artes, porventura a «arte total», justamente por incorporar todas as outras artes – desde a música à literatura, passando pelo teatro e pela pintura. E é uma ópera sublime, de rara emoção e beleza, na qual o texto, a intriga, a arte cénica, o canto e a música instrumental se conjugam numa perfeita síntese.

A beleza de L’Orfeo é comparável ao esplendor das Vespro della Beata Vergine, obra publicada por Claudio Monteverdi em 1610, sem dúvida alguma a mais admirável e mais impressionante de todas as obras de música sacra alguma vez ouvidas, antes das Paixões de Bach. Tanto L’Orfeo como as Vespro della Beata Vergine ilustram o talento verdadeiramente genial de Monteverdi, que consegue ser inovador e, mesmo, profético, sem renunciar à herança da polifonia quinhentista, que ele incorpora no estilo novo. Foi ao operar a síntese entre tradição e inovação, justapondo o antigo e o moderno de modo tão criativo, que Monteverdi se tornou num compositor pioneiro e revolucionário.

A escolha do mito de Orfeu como tema da sua primeira obra dramática, justifica-se duplamente. Por um lado, enquanto «drama grego», tal mito ajusta-se na perfeição ao estilo novo, que cultiva a antiguidade clássica. Por outro lado, como salientou Nikolaus Harnoncourt, o mito de Orfeu oferece a Monteverdi uma «perspectiva programática»: a de «cantar o poder da Música, que triunfa sobre tudo e todos». Como disse Platão: «ela penetra no interior da alma» e «apodera-se dela da forma mais enérgica». Com a música de Monteverdi, ascendemos aos domínios do inefável. O seu fascínio é irresistível.

«DN-6ª» de 16 Fev 07

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2007

A POLÍTICA DO MEDO

A «CRUZADA ANTICOMUNISTA» e a «caça às bruxas» desencadeadas pelo senador Joe McCarthy no começo da Guerra Fria, entre 1950 e 1954, constituem um dos capítulos mais negros e vergonhosos, não só da história do Partido Republicano, mas da própria história da democracia nos EUA. Num excelente e documentado ensaio intitulado The Age of Anxiety - McCarthysm to Terrorism, o jornalista e historiador norte-americano Haynes Johnson recorda outro episódio negro da história dos EUA: a onda de histeria colectiva provocada pelo Grande Pânico Vermelho (Great Red Scare), nos anos que se seguiram à I Guerra Mundial. Mas o seu objectivo fundamental é analisar e descrever, em pormenor, o McCarthysmo, pondo em relevo os paralelismos e as semelhanças que devem estabelecer-se entre esse período negro da história dos EUA e o período actual, iniciado já no século XXI, após os atentados de 11 de Setembro de 2001. Como Haynes Johnson salienta, o McCarthysmo continua a ser uma história sem fim à vista.

Tal como na época do McCarthysmo, a América de George W. Bush tem vindo a experimentar novos exemplos de tácticas de manipulação e intimidação características do senador McCarthy. Desta vez, porém, a iniciativa foi do próprio Presidente. Desde os atentados de 11 de Setembro, sucederam-se os exemplos de assassínios de carácter, de ofensas ao bom nome dos opositores, de acusações de falta de patriotismo dirigidas aos críticos da administração, de pressões exercidas sobre os meios de comunicação social, o Congresso e o poder judicial, de fugas selectivas de informação classificada visando a demonização de dissidentes, destruindo carreiras de funcionários públicos e manchando a reputação de oficiais das Forças Armadas. Tudo isto, restringindo e violando direitos, liberdades e garantias, recorrendo a métodos inquisitoriais do tipo «caça às bruxas» para intimidar os que se atrevem a protestar publicamente contra o Governo e não hesitando em invocar o segredo de Estado para encobrir os erros e mentiras do Governo.

O McCarthysmo foi o resultado da conjugação de ansiedades, medos e suspeitas difundidos na população, para criar um clima de histeria e paranóia na vida pública e na retórica política. Esses medos e suspeitas foram explorados e exacerbados, com cinismo e demagogia, por políticos oportunistas e sem escrúpulos, como Joseph McCarthy, que nunca hesitou em recorrer à mentira, à difamação e às falsas acusações. Haynes Johnson salienta que o McCarthysmo marcou indelevelmente, nos últimos 50 anos, a caminhada do Partido Republicano para a direita radical. No McCarthysmo mergulham as raízes do actual movimento conservador. Foi nele que foram beber os antigos esquerdistas que se tornaram neoconservadores. A chamada «cultura de guerra» que contamina os discursos de muitos políticos e intelectuais nos EUA, é outra das heranças do McCarthysmo. Quer no plano interno, quer no plano externo, a política do medo tem sido desastrosa.

«DN» - 09 Fev 07
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sexta-feira, 2 de fevereiro de 2007

ÚLTIMOS CIGARROS

HÁ O ALCATRÃO, a nicotina e o monóxido de carbono. Bem sei. Mas há, também, o polónio-210 (210Po), «a pior de todas as substâncias», descoberto em 1898 por Pierre e Marie Curie. É mil vezes mais tóxico do que o plutónio e um milhão de vezes mais do que o cianeto. Dez microgramas bastam para matar, lenta e irreversivelmente. Como no caso do ex-espião soviético Alexandre Litvinenko, envenenado por essa dose letal, que lhe devorou todos os glóbulos vermelhos nas últimas semanas de 2006.

Como explica Fabien Gruhier, num artigo publicado em Le Nouvel Observateur, o polónio-210 está omnipresente na natureza e, mesmo, no organismo humano, embora em concentrações ínfimas, já que é permanentemente produzido pela desintegração do urânio e do tório, abundantes na crosta terrestre. Todavia, os fumadores absorvem mais polónio do que os não fumadores, por causa dos fosfatos ligeiramente radioactivos que são utilizados como fertilizantes nos campos de tabaco. Pior: em estudo científico feito nos EUA afirma-se que a inalação de polónio «natural», via fumo do cigarro, «contribui pelo menos em 90 por cento para os cancros do pulmão dos fumadores».

Aconselhado por um médico especialista, que nem sequer me falou do polónio e me poupou a um sermão sobre os malefícios do tabaco, preparo-me para fumar o último cigarro dentro de poucos dias. O primeiro impulso que tive, nem foi o de reler o célebre monólogo de Tchekov, que interpretei aos 18 anos, mas sim o de voltar a folhear a obra-prima de Ítalo Svevo, A Consciência de Zeno, publicada em 1923 (a Editorial Minerva deu à estampa uma versão portuguesa, pouco rigorosa e sem qualquer data). Espero bem que não me aconteça o mesmo que a Zeno Cosini, com as tentativas repetidas, inúteis e tragicómicas para deixar de fumar enquanto reflecte sobre a sua existência.

As reflexões e interrogações do protagonista, Zeno (ou do escritor, Ítalo Svevo, pseudónimo de Ettore Schmitz), fazem todo o sentido. É pior o vício, ou a obsessão de se libertar do vício? A doença, ou a obsessão da doença? Os dias cheios de cigarros, ou os dias plenos de promessas de não fumar mais? Não será só quando uma coisa ou uma pessoa está a ponto de se perder que o prazer se inflama? Como diria o velho higienista de Goldoni, quererei morrer são, depois de ter passado toda a vida doente? A vida – diz Zeno – parece-se um pouco com a doença. A grande diferença, relativamente às outras doenças, é que a vida é sempre mortal. E não suporta qualquer tratamento.

No leito de morte, após um acidente de automóvel, o escritor viu um sobrinho a fumar e pediu-lhe um cigarro. O sobrinho disse-lhe que não. E Svevo, já com a língua entaramelada, balbuciou: «Este seria verdadeiramente o último cigarro». Foi em 1928. Quase 80 anos depois, espero bem que o semáforo vermelho que me acenderam – e, já agora, o polónio-210 – me intimem a fumar o último cigarro daqui a uns dias.

«DN» - 02 Fev 07
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segunda-feira, 29 de janeiro de 2007

O EMBARAÇO DA ESCOLHA


APROVEITO ESTA COLUNA para aliviar um pouco a consciência em relação á escolha que fiz dos 10 portugueses mais importantes da nossa História, respeitando as regras do jogo que o DN estabeleceu. O embaraço da escolha foi grande, face à primeira lista que fiz, pois integrava cerca de meia centena de personalidades portuguesas mais relevantes, quer da vida política quer da vida cultural. Foi a partir dela que tive de eleger apenas 10. É essa lista mais longa que aqui vou referir, poupando justificações que não cabem num espaço tão exíguo para o efeito. O critério é subjectivo e a ordem é cronológica.

Primeiro a Monarquia (1143-1910). Entre reis e outras personalidades políticas, elegi: D. Afonso Henriques (1108-1185), D. Dinis (1261-1325), D. João I (1357-1433), D. Duarte (1391-1438), o Infante D. Pedro (1392-1449), D. João II (1455-1495), Vasco da Gama (1469-1524), o Marquês de Pombal (1699-1782), D. Pedro IV (1798-1834), Mouzinho da Silveira (1780-1849) e Fontes Pereira de Melo (1819-1887). Para a minha lista dos 10, acabei por eleger D. João II, D. Pedro IV e Fontes Pereira de Melo.

Entre homens de cultura durante a Monarquia, elegi: Fernão Lopes (1380-1459), Gil Vicente (465-1536), Grão Vasco (1475-1542), João de Barros (1496-1570), Damião de Góis (1502-1574), Pedro Nunes (1502-1578), Fernão Mendes Pinto (1510-1583), Luís de Camões (1524-1580), Padre António Vieira (1608-1697), D. Francisco Manuel de Melo (1608-1666), Carlos Seixas (1704-1742), António José da Silva (1705-1739), Luís António Verney (1713-1792), Domingos Bontempo (1771-1842), Almeida Garrett (1799-1854), Alexandre Herculano (1810-1877), Camilo Castelo Branco (1825-1890), Eça de Queiroz (1845-1900) e Cesário Verde (1855-1886). À lista dos 10, apenas foram parar Luís de Camões, António Vieira, Camilo Castelo Branco e Eça de Queirós.

No século XX, elegi Teixeira Gomes (1860-1941) e Afonso Costa (1871-1937), entre os políticos da I República. Saltei por cima do Estado Novo, já que Salazar (1889-1970) só é relevante pelas piores razões. Quanto à resistência à ditadura, ao 25 de Abril e à II República, optei por Álvaro Cunhal (1913-2005), Salgueiro Maia (1944-1992) e Mário Soares (1924), único dos vivos que citei, por ser o símbolo da democracia e da integração europeia. Só Afonso Costa e Mário Soares couberam na lista dos 10.

Percorrendo a cultura portuguesa do século XX, elegi, entre os que já morreram: Raul Brandão (1867-1930), Teixeira de Pascoaes (1877-1952), Fernando Pessoa (1888-1935), Amadeo de Souza-Cardozo (1887-1918), Aquilino Ribeiro (1885-1963), Vieira da Silva (1908-1992), Jorge de Sena (1919-1978), Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004), Amália Rodrigues (1920-1999), Mário Cesariny (1923-2006), Alexandre O’Neill (1924-1986) e José Cardoso Pires (1925-1998). Vieira da Silva está entre os 10. O embaraço da escolha foi grande. Mas alivio a consciência expondo a lista toda.

«DN» - 26 Jan 07
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CENTELHAS DE GUERRA


FOI HÁ 90 ANOS, em Agosto de 1917, que o Papa Bento XV apelou aos dirigentes dos países envolvidos na Grande Guerra - que já grassava há três sangrentos e terríveis anos - para que pusessem termo ao «inútil massacre» e se dispusessem a construir uma paz duradoura. Mas, nesse mesmo ano, um sentimento aparentemente incompreensível de superioridade moral e civilizacional impeliu o grande escritor alemão Thomas Mann a considerar a guerra como «uma purificação, uma libertação, uma enorme esperança». Com insuportável arrogância intelectual, afirmou: «A vitória da Alemanha será a vitória da alma sobre o número. A alma é oposta ao ideal pacifista da civilização». E formulou esta questão absurda: «Acaso não será a paz um elemento de corrupção civil?».

Já durante a República de Weimar (1919-1933), Thomas Mann iria abandonar as ideias conservadoras, nacionalistas e anti-parlamentares, denunciando com presciência e coragem o perigo da ascensão de Hitler ao poder. Mas aquilo que escreveu em 1917 era «uma clara imagem da teoria essencialmente militarista alemã, segundo a qual a guerra enobrece». Sublinha-o a historiadora norte-americana Barbara Tuchman (1912-1989) no admirável livro que publicou em 1962 - The Guns of August - sobre os trágicos trinta e um dias do Verão de 1914 que mudaram a face do mundo, pondo definitivamente termo ao século XIX e iniciando «o terrível século XX», como Churchill lhe chamou.

Chefes políticos ineptos e medíocres, servidos por generais arrogantes e obtusos, deram corpo a interpretações, por vezes distorcidas e oportunistas, de teorias filosóficas sobre a natureza do homem, a essência da guerra e as culturas nacionais. Na Alemanha, as teorias de Clausewitz e a imagem de Aníbal e dos elefantes, na «batalha decisiva» de Canas, serviam para explicar o Plano Schliefen. Ora, «o que forjou o plano de Schliefen não foi Clausewitz, nem sequer a batalha de Canas, mas sim o egoísmo acumulado que dominava o povo alemão» - afirma Barbara Tuchman. Foram epígonos de Fichte, Hegel e Nietszche que alimentaram a ilusão de «um povo alemão eleito pela Providência» para conduzir o mundo a «um glorioso destino de apaixonante Kultur», no qual só «o super-homem se elevaria acima do âmbito vulgar e corrente». Em França, foi a ideia de «élan vital», enunciada pelo filósofo Henry Bergson, que serviu de base à doutrina militar da «offensive à outrance», elaborada pelo general Foch, cerne do medíocre Plano 17, que descurava por completo a guerra defensiva. Clausewitz revolveu-se na tumba.

Tão ilusório era o Plano 17 como o Plano Schliefen. É o fracasso de ambos que prolonga o massacre, «enquanto da torre do orgulho na cidade / a morte gigantesca olha com desprezo». Versos de Edgar Allan Poe que abrem outro admirável livro de Barbara Tuchman sobre os primórdios do século XX: The Proud Tower. O paralelismo com este não menos conturbado início do século XXI é inevitável. A arrogância civilizacional e o apelo à força bruta estão à vista. Uma centelha basta para desencadear a loucura.

«DN» 19 Jan 07
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domingo, 28 de janeiro de 2007

SÃO TOMÁS E AS ALMAS

A Apoteose de São Tomás de Aquino, pintada por Francisco de Zurbarán no ano de 1631, deve ser dos quadros mais notáveis, complexos e ambiciosos do grande pintor espanhol. São Tomás de Aquino, conhecido como o Doutor Angélico, ocupa o centro do quadro, rodeado por quatro Padres (Pais) da Igreja. Acima dele, surge o Espírito Santo, com Cristo e a Virgem, do lado esquerdo, e São Paulo e São Domingos, do lado direito. Abaixo dele, um grupo de frades dominicanos em oração, à esquerda, e outro grupo de figuras também em oração, à direita, do qual se destaca o imperador Carlos V.

Ao admirar o quadro, no Museu de Belas Artes de Sevilha, foi irresistível pensar no breve texto de Umberto Eco Sobre a alma dos embriões, no qual o escritor, ensaísta e professor (cuja tese de doutoramento, em 1956, foi sobre O Problema Estético em São Tomás), evoca o pensamento do grande teólogo italiano (1225-1274) acerca da criação da alma, independentemente da matéria corporal. Para São Tomás, os vegetais têm uma «alma vegetativa» que nos animais é absorvida pela «alma sensitiva», enquanto que nos seres humanos essas duas funções são absorvidas pela «alma racional». E é a esta que o homem deve o facto de ser dotado de inteligência, o que «faz dele uma pessoa».

Citando a Summa Theologica e a Summa Contra Gentiles, Eco sublinha que São Tomás «tem uma visão muito biológica da formação do feto». Deus só introduz, insufla, a alma, gradualmente, quando o feto adquire, primeiro, a «alma vegetativa» e, depois, a «alma sensitiva». Apenas num corpo já formado é criada a «alma racional». Ainda hoje subsiste a dúvida sobre qual é esse exacto momento. Mas, para São Tomás, é claro que existe uma gradação na geração, «por causa das formas intermediárias de que é dotado o feto, desde a origem e até á sua forma final». Mais ainda: os embriões não participarão na ressurreição da carne, não ressuscitarão, pois que a «alma racional» não foi infundida neles e, por essa razão, eles não são seres humanos. Afirma-o o Doutor Angélico.

São Tomás não é uma autoridade qualquer. É, como salienta Eco, a «Autoridade por excelência», é a «coluna que serve de suporte á teologia católica». Coluna essa que, curiosamente, digo eu, é bem explícita no quadro de Zurbarán. Daí que, para Eco, sejam tão surpreendentes «as actuais posições neofundamentalistas católicas». Será caso para perguntar, como fez Giovanni Sartori, se não se estará a estabelecer uma certa confusão entre a «defesa da vida» e a «defesa da vida humana». O que levaria a considerar como homicídios, por exemplo, derramar esperma para fins não fecundantes, comer frangos, matar mosquitos ou consumir vegetais. Para já nem falar, como lembra Eco, dos gurus que andam pelas ruas com gaze na boca, para evitarem matar micro-organismos quando respiram. Em suma: recomenda-se, a certos católicos, uma leitura atenta de São Tomás de Aquino. E, já agora, uma visão da magnífica pintura de Francisco de Zurbarán.

«DN» - 12 Jan 07
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A ÚLTIMA BARREIRA


ESCREVEU VLADIMIR JANKÉLÉVITCH (1903-1985): «A morte na primeira pessoa, isto é, a minha, já não poderei falar dela, porque se trata, efectivamente, da ‘minha’ morte». Por isso - acrescenta - «resta a morte na segunda pessoa, que é a morte do próximo», ou seja, a que mais se assemelha à minha «sem ser a minha» e, também, «sem ser a morte impessoal e anónima do fenómeno social». É a morte de «outra pessoa que não eu e, ao mesmo tempo, é a que me toca mais de perto». A «filosofia da morte», para quem pensa nela ou sobre ela, «é produzida para nós pelo próximo que está ao nosso lado».

Tinha 18 anos quando fui confrontado pela primeira vez com a morte na segunda pessoa, a morte de alguém muito próximo de mim e que eu amava: meu pai. Tinha ido visitá-lo ao hospital numa tarde soalheira de Maio de 1963. Estava inconsciente e muito mal, numa cama dos «cuidados intensivos», após uma operação delicada e de alto risco. Apesar disso, não podia nem queria imaginar ou, sequer, admitir a possibilidade de ele morrer. Tinha 44 anos e morreu nessa noite, sozinho, na cama do hospital. Creio que se morre sempre sozinho, numa solidão imensa, por muitas que sejam as pessoas que estão por perto. «Alguém nasceu ou morreu acompanhado, porventura?» - pergunta António Lobo Antunes, na belíssima crónica que publicou na Visão em 28 de Dezembro.

Minha mãe morreu dois dias antes, em 26 de Dezembro, na cama de um hospital de Roma, a cidade onde viveu quase toda a sua vida. Tinha 81 anos. Soube da sua morte por telemóvel. Mas a voz de quem me falou pareceu-me, primeiro, ser a dela. Regozijei-me. E mais estranha foi a sensação, ao tomar consciência da sua imobilidade definitiva e irrevogável. Quebrou-se, assim, a última barreira. Torno a citar Jankélévitch: «Quando desaparecem os nossos pais, desaparece a última barreira biológica. Depois, é a nossa vez. E essa não é uma ideia muito agradável». Leio agora as interrogações de um pintor, António Dacosta (1914-1990), num recorte do DN : «Porque é que se nasce e se morre? É absurdo, não é? Há um apelo de morte que se insinua pouco a pouco em nós».

É provável que, ao escrever esta breve crónica sobre a morte na segunda pessoa, neste caso sobre a morte dos meus pais, eu esteja a fazer batota. Essa «batota essencial» de que também falou Jankélévitch e que consiste em «aplicar a morte aos outros através de uma relação perpétua e de um adiamento». Dito de outro modo: «Tenho consciência da morte e sei que morrerei, mas não o creio». Ou, então, como disse Jacques Madaule: «Sei que morrerei, mas não acredito nisso». Um contra-senso. Tal como a morte, «que dá um sentido à vida, ao mesmo tempo que lhe retira esse sentido». E uma ironia, sobre a qual também escreveu Jankélévitch: «A ironia, que já não teme as surpresas, joga com o perigo». Neste caso, perigo de morte, abatida que foi a última barreira. Além do nada que é a morte, «quase nada é desprezível, quase nada é indispensável». Daí a derradeira das ironias desse grande filósofo: «A humanidade é eterna; eu não, infelizmente!».