sexta-feira, 23 de fevereiro de 2007

MÚSICA E PALAVRAS


QUANDO MENCIONAMOS UMA ÓPERA, a primeira referência que nos ocorre é o nome do compositor, isto é, do autor da partitura musical. A partir daqui, é habitual passarmos a discutir os intérpretes que preferimos - sejam os cantores, sejam os maestros. Também se tornou frequente comentar as encenações e, até, as cenografias. Bem mais raro é falar dos autores dos libretos, mesmo quando se trata de excelentes escritores, dramaturgos e poetas - ou, até, dos próprios compositores. «Prima la musica - dopo le parole»? «Prima le parole - dopo la musica»? Para uma larga maioria de amantes da Ópera, o predomínio da música sobre as palavras parece não oferecer, hoje, qualquer dúvida.

E, no entanto, é evidente que a Ópera nunca poderá dispensá-las: nem a música, nem as palavras. Não existe Ópera sem partitura ou sem libreto. Mesmo sendo verdade que uma óptima partitura consegue sobreviver a um libreto medíocre, ao passo que uma partitura medíocre nunca poderá salvar um óptimo libreto. Seja como for, são vários os libretistas de grande talento que conquistaram lugares de relevo na história da Ópera, ao longo dos 400 anos que ela já percorreu. Sendo o espaço exíguo para mencioná-los um por um, optei por referir apenas três, entre os melhores, dadas as magníficas parcerias que formaram com três dos maiores compositores da história da Música.

Na segunda metade do século XVIII, é incontornável a parceria constituída pelo divino Mozart e o libertino abade italiano Lorenzo da Ponte – autor de 36 libretos e das pitorescas Memórias de uma vida tumultuosa, digna de Casanova. Três óperas bastaram para o imortalizar, ao escrever para Mozart os libretos de três obras-primas: Le Nozze di Fígaro (1786), Don Giovanni (1787) e Cosi Fan Tutte (1790). Uma dupla infernal, em que o génio do compositor de modo algum diminui o talento do libretista.

Na segunda metade do século XIX, outra dupla notável reuniu Giuseppe Verdi e Arrigo Boito, excelente poeta italiano, além de compositor e libretista. Colaborou com Verdi na remodelação de Simon Boccanegra (1881), dando um contributo decisivo para a transformar numa ópera admirável. Mas foi, sobretudo, o autor dos libretos de outras duas obras-primas de Verdi: Otello (1887), a partir da peça homónima de Shakespeare; e Falstaff (1893), a partir de duas outras peças de Shakespeare: As Alegres Comadres de Windsor e Henrique IV. Boito mostra-se à altura de Shakespeare e de Verdi.

Já no princípio do século XX, a magnífica colaboração entre Richard Strauss e o excelente poeta e dramaturgo austríaco Hugo von Hofmannsthal deu origem a algumas óperas memoráveis, sobretudo: Elektra (1909), Der Rosenkavalier (1911), Ariadne auf Naxos (1913), Die Frau Ohne Shatten (1919) e Arabella (1933), esta última estreada já depois da morte de Hofmannsthal, em 1929. O inegável valor intrínseco dos libretos foi admiravelmente posto em relevo pelo génio de Richard Strauss. Desça o pano!

«DN-6ª» de 23 Fev 07
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sexta-feira, 16 de fevereiro de 2007

SOB O SIGNO DE ORFEU

Claudio Monteverdi
FOI HÁ 400 ANOS, em Mântua, provavelmente no dia 24 de Fevereiro de 1607, que nasceu esse género genuinamente europeu da grande música a que chamamos Ópera. O nascimento foi auspicioso e ficou a dever-se, acima de tudo e todos, ao génio musical de Claudio Monteverdi, que concebeu uma «favola in musica» intitulada L’Orfeo, a partir de um libreto escrito por Alessandro Striggio, secretário de Vincenzo Gonzaga, Duque de Mântua, patrono (e nem sempre bom patrão) do grande compositor desde 1590.

Poderemos imaginar o cenário em que foi concebida a primeira grande ópera da história da música, se pensarmos que o Palácio Ducal de Mântua era, todo ele, decorado por obras de grandes artistas da Renascença, como Corregio, Il Perugino, Mantegna ou Ticiano - e que Rubens foi o pintor oficial do Duque de Mântua entre 1600 e 1608.

Protegido por Vincenzo Gonzaga foi também Torquato Tasso, cuja poesia serviu de inspiração para muitos dos belíssimos madrigais compostos por Monteverdi. Da obra mais famosa de Tasso, Jerusalém Libertada, Monteverdi escolheu as mais belas estrofes do Canto X para compor outra das suas obras-primas, Il Combattimento di Tancredi e di Clorinda, estreada em 1624, quando o «oracolo della musica» já vivia em Veneza.

Mas a ópera L’Orfeo é um marco incontornável da história da música, porque é a obra fundadora da mais completa de todas as artes, porventura a «arte total», justamente por incorporar todas as outras artes – desde a música à literatura, passando pelo teatro e pela pintura. E é uma ópera sublime, de rara emoção e beleza, na qual o texto, a intriga, a arte cénica, o canto e a música instrumental se conjugam numa perfeita síntese.

A beleza de L’Orfeo é comparável ao esplendor das Vespro della Beata Vergine, obra publicada por Claudio Monteverdi em 1610, sem dúvida alguma a mais admirável e mais impressionante de todas as obras de música sacra alguma vez ouvidas, antes das Paixões de Bach. Tanto L’Orfeo como as Vespro della Beata Vergine ilustram o talento verdadeiramente genial de Monteverdi, que consegue ser inovador e, mesmo, profético, sem renunciar à herança da polifonia quinhentista, que ele incorpora no estilo novo. Foi ao operar a síntese entre tradição e inovação, justapondo o antigo e o moderno de modo tão criativo, que Monteverdi se tornou num compositor pioneiro e revolucionário.

A escolha do mito de Orfeu como tema da sua primeira obra dramática, justifica-se duplamente. Por um lado, enquanto «drama grego», tal mito ajusta-se na perfeição ao estilo novo, que cultiva a antiguidade clássica. Por outro lado, como salientou Nikolaus Harnoncourt, o mito de Orfeu oferece a Monteverdi uma «perspectiva programática»: a de «cantar o poder da Música, que triunfa sobre tudo e todos». Como disse Platão: «ela penetra no interior da alma» e «apodera-se dela da forma mais enérgica». Com a música de Monteverdi, ascendemos aos domínios do inefável. O seu fascínio é irresistível.

«DN-6ª» de 16 Fev 07

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2007

A POLÍTICA DO MEDO

A «CRUZADA ANTICOMUNISTA» e a «caça às bruxas» desencadeadas pelo senador Joe McCarthy no começo da Guerra Fria, entre 1950 e 1954, constituem um dos capítulos mais negros e vergonhosos, não só da história do Partido Republicano, mas da própria história da democracia nos EUA. Num excelente e documentado ensaio intitulado The Age of Anxiety - McCarthysm to Terrorism, o jornalista e historiador norte-americano Haynes Johnson recorda outro episódio negro da história dos EUA: a onda de histeria colectiva provocada pelo Grande Pânico Vermelho (Great Red Scare), nos anos que se seguiram à I Guerra Mundial. Mas o seu objectivo fundamental é analisar e descrever, em pormenor, o McCarthysmo, pondo em relevo os paralelismos e as semelhanças que devem estabelecer-se entre esse período negro da história dos EUA e o período actual, iniciado já no século XXI, após os atentados de 11 de Setembro de 2001. Como Haynes Johnson salienta, o McCarthysmo continua a ser uma história sem fim à vista.

Tal como na época do McCarthysmo, a América de George W. Bush tem vindo a experimentar novos exemplos de tácticas de manipulação e intimidação características do senador McCarthy. Desta vez, porém, a iniciativa foi do próprio Presidente. Desde os atentados de 11 de Setembro, sucederam-se os exemplos de assassínios de carácter, de ofensas ao bom nome dos opositores, de acusações de falta de patriotismo dirigidas aos críticos da administração, de pressões exercidas sobre os meios de comunicação social, o Congresso e o poder judicial, de fugas selectivas de informação classificada visando a demonização de dissidentes, destruindo carreiras de funcionários públicos e manchando a reputação de oficiais das Forças Armadas. Tudo isto, restringindo e violando direitos, liberdades e garantias, recorrendo a métodos inquisitoriais do tipo «caça às bruxas» para intimidar os que se atrevem a protestar publicamente contra o Governo e não hesitando em invocar o segredo de Estado para encobrir os erros e mentiras do Governo.

O McCarthysmo foi o resultado da conjugação de ansiedades, medos e suspeitas difundidos na população, para criar um clima de histeria e paranóia na vida pública e na retórica política. Esses medos e suspeitas foram explorados e exacerbados, com cinismo e demagogia, por políticos oportunistas e sem escrúpulos, como Joseph McCarthy, que nunca hesitou em recorrer à mentira, à difamação e às falsas acusações. Haynes Johnson salienta que o McCarthysmo marcou indelevelmente, nos últimos 50 anos, a caminhada do Partido Republicano para a direita radical. No McCarthysmo mergulham as raízes do actual movimento conservador. Foi nele que foram beber os antigos esquerdistas que se tornaram neoconservadores. A chamada «cultura de guerra» que contamina os discursos de muitos políticos e intelectuais nos EUA, é outra das heranças do McCarthysmo. Quer no plano interno, quer no plano externo, a política do medo tem sido desastrosa.

«DN» - 09 Fev 07
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sexta-feira, 2 de fevereiro de 2007

ÚLTIMOS CIGARROS

HÁ O ALCATRÃO, a nicotina e o monóxido de carbono. Bem sei. Mas há, também, o polónio-210 (210Po), «a pior de todas as substâncias», descoberto em 1898 por Pierre e Marie Curie. É mil vezes mais tóxico do que o plutónio e um milhão de vezes mais do que o cianeto. Dez microgramas bastam para matar, lenta e irreversivelmente. Como no caso do ex-espião soviético Alexandre Litvinenko, envenenado por essa dose letal, que lhe devorou todos os glóbulos vermelhos nas últimas semanas de 2006.

Como explica Fabien Gruhier, num artigo publicado em Le Nouvel Observateur, o polónio-210 está omnipresente na natureza e, mesmo, no organismo humano, embora em concentrações ínfimas, já que é permanentemente produzido pela desintegração do urânio e do tório, abundantes na crosta terrestre. Todavia, os fumadores absorvem mais polónio do que os não fumadores, por causa dos fosfatos ligeiramente radioactivos que são utilizados como fertilizantes nos campos de tabaco. Pior: em estudo científico feito nos EUA afirma-se que a inalação de polónio «natural», via fumo do cigarro, «contribui pelo menos em 90 por cento para os cancros do pulmão dos fumadores».

Aconselhado por um médico especialista, que nem sequer me falou do polónio e me poupou a um sermão sobre os malefícios do tabaco, preparo-me para fumar o último cigarro dentro de poucos dias. O primeiro impulso que tive, nem foi o de reler o célebre monólogo de Tchekov, que interpretei aos 18 anos, mas sim o de voltar a folhear a obra-prima de Ítalo Svevo, A Consciência de Zeno, publicada em 1923 (a Editorial Minerva deu à estampa uma versão portuguesa, pouco rigorosa e sem qualquer data). Espero bem que não me aconteça o mesmo que a Zeno Cosini, com as tentativas repetidas, inúteis e tragicómicas para deixar de fumar enquanto reflecte sobre a sua existência.

As reflexões e interrogações do protagonista, Zeno (ou do escritor, Ítalo Svevo, pseudónimo de Ettore Schmitz), fazem todo o sentido. É pior o vício, ou a obsessão de se libertar do vício? A doença, ou a obsessão da doença? Os dias cheios de cigarros, ou os dias plenos de promessas de não fumar mais? Não será só quando uma coisa ou uma pessoa está a ponto de se perder que o prazer se inflama? Como diria o velho higienista de Goldoni, quererei morrer são, depois de ter passado toda a vida doente? A vida – diz Zeno – parece-se um pouco com a doença. A grande diferença, relativamente às outras doenças, é que a vida é sempre mortal. E não suporta qualquer tratamento.

No leito de morte, após um acidente de automóvel, o escritor viu um sobrinho a fumar e pediu-lhe um cigarro. O sobrinho disse-lhe que não. E Svevo, já com a língua entaramelada, balbuciou: «Este seria verdadeiramente o último cigarro». Foi em 1928. Quase 80 anos depois, espero bem que o semáforo vermelho que me acenderam – e, já agora, o polónio-210 – me intimem a fumar o último cigarro daqui a uns dias.

«DN» - 02 Fev 07
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segunda-feira, 29 de janeiro de 2007

O EMBARAÇO DA ESCOLHA


APROVEITO ESTA COLUNA para aliviar um pouco a consciência em relação á escolha que fiz dos 10 portugueses mais importantes da nossa História, respeitando as regras do jogo que o DN estabeleceu. O embaraço da escolha foi grande, face à primeira lista que fiz, pois integrava cerca de meia centena de personalidades portuguesas mais relevantes, quer da vida política quer da vida cultural. Foi a partir dela que tive de eleger apenas 10. É essa lista mais longa que aqui vou referir, poupando justificações que não cabem num espaço tão exíguo para o efeito. O critério é subjectivo e a ordem é cronológica.

Primeiro a Monarquia (1143-1910). Entre reis e outras personalidades políticas, elegi: D. Afonso Henriques (1108-1185), D. Dinis (1261-1325), D. João I (1357-1433), D. Duarte (1391-1438), o Infante D. Pedro (1392-1449), D. João II (1455-1495), Vasco da Gama (1469-1524), o Marquês de Pombal (1699-1782), D. Pedro IV (1798-1834), Mouzinho da Silveira (1780-1849) e Fontes Pereira de Melo (1819-1887). Para a minha lista dos 10, acabei por eleger D. João II, D. Pedro IV e Fontes Pereira de Melo.

Entre homens de cultura durante a Monarquia, elegi: Fernão Lopes (1380-1459), Gil Vicente (465-1536), Grão Vasco (1475-1542), João de Barros (1496-1570), Damião de Góis (1502-1574), Pedro Nunes (1502-1578), Fernão Mendes Pinto (1510-1583), Luís de Camões (1524-1580), Padre António Vieira (1608-1697), D. Francisco Manuel de Melo (1608-1666), Carlos Seixas (1704-1742), António José da Silva (1705-1739), Luís António Verney (1713-1792), Domingos Bontempo (1771-1842), Almeida Garrett (1799-1854), Alexandre Herculano (1810-1877), Camilo Castelo Branco (1825-1890), Eça de Queiroz (1845-1900) e Cesário Verde (1855-1886). À lista dos 10, apenas foram parar Luís de Camões, António Vieira, Camilo Castelo Branco e Eça de Queirós.

No século XX, elegi Teixeira Gomes (1860-1941) e Afonso Costa (1871-1937), entre os políticos da I República. Saltei por cima do Estado Novo, já que Salazar (1889-1970) só é relevante pelas piores razões. Quanto à resistência à ditadura, ao 25 de Abril e à II República, optei por Álvaro Cunhal (1913-2005), Salgueiro Maia (1944-1992) e Mário Soares (1924), único dos vivos que citei, por ser o símbolo da democracia e da integração europeia. Só Afonso Costa e Mário Soares couberam na lista dos 10.

Percorrendo a cultura portuguesa do século XX, elegi, entre os que já morreram: Raul Brandão (1867-1930), Teixeira de Pascoaes (1877-1952), Fernando Pessoa (1888-1935), Amadeo de Souza-Cardozo (1887-1918), Aquilino Ribeiro (1885-1963), Vieira da Silva (1908-1992), Jorge de Sena (1919-1978), Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004), Amália Rodrigues (1920-1999), Mário Cesariny (1923-2006), Alexandre O’Neill (1924-1986) e José Cardoso Pires (1925-1998). Vieira da Silva está entre os 10. O embaraço da escolha foi grande. Mas alivio a consciência expondo a lista toda.

«DN» - 26 Jan 07
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CENTELHAS DE GUERRA


FOI HÁ 90 ANOS, em Agosto de 1917, que o Papa Bento XV apelou aos dirigentes dos países envolvidos na Grande Guerra - que já grassava há três sangrentos e terríveis anos - para que pusessem termo ao «inútil massacre» e se dispusessem a construir uma paz duradoura. Mas, nesse mesmo ano, um sentimento aparentemente incompreensível de superioridade moral e civilizacional impeliu o grande escritor alemão Thomas Mann a considerar a guerra como «uma purificação, uma libertação, uma enorme esperança». Com insuportável arrogância intelectual, afirmou: «A vitória da Alemanha será a vitória da alma sobre o número. A alma é oposta ao ideal pacifista da civilização». E formulou esta questão absurda: «Acaso não será a paz um elemento de corrupção civil?».

Já durante a República de Weimar (1919-1933), Thomas Mann iria abandonar as ideias conservadoras, nacionalistas e anti-parlamentares, denunciando com presciência e coragem o perigo da ascensão de Hitler ao poder. Mas aquilo que escreveu em 1917 era «uma clara imagem da teoria essencialmente militarista alemã, segundo a qual a guerra enobrece». Sublinha-o a historiadora norte-americana Barbara Tuchman (1912-1989) no admirável livro que publicou em 1962 - The Guns of August - sobre os trágicos trinta e um dias do Verão de 1914 que mudaram a face do mundo, pondo definitivamente termo ao século XIX e iniciando «o terrível século XX», como Churchill lhe chamou.

Chefes políticos ineptos e medíocres, servidos por generais arrogantes e obtusos, deram corpo a interpretações, por vezes distorcidas e oportunistas, de teorias filosóficas sobre a natureza do homem, a essência da guerra e as culturas nacionais. Na Alemanha, as teorias de Clausewitz e a imagem de Aníbal e dos elefantes, na «batalha decisiva» de Canas, serviam para explicar o Plano Schliefen. Ora, «o que forjou o plano de Schliefen não foi Clausewitz, nem sequer a batalha de Canas, mas sim o egoísmo acumulado que dominava o povo alemão» - afirma Barbara Tuchman. Foram epígonos de Fichte, Hegel e Nietszche que alimentaram a ilusão de «um povo alemão eleito pela Providência» para conduzir o mundo a «um glorioso destino de apaixonante Kultur», no qual só «o super-homem se elevaria acima do âmbito vulgar e corrente». Em França, foi a ideia de «élan vital», enunciada pelo filósofo Henry Bergson, que serviu de base à doutrina militar da «offensive à outrance», elaborada pelo general Foch, cerne do medíocre Plano 17, que descurava por completo a guerra defensiva. Clausewitz revolveu-se na tumba.

Tão ilusório era o Plano 17 como o Plano Schliefen. É o fracasso de ambos que prolonga o massacre, «enquanto da torre do orgulho na cidade / a morte gigantesca olha com desprezo». Versos de Edgar Allan Poe que abrem outro admirável livro de Barbara Tuchman sobre os primórdios do século XX: The Proud Tower. O paralelismo com este não menos conturbado início do século XXI é inevitável. A arrogância civilizacional e o apelo à força bruta estão à vista. Uma centelha basta para desencadear a loucura.

«DN» 19 Jan 07
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domingo, 28 de janeiro de 2007

SÃO TOMÁS E AS ALMAS

A Apoteose de São Tomás de Aquino, pintada por Francisco de Zurbarán no ano de 1631, deve ser dos quadros mais notáveis, complexos e ambiciosos do grande pintor espanhol. São Tomás de Aquino, conhecido como o Doutor Angélico, ocupa o centro do quadro, rodeado por quatro Padres (Pais) da Igreja. Acima dele, surge o Espírito Santo, com Cristo e a Virgem, do lado esquerdo, e São Paulo e São Domingos, do lado direito. Abaixo dele, um grupo de frades dominicanos em oração, à esquerda, e outro grupo de figuras também em oração, à direita, do qual se destaca o imperador Carlos V.

Ao admirar o quadro, no Museu de Belas Artes de Sevilha, foi irresistível pensar no breve texto de Umberto Eco Sobre a alma dos embriões, no qual o escritor, ensaísta e professor (cuja tese de doutoramento, em 1956, foi sobre O Problema Estético em São Tomás), evoca o pensamento do grande teólogo italiano (1225-1274) acerca da criação da alma, independentemente da matéria corporal. Para São Tomás, os vegetais têm uma «alma vegetativa» que nos animais é absorvida pela «alma sensitiva», enquanto que nos seres humanos essas duas funções são absorvidas pela «alma racional». E é a esta que o homem deve o facto de ser dotado de inteligência, o que «faz dele uma pessoa».

Citando a Summa Theologica e a Summa Contra Gentiles, Eco sublinha que São Tomás «tem uma visão muito biológica da formação do feto». Deus só introduz, insufla, a alma, gradualmente, quando o feto adquire, primeiro, a «alma vegetativa» e, depois, a «alma sensitiva». Apenas num corpo já formado é criada a «alma racional». Ainda hoje subsiste a dúvida sobre qual é esse exacto momento. Mas, para São Tomás, é claro que existe uma gradação na geração, «por causa das formas intermediárias de que é dotado o feto, desde a origem e até á sua forma final». Mais ainda: os embriões não participarão na ressurreição da carne, não ressuscitarão, pois que a «alma racional» não foi infundida neles e, por essa razão, eles não são seres humanos. Afirma-o o Doutor Angélico.

São Tomás não é uma autoridade qualquer. É, como salienta Eco, a «Autoridade por excelência», é a «coluna que serve de suporte á teologia católica». Coluna essa que, curiosamente, digo eu, é bem explícita no quadro de Zurbarán. Daí que, para Eco, sejam tão surpreendentes «as actuais posições neofundamentalistas católicas». Será caso para perguntar, como fez Giovanni Sartori, se não se estará a estabelecer uma certa confusão entre a «defesa da vida» e a «defesa da vida humana». O que levaria a considerar como homicídios, por exemplo, derramar esperma para fins não fecundantes, comer frangos, matar mosquitos ou consumir vegetais. Para já nem falar, como lembra Eco, dos gurus que andam pelas ruas com gaze na boca, para evitarem matar micro-organismos quando respiram. Em suma: recomenda-se, a certos católicos, uma leitura atenta de São Tomás de Aquino. E, já agora, uma visão da magnífica pintura de Francisco de Zurbarán.

«DN» - 12 Jan 07
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A ÚLTIMA BARREIRA


ESCREVEU VLADIMIR JANKÉLÉVITCH (1903-1985): «A morte na primeira pessoa, isto é, a minha, já não poderei falar dela, porque se trata, efectivamente, da ‘minha’ morte». Por isso - acrescenta - «resta a morte na segunda pessoa, que é a morte do próximo», ou seja, a que mais se assemelha à minha «sem ser a minha» e, também, «sem ser a morte impessoal e anónima do fenómeno social». É a morte de «outra pessoa que não eu e, ao mesmo tempo, é a que me toca mais de perto». A «filosofia da morte», para quem pensa nela ou sobre ela, «é produzida para nós pelo próximo que está ao nosso lado».

Tinha 18 anos quando fui confrontado pela primeira vez com a morte na segunda pessoa, a morte de alguém muito próximo de mim e que eu amava: meu pai. Tinha ido visitá-lo ao hospital numa tarde soalheira de Maio de 1963. Estava inconsciente e muito mal, numa cama dos «cuidados intensivos», após uma operação delicada e de alto risco. Apesar disso, não podia nem queria imaginar ou, sequer, admitir a possibilidade de ele morrer. Tinha 44 anos e morreu nessa noite, sozinho, na cama do hospital. Creio que se morre sempre sozinho, numa solidão imensa, por muitas que sejam as pessoas que estão por perto. «Alguém nasceu ou morreu acompanhado, porventura?» - pergunta António Lobo Antunes, na belíssima crónica que publicou na Visão em 28 de Dezembro.

Minha mãe morreu dois dias antes, em 26 de Dezembro, na cama de um hospital de Roma, a cidade onde viveu quase toda a sua vida. Tinha 81 anos. Soube da sua morte por telemóvel. Mas a voz de quem me falou pareceu-me, primeiro, ser a dela. Regozijei-me. E mais estranha foi a sensação, ao tomar consciência da sua imobilidade definitiva e irrevogável. Quebrou-se, assim, a última barreira. Torno a citar Jankélévitch: «Quando desaparecem os nossos pais, desaparece a última barreira biológica. Depois, é a nossa vez. E essa não é uma ideia muito agradável». Leio agora as interrogações de um pintor, António Dacosta (1914-1990), num recorte do DN : «Porque é que se nasce e se morre? É absurdo, não é? Há um apelo de morte que se insinua pouco a pouco em nós».

É provável que, ao escrever esta breve crónica sobre a morte na segunda pessoa, neste caso sobre a morte dos meus pais, eu esteja a fazer batota. Essa «batota essencial» de que também falou Jankélévitch e que consiste em «aplicar a morte aos outros através de uma relação perpétua e de um adiamento». Dito de outro modo: «Tenho consciência da morte e sei que morrerei, mas não o creio». Ou, então, como disse Jacques Madaule: «Sei que morrerei, mas não acredito nisso». Um contra-senso. Tal como a morte, «que dá um sentido à vida, ao mesmo tempo que lhe retira esse sentido». E uma ironia, sobre a qual também escreveu Jankélévitch: «A ironia, que já não teme as surpresas, joga com o perigo». Neste caso, perigo de morte, abatida que foi a última barreira. Além do nada que é a morte, «quase nada é desprezível, quase nada é indispensável». Daí a derradeira das ironias desse grande filósofo: «A humanidade é eterna; eu não, infelizmente!».

COM VISTA AO NATAL


DO DESTINO DE MUITOS ENJEITADOS pouco ou nada se sabe, depois de os largarem ao deus dará, na roda, na lixeira ou na mata. No Conto do Natal de João de Araújo Correia, D. Rita de Cássia - governanta do rico e avarento Comendador Clarimundo, que exalava «o cheiro do ouro», mas que «bastardos de portas dentro é que não queria» - já enjeitara para aí uma dúzia deles, com a ajuda da parteira, «uma comadrona mais velha do que a sé de Braga». Numa véspera de Natal, a governanta «deitou cá fora um rapagão loiro e rosado como quem o fizera» e a parteira pôs-se a caminho, de «embrulho ao colo». Mas a inclemência do tempo, a lama e o lodo não a ajudaram nada. «Começou a caminhar às cegas», perdeu a tramontana e, após várias peripécias e rebates de consciência, acabou a depositar o rapagão num degrau cimeiro do «altar-mor da capelinha do povo». Na missa de Natal, um «desbocado e caritativo padre» subiu ao altar muito descomposto e pregou um sermão esmaltado de obscenidades e muito choro, que os fiéis acompanharam. Mas, ao proclamar que «este ano o Menino é de carne e osso» e «quem me dera apanhar aqui a cadela que o enjeitou!», o Comendador Clarimundo decidiu, por uma vez, reconhecer a paternidade, prometendo adoptar o rapagão e casar com a sua governanta. Assim, terá ganho o reino dos céus e afugentado parentes que lhe farejavam o ouro, desiludidos com a perda da futura herança. Só não se fica a saber, neste belo «conto bárbaro» de João de Araújo Correia, o que terá sucedido à outra dúzia de enjeitados pelo avarento.

No Natal de Miguel Torga, avulta «um pobre já acostumado a quantas tropelias a sorte quer»: o velho Garrinchas, que quer ir «consoar à manjedoira nativa». Mas já lhe pesam os 75 anos e de nada lhe vale atravessar a serra «a mata-cavalos, a correr contra o tempo e contra a idade, com o coração a refilar». Por isso fica-se pelo adro da ermida da Senhora dos Prazeres. Como precisa de fogueira, vai roubar papel à sacristia e escavaca «o andor da procissão arrumado a um canto», para fazer lenha. Quando «a madeira seca do palanquim ardia que regalava» e ele se aprestava a cear um bom naco de presunto, «a alma deu-lhe um rebate». Foi perguntar à Santa se era servida, esta «pareceu sorrir-lhe», ele tirou a imagem do altar e trouxe-a para junto da fogueira. E assim consoaram os três: a Senhora dos Prazeres a fazer de quem era; o pequeno ao colo dela, «a mesma coisa»; e «o velho Garrinchas», reconhecendo-se «embora indigno», a fazer de São José.

Mais insólito é o conto de Alexandre O’Neill «com vista ao próximo Natal». São Exercícios de Auto-Apoucamento praticados por Valério, o Lèrinho da sua Quinhas, que até se enfia por «uma perna de calça sustentando-se em pé, sem, aparentemente, homem lá dentro». Lèrinho prepara assim uma surpresa ao filho, o Necas, auto-apoucando-se na «amurada do sapato» de Natal. Mas dá para o torto. Com um «órfão vivo» horrorizado a soluçar no regaço da mãe: «Sa… Sa… Saiu-me o… o… o pai no sa… sa… sapato!». E a Quinhas a prometer-lhe que «o pai voltaria a crescer, a crescer»… Bom Natal!

«DN» - 22 Dez 06

CLAUSEWITZ NO VIETNAME


AINDA HOJE, passadas mais de três décadas sobre a derrota que os EUA sofreram no Vietname, os generais e estrategistas militares norte-americanos se recusam a admiti-lo. Mas, o certo é que um pequeno professor de História, intelectual e militante político, autodidacta da guerra e conhecedor profundo das campanhas militares de Napoleão - o general vietnamita Vo Nguyen Giap - se tornou, por actos e vitórias, num dos maiores cabos-de-guerra, não apenas do sangrento século XX, mas também da História.

Foi Giap que desfez o mito da «inultrapassável potência das tropas americanas», desmentindo a crença segundo a qual uma força militar poderosíssima, com armamento sofisticado e ultramoderno, só poderia conduzir à vitória. Giap possuía as características que Carl von Clauzewitz atribui ao génio militar: a capacidade de transcender as regras do momento através da inovação e a importância atribuída às forças morais - a coragem, a resolução, a audácia, a perseverança - ao incutir nas suas tropas, nos seus guerrilheiros e na população em geral, uma fé inquebrantável na causa pela qual combatiam.

Na notável biografia intitulada Victory at Any Cost - The Genius of Viet Nam’s General Vo Nguyen Giap, publicada há dez anos pelo historiador norte-americano Cecil B. Currey, um dos maiores especialistas da história militar contemporânea, fica provado com toda a evidência que não foi por acaso que as forças combatentes criadas a partir do zero, preparadas e dirigidas por Giap durante 35 anos (1940-1975): ajudaram a varrer as forças japonesas da Indochina (1945); venceram as tropas francesas, ao fim de oito anos de combates, na decisiva batalha de Dien Bien Phu (1954); e derrotaram meio milhão de soldados norte-americanos, bem como a sofisticada parafernália de bombardeiros B-52 e de Rolling Thunder, sentando os EUA à mesa das negociações, depois da ofensiva do Tet (1968), e impondo-lhes a retirada, no final das negociações de Paris (1973).

Giap não era apenas magistral em organização e logística, como admitem alguns generais norte-americanos. Era também magistral em táctica e estratégia, como sublinha Currey. Conhecia tão bem as forças inimigas como conhecia as suas próprias forças. Era capaz de aprender com os seus próprios erros e derrotas. Era hábil e flexível a combater e a vencer inimigos muito superiores e muito diversificados. Combatia de uma maneira defensiva até que um equilíbrio fosse atingido e depois enfrentava os seus inimigos com exércitos massivos capazes de os derrotar. Com sabedoria e perspicácia, concentrava os seus homens e o seu material sobre o centro de gravidade do inimigo. E vencia!

Noções cruciais de Clausewitz passaram do papel à prática, no Vietname, graças ao génio político e militar de Giap. «Clausewitz teria estado do seu lado», admite Cecil B. Currey. Agora que está na moda considerá-lo ultrapassado, basta reler os capítulos 6 (Extensão dos meios de defesa) e 26 (O povo em armas) do Livro VI (A Defensiva), da obra-prima que é Da Guerra, para perceber a actualidade de Carl von Clausewitz.

«DN» - 15 Dez 06
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CESARINY PORTÁTIL


O NOME. «O nome desfigura as coisas» - dizia Pascoaes. E o poeta achava que o dele não lhe caía bem. Provocava nele «uma contracção com os dentes». Considerava-o «uma imposição violenta / uma cutilada atroz porque atrozmente desleal». No poema A Antonin Artaud, questionava com ironia «semelhante feixe de estruturas»: «Como assim Mário como assim Cesariny como assim / ó meu deus de Vasconcelos?».

A morte. Não se sabe se foi «uma morte loura / simpática / acolhedora», se «uma morte boa / a uma boa hora», se «uma morte naniôra», como no coro dos maus oficiais de serviço na corte de epaminondas, imperador. Se «já nada temos a fazer sobre a Terra esperemos de / olhos fechados a passagem do vento». Passou a morte «por um domingo extenso e plácido», como num dos versos do Manual de Prestidigitação.

O funeral. Não o enterro. Porque não se enterra um corpo num gavetão. Foi sob uma luz cinzenta e a água da chuva. No cemitério ó meu deus dos Prazeres! «Lá passam as gabardines a caminho do Inverno / este é o melhor tempo da minha vida / o melhor o mais belo o mais lúcido o mais da / minha vida». O que a morte escolheu.

As gabardines. Eram poucas. O poeta, como disse sua irmã Henriette, não tinha «vaidade nenhuma», era «do mais modesto que pode haver». Insusceptível, por isso, de atrair pomposos representantes dos poderes fácticos. Além das gabardines, estava só um gato preto. Era tão doce e tão manso, que se deixou afagar por uma rapariga loura, dona de um exemplar genuíno, o número 81, de A Cidade queimada. «Está pois tudo certo, ó ‘Deus dos cemitérios pequenos’?». A mansuetude do gato diz-lhe que sim.

A eternidade. Não confundir com imortalidade. «Como é que o animal que fuma pode crer na imortalidade?» - perguntava Pascoaes. Mas a eternidade, se existe, deve ser como no poema podendo servir de posfácio: um lugar em que «há praças onde esculpir um lírio / zonas subtis de propagação do azul / gestos sem dono / barcos sob as flores / uma canção para ouvir-te chegar». Tal como no fim do «estranho poema» Pena Capital - «o último de nome religioso escrito pelo Autor» - «o Poeta regressa ao seu atelier nos astros, que a sua governanta encheu de flores». Já lá está «exorcismando».

O azul. Propaga-se, quer na pintura do poeta, quer na poesia do pintor. O Azul é mesmo convidado a ir com o Poeta e o António para «as praias da alma». «Convidemos o Azul por uma questão de princípio». E, quando «António morre», «o Azul, o Poeta, o Desmaiado e a Morte, descem em lentidão pelo ar abaixo». Pascoaes, mágico e sábio da montanha, dizia que «o pensamento é só cor azul ou imagem íntima da luz».

Azul, livre e portátil. Assim é a poesia de Cesariny. Cabe toda na boîte-en-valise de Marcel Duchamp, «sem dúvida a tentativa mais genial de exaltar o portátil em arte» - como escreve Enrique Vila-Matas. Espírito inovador, vontade constante de transgressão, sexualidade extrema, nomadismo infatigável, ausência de grandes propósitos. Claridade afinal tão azul como a que emana da «máquina risonha» de Walter Benjamin.

«DN» - 8 Dez 06
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DÉFICE MUSICAL

A GRANDE MÚSICA EM PORTUGAL tem dias. Por isso, não espanta que se acabe com a Festa da Música e a substituam por Dias da Música. Também não espanta que a excelsa ministra da Cultura diga que «era um disparate de gestão gastar-se uma percentagem do orçamento absolutamente exorbitante em três dias». Um disparate – disse ela. O que me fez lembrar aquele boneco do Contra-Informação que era a caricatura de outro ministro da Cultura que passava o tempo a dizer: «Que disparate!». Um velho pesadelo hilariante que me perturbou o sono naqueles dois anos que passei na moribunda Fundação de São Carlos tentando iludir-me a mim próprio até perceber que estava a ser ludibriado.

Sete anos durou a Festa da Música. Tantos quantos o pastor Jacob serviu Raquel, embora a expensas de Labão, que «em lugar de Raquel lhe deu a Lia». Vem a propósito o soneto de Camões porque, também neste caso, em vez da bela Festa vão dar-nos Dias. A Festa era a Raquel de muitos milhares de melómanos que, como Jacob, só a queriam a ela. Estavam dispostos «a servir outros sete anos». E mais serviriam, «se não fora para tão longo amor tão curta a vida!». É verdade, senhora ministra: esta vida são três dias. E bem merece, de vez em quando, «um disparate». Mas Labão é forreta. Sobrepujado pela «Colecção Berardo» e deprimido pela obsessão do défice, procura esconder a economia destrutiva do avarento sob o manto diáfano da parcimónia criadora do campónio.

Esta era uma Festa genuinamente popular, onde imensa gente, sobretudo jovens, ia ouvir grande música e ver grandes músicos pela primeira vez – ou pela única vez ao longo de um ano, já que as outras ofertas, por cá, são poucas, caras e com acesso muito limitado pela lotação das salas. As temporadas de ópera do São Carlos, apesar de serem bem melhores do que no meu tempo, continuam a ser dispendiosas e curtas, os preços dos bilhetes são elevados e a lotação do teatro cabe na cova de um dente. As temporadas de música da Fundação Gulbenkian são um «vício» que sai caro às criaturas remediadas e é quase inacessível para as que não têm cheta. Além disso, é uma instituição privada e não tem obrigação de oferecer bodos aos melómanos pobres. Mas o Estado, tem!

Claro que o mecenato quase não existe em Portugal. Os empresários estão-se nas tintas para a Folle Journée de Nantes transposta para Lisboa. Ouvir As Bodas de Fígaro durante três horas deve ser uma chumbada para eles. Não espanta que a Festa da Música tenha o mesmo destino dos magníficos concertos Em Órbita, quando a PT deixou de os patrocinar. Em 1996, o professor Cavaco perguntava aos alunos: «Devemos subsidiar a ópera, se os indivíduos não vão à ópera e preferem ir ao concerto de Tina Turner?». Eis a resposta. Encerrar o São Carlos daria grande escândalo. Mas a Festa da Música é «um disparate» que só diverte 50 mil «indivíduos». É preciso poupar na Cultura? Corta-se na grande música e acaba-se com a Festa. Viva a Tina Turner! Morra a Castafiore!

«DN» - 1 Dez 06
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O MONTE TESTACCIO


PASSEI A ÚLTIMA SEMANA de 2002 em Roma, alojado à beira do Tibre, em casa da minha irmã, no Lungotevere Portuense. E todas as manhãs podia ver, da janela do meu quarto, uma colina com uns bons 50 metros de altura - o monte Testaccio - que se ergue do outro lado do Tibre, na margem esquerda. É um monte de cerâmica constituído pelos cacos de cerca de 53 milhões de ânforas - sobretudo dos séculos II e III e principalmente oriundas da província Bética, no Sudoeste da Hispânia - que serviram para transportar à roda de seis mil milhões de litros de azeite, importados de além-mar por Roma.

Tinha à frente do meu nariz um sítio de grande importância histórica, mas só me dei conta da sua relevância quatro anos depois, ao ler o magnífico ensaio sobre A Queda de Roma e o Fim da Civilização, do arqueólogo inglês Bryan Ward-Perkins. De facto, o monte Testaccio é uma das provas mais palpáveis do esplendor e poder de irradiação da Roma imperial. O seu nível de desenvolvimento económico, a capacidade de produção, em quantidade e qualidade, das suas industrias, a organização e extensão das suas redes comerciais, permitiam a movimentação de produtos numa escala gigantesca, bem como a manufactura de recipientes de elevada qualidade para o fazer. A arqueologia dos cacos de cerâmica demonstra-o. Daí a importância e o significado do monte Testaccio.

A tese que Ward-Perkins defende, baseado em investigações desenvolvidas e em provas concretas, é a de que as invasões dos povos germânicos no século V provocaram a «crise», o «declínio» e a «queda» da civilização romana e não apenas um período mais ou menos longo de «transição», «mudança» e «transformação», como sustentam vários historiadores politicamente correctos. Não houve mera «acomodação» entre invasores e populações da Roma imperial: «os efeitos a longo prazo da dissolução do império foram dramáticos». A sofisticação antiga deu lugar à pobreza material e intelectual e a perícia técnica perdeu-se com a desintegração económica, política e militar do império romano. Coisas notáveis que os romanos tinham produzido em larga escala, antes da queda, «não conseguiram ser de novo feitas durante muitas centenas de anos», depois da queda.

Aliás, bem mais do que a vulnerabilidade militar e a incompetência política, é «o perigo da especialização» que Ward-Perkins aponta como razão crucial da «enormidade da desintegração económica que ocorreu no final do império». Da mesma forma que no mundo ocidental de hoje, «a complexidade económica tornou acessíveis as mercadorias produzidas em massa, mas também tornou as pessoas dependentes de especialistas e de semi-especialistas - trabalhando por vezes a centenas de quilómetros de distância - para muitas das suas necessidades materiais». Falhada a produção especializada e destruídas há muito a perícia e as redes locais, já não havia auto-ajuda eficaz para as suprir. A lição é clara: cautela com as montanhas de lixo de qualidade, como o monte Testaccio!

«DN» - 24 Nov 07
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UM CRETINO GENIAL

FOI EM JANEIRO de 1972 que li pela primeira vez O bravo soldado Chveik, a obra-prima do escritor checo Jaroslav Hasek (1883-1923). Devorei-a em três dias, quando já só me faltavam três meses para começar a cumprir o serviço militar obrigatório. É fácil de imaginar o efeito que tão perniciosa leitura produziu no meu bestunto. Apresentei-me em Mafra, no quartel dentro do convento, tentando arvorar «uma expressão tão estúpida como a do arquiduque Carlos, herdeiro do trono austríaco». Mas, ao contrário do bravo soldado Chveik, não logrei iludir ninguém. Duramente treinado para defender a pátria e o império, fui rapidamente promovido a oficial miliciano, ao cabo de seis meses. E só a revolução do 25 de Abril, que ocorreu precisamente dois anos depois de eu ter entrado em Mafra, me impediu de conhecer a África, tal como o bravo soldado Chveik desejaria ter conhecido a Rússia durante a Grande Guerra: arriscando a pele, mas de borla.

Não admira que Josef Chveik, o genial personagem criado em 1911 por Jaroslav Hasek, seja considerado uma espécie de herói nacional checo. Rechonchudo e de baixa estatura, o rosto é rubicundo e afável, o sorriso é bem-aventurado e honesto, o olhar é fervoroso e ardente, tão radiante como o de uma criança. O aprumo francamente militar, a imbecilidade aparente e a ingenuidade desarmante aliam-se a um zelo inexcedível e a uma verborreia inesgotável. O valente soldado Chveik é uma autêntica picareta falante que exaspera os seus superiores até à exaustão e assim vai demolindo, pouco a pouco, o edifício da autoridade e da burocracia, com um optimismo irresistível e hilariante.

«Este tipo é um cretino?» - pergunta, às tantas, um coronel ao sargento-ajudante. «Às Vossas ordens, meu coronel, sou um cretino!» - responde o bravo soldado Chveik, antecipando-se ao sargento-ajudante com uma inefável candura. Mas um cretino genial, que sai ileso de todas as catástrofes - tanto as que ele provoca como as que lhe caem em cima - e assim consegue sobreviver à Grande Guerra e à derrocada do Império Austro-Húngaro. Jaroslav Hasek exprime, através de Chveik, o carácter do povo checo e o seu impressionante poder de desagregação. Quem leu as suas aventuras e conhece os checos diz que foi assim que eles deram cabo dos austríacos: «com a força da tenacidade, gota a gota, até ao esgotamento final», transformando a águia imperial num galináceo.

Nada resiste ao humor e ao sarcasmo de Jaroslav Hasek: nem os militares; nem o clero; nem os políticos, sejam eles conformistas ou revolucionários; nem as monarquias; nem as repúblicas; nem os impérios. Fundou o «Partido do Progresso Moderado Dentro dos Limites da Lei», mas foi peremptório: «É totalmente falso que eu tenha sido preso duas vezes. A verdade é que fui preso três vezes!». Quando colaborou na Rússia com os bolcheviques, sobrepôs sempre a ironia à militância e ao discurso oficial da Revolução. Era anarquista e boémio. Não espanta que tenha morrido na mais absoluta miséria.

«DN» - 17 Nov 06
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PALADAR GLOBAL

SABEM O QUE É um «vinho puta»? Uma jovem enóloga gaulesa, Alix de Montille, explica. Um «vinho puta» vem logo ao de cima: é um daqueles vinhos que trepam por nós imediatamente, inundam-nos, alagam-nos, depois largam-nos de repente e acabou-se. De facto, são vinhos produzidos com muita batota. São vinhos traidores. Mas, neste mundo moderno em que já não há tempo para nada, nem para envelhecer naturalmente os vinhos, as pessoas já estão habituadas e gostam de ser enganadas, porque procuram apenas o prazer imediato, mesmo que seja curto e se desvaneça rapidamente.

Tudo isto, e muito mais, é explicado com subtileza e pormenor em Mondovino, o filme-documentário realizado em 2004 por Jonathan Nossiter, exibido há poucos dias na RTP-1 em horário quase nobre. Parece que é só de vinhos que nele se fala mas, de facto, ficamos a conhecer bastante melhor os bastidores, os mecanismos e as consequências da globalização em curso, as suas vantagens, indubitáveis, e os seus inconvenientes, quase sempre devastadores. Vale mesmo a pena ver, porque se aprende com prazer.

Os protagonistas do filme são, fundamentalmente: a poderosa família Mondavi, cujo império vinícola se estende de Napa Valley, na Califórnia, à Austrália, à França, à Itália ou ao Chile, para só citar algumas vinhas já «colonizadas»; o enólogo ambulante, winewmaker e wine consultant francês Michel Rolland, mago da micro-oxigenação das pipas de carvalho novo, in loco ou via telemóvel; e o «Papa» da crítica de vinhos norte-americano, Robert Parker, que estabeleceu o «cânone» do sabor e do gosto – o «paladar global» – e é o feiticeiro que faz a chuva e o bom tempo, isto é, que influencia os preços no mercado mundial dos néctares. São todos amigos, sobretudo a dupla Parker-Rolland. Parker ainda chegou a incomodar os Mondavi com classificações pouco abonatórias dos seus vinhos, mas deixou-se disso desde que Michel Rolland – que já «faz vinho» em 12 países – foi contratado para «micro-oxigenar» as pipas dos Mondavi. Bruxos!

Há cerca de três décadas que o sabor dos vinhos está a ser globalizado e o gosto dos consumidores uniformizado pelo diapasão da tríade Mondavi-Parker-Rolland. E até já se fala em vinho «parkerizado». Vale tudo, inclusive a falcatrua, para produzir vinhos normalizados, aromatizados, coloridos, maquilhados, nivelados artificialmente em pipas de carvalho novo, com um sabor a baunilha, que agradem ao paladar de Parker.

Os vinhos de marca globais, quase iguais, prevalecem sobre os vinhos de terroir, com o sabor característico dos locais em que são produzidos e a boa acidez que permite que sejam guardados para maturarem durante vários anos. Há núcleos de resistência, na Borgonha, no Languedoc e na Sardenha, por exemplo. Mas os «colaboracionistas», que seguem os senhores de Napa Valley e querem «vinhos imediatamente fáceis de beber», chamam-lhes «terroiristes». É possível ser moderno e preservar as tradições. A questão é saber se é possível resistir ao poder do dinheiro e à ditadura do paladar global.

«DN» - 10 Nov 06
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