domingo, 28 de janeiro de 2007

DÉFICE MUSICAL

A GRANDE MÚSICA EM PORTUGAL tem dias. Por isso, não espanta que se acabe com a Festa da Música e a substituam por Dias da Música. Também não espanta que a excelsa ministra da Cultura diga que «era um disparate de gestão gastar-se uma percentagem do orçamento absolutamente exorbitante em três dias». Um disparate – disse ela. O que me fez lembrar aquele boneco do Contra-Informação que era a caricatura de outro ministro da Cultura que passava o tempo a dizer: «Que disparate!». Um velho pesadelo hilariante que me perturbou o sono naqueles dois anos que passei na moribunda Fundação de São Carlos tentando iludir-me a mim próprio até perceber que estava a ser ludibriado.

Sete anos durou a Festa da Música. Tantos quantos o pastor Jacob serviu Raquel, embora a expensas de Labão, que «em lugar de Raquel lhe deu a Lia». Vem a propósito o soneto de Camões porque, também neste caso, em vez da bela Festa vão dar-nos Dias. A Festa era a Raquel de muitos milhares de melómanos que, como Jacob, só a queriam a ela. Estavam dispostos «a servir outros sete anos». E mais serviriam, «se não fora para tão longo amor tão curta a vida!». É verdade, senhora ministra: esta vida são três dias. E bem merece, de vez em quando, «um disparate». Mas Labão é forreta. Sobrepujado pela «Colecção Berardo» e deprimido pela obsessão do défice, procura esconder a economia destrutiva do avarento sob o manto diáfano da parcimónia criadora do campónio.

Esta era uma Festa genuinamente popular, onde imensa gente, sobretudo jovens, ia ouvir grande música e ver grandes músicos pela primeira vez – ou pela única vez ao longo de um ano, já que as outras ofertas, por cá, são poucas, caras e com acesso muito limitado pela lotação das salas. As temporadas de ópera do São Carlos, apesar de serem bem melhores do que no meu tempo, continuam a ser dispendiosas e curtas, os preços dos bilhetes são elevados e a lotação do teatro cabe na cova de um dente. As temporadas de música da Fundação Gulbenkian são um «vício» que sai caro às criaturas remediadas e é quase inacessível para as que não têm cheta. Além disso, é uma instituição privada e não tem obrigação de oferecer bodos aos melómanos pobres. Mas o Estado, tem!

Claro que o mecenato quase não existe em Portugal. Os empresários estão-se nas tintas para a Folle Journée de Nantes transposta para Lisboa. Ouvir As Bodas de Fígaro durante três horas deve ser uma chumbada para eles. Não espanta que a Festa da Música tenha o mesmo destino dos magníficos concertos Em Órbita, quando a PT deixou de os patrocinar. Em 1996, o professor Cavaco perguntava aos alunos: «Devemos subsidiar a ópera, se os indivíduos não vão à ópera e preferem ir ao concerto de Tina Turner?». Eis a resposta. Encerrar o São Carlos daria grande escândalo. Mas a Festa da Música é «um disparate» que só diverte 50 mil «indivíduos». É preciso poupar na Cultura? Corta-se na grande música e acaba-se com a Festa. Viva a Tina Turner! Morra a Castafiore!

«DN» - 1 Dez 06
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O MONTE TESTACCIO


PASSEI A ÚLTIMA SEMANA de 2002 em Roma, alojado à beira do Tibre, em casa da minha irmã, no Lungotevere Portuense. E todas as manhãs podia ver, da janela do meu quarto, uma colina com uns bons 50 metros de altura - o monte Testaccio - que se ergue do outro lado do Tibre, na margem esquerda. É um monte de cerâmica constituído pelos cacos de cerca de 53 milhões de ânforas - sobretudo dos séculos II e III e principalmente oriundas da província Bética, no Sudoeste da Hispânia - que serviram para transportar à roda de seis mil milhões de litros de azeite, importados de além-mar por Roma.

Tinha à frente do meu nariz um sítio de grande importância histórica, mas só me dei conta da sua relevância quatro anos depois, ao ler o magnífico ensaio sobre A Queda de Roma e o Fim da Civilização, do arqueólogo inglês Bryan Ward-Perkins. De facto, o monte Testaccio é uma das provas mais palpáveis do esplendor e poder de irradiação da Roma imperial. O seu nível de desenvolvimento económico, a capacidade de produção, em quantidade e qualidade, das suas industrias, a organização e extensão das suas redes comerciais, permitiam a movimentação de produtos numa escala gigantesca, bem como a manufactura de recipientes de elevada qualidade para o fazer. A arqueologia dos cacos de cerâmica demonstra-o. Daí a importância e o significado do monte Testaccio.

A tese que Ward-Perkins defende, baseado em investigações desenvolvidas e em provas concretas, é a de que as invasões dos povos germânicos no século V provocaram a «crise», o «declínio» e a «queda» da civilização romana e não apenas um período mais ou menos longo de «transição», «mudança» e «transformação», como sustentam vários historiadores politicamente correctos. Não houve mera «acomodação» entre invasores e populações da Roma imperial: «os efeitos a longo prazo da dissolução do império foram dramáticos». A sofisticação antiga deu lugar à pobreza material e intelectual e a perícia técnica perdeu-se com a desintegração económica, política e militar do império romano. Coisas notáveis que os romanos tinham produzido em larga escala, antes da queda, «não conseguiram ser de novo feitas durante muitas centenas de anos», depois da queda.

Aliás, bem mais do que a vulnerabilidade militar e a incompetência política, é «o perigo da especialização» que Ward-Perkins aponta como razão crucial da «enormidade da desintegração económica que ocorreu no final do império». Da mesma forma que no mundo ocidental de hoje, «a complexidade económica tornou acessíveis as mercadorias produzidas em massa, mas também tornou as pessoas dependentes de especialistas e de semi-especialistas - trabalhando por vezes a centenas de quilómetros de distância - para muitas das suas necessidades materiais». Falhada a produção especializada e destruídas há muito a perícia e as redes locais, já não havia auto-ajuda eficaz para as suprir. A lição é clara: cautela com as montanhas de lixo de qualidade, como o monte Testaccio!

«DN» - 24 Nov 07
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UM CRETINO GENIAL

FOI EM JANEIRO de 1972 que li pela primeira vez O bravo soldado Chveik, a obra-prima do escritor checo Jaroslav Hasek (1883-1923). Devorei-a em três dias, quando já só me faltavam três meses para começar a cumprir o serviço militar obrigatório. É fácil de imaginar o efeito que tão perniciosa leitura produziu no meu bestunto. Apresentei-me em Mafra, no quartel dentro do convento, tentando arvorar «uma expressão tão estúpida como a do arquiduque Carlos, herdeiro do trono austríaco». Mas, ao contrário do bravo soldado Chveik, não logrei iludir ninguém. Duramente treinado para defender a pátria e o império, fui rapidamente promovido a oficial miliciano, ao cabo de seis meses. E só a revolução do 25 de Abril, que ocorreu precisamente dois anos depois de eu ter entrado em Mafra, me impediu de conhecer a África, tal como o bravo soldado Chveik desejaria ter conhecido a Rússia durante a Grande Guerra: arriscando a pele, mas de borla.

Não admira que Josef Chveik, o genial personagem criado em 1911 por Jaroslav Hasek, seja considerado uma espécie de herói nacional checo. Rechonchudo e de baixa estatura, o rosto é rubicundo e afável, o sorriso é bem-aventurado e honesto, o olhar é fervoroso e ardente, tão radiante como o de uma criança. O aprumo francamente militar, a imbecilidade aparente e a ingenuidade desarmante aliam-se a um zelo inexcedível e a uma verborreia inesgotável. O valente soldado Chveik é uma autêntica picareta falante que exaspera os seus superiores até à exaustão e assim vai demolindo, pouco a pouco, o edifício da autoridade e da burocracia, com um optimismo irresistível e hilariante.

«Este tipo é um cretino?» - pergunta, às tantas, um coronel ao sargento-ajudante. «Às Vossas ordens, meu coronel, sou um cretino!» - responde o bravo soldado Chveik, antecipando-se ao sargento-ajudante com uma inefável candura. Mas um cretino genial, que sai ileso de todas as catástrofes - tanto as que ele provoca como as que lhe caem em cima - e assim consegue sobreviver à Grande Guerra e à derrocada do Império Austro-Húngaro. Jaroslav Hasek exprime, através de Chveik, o carácter do povo checo e o seu impressionante poder de desagregação. Quem leu as suas aventuras e conhece os checos diz que foi assim que eles deram cabo dos austríacos: «com a força da tenacidade, gota a gota, até ao esgotamento final», transformando a águia imperial num galináceo.

Nada resiste ao humor e ao sarcasmo de Jaroslav Hasek: nem os militares; nem o clero; nem os políticos, sejam eles conformistas ou revolucionários; nem as monarquias; nem as repúblicas; nem os impérios. Fundou o «Partido do Progresso Moderado Dentro dos Limites da Lei», mas foi peremptório: «É totalmente falso que eu tenha sido preso duas vezes. A verdade é que fui preso três vezes!». Quando colaborou na Rússia com os bolcheviques, sobrepôs sempre a ironia à militância e ao discurso oficial da Revolução. Era anarquista e boémio. Não espanta que tenha morrido na mais absoluta miséria.

«DN» - 17 Nov 06
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PALADAR GLOBAL

SABEM O QUE É um «vinho puta»? Uma jovem enóloga gaulesa, Alix de Montille, explica. Um «vinho puta» vem logo ao de cima: é um daqueles vinhos que trepam por nós imediatamente, inundam-nos, alagam-nos, depois largam-nos de repente e acabou-se. De facto, são vinhos produzidos com muita batota. São vinhos traidores. Mas, neste mundo moderno em que já não há tempo para nada, nem para envelhecer naturalmente os vinhos, as pessoas já estão habituadas e gostam de ser enganadas, porque procuram apenas o prazer imediato, mesmo que seja curto e se desvaneça rapidamente.

Tudo isto, e muito mais, é explicado com subtileza e pormenor em Mondovino, o filme-documentário realizado em 2004 por Jonathan Nossiter, exibido há poucos dias na RTP-1 em horário quase nobre. Parece que é só de vinhos que nele se fala mas, de facto, ficamos a conhecer bastante melhor os bastidores, os mecanismos e as consequências da globalização em curso, as suas vantagens, indubitáveis, e os seus inconvenientes, quase sempre devastadores. Vale mesmo a pena ver, porque se aprende com prazer.

Os protagonistas do filme são, fundamentalmente: a poderosa família Mondavi, cujo império vinícola se estende de Napa Valley, na Califórnia, à Austrália, à França, à Itália ou ao Chile, para só citar algumas vinhas já «colonizadas»; o enólogo ambulante, winewmaker e wine consultant francês Michel Rolland, mago da micro-oxigenação das pipas de carvalho novo, in loco ou via telemóvel; e o «Papa» da crítica de vinhos norte-americano, Robert Parker, que estabeleceu o «cânone» do sabor e do gosto – o «paladar global» – e é o feiticeiro que faz a chuva e o bom tempo, isto é, que influencia os preços no mercado mundial dos néctares. São todos amigos, sobretudo a dupla Parker-Rolland. Parker ainda chegou a incomodar os Mondavi com classificações pouco abonatórias dos seus vinhos, mas deixou-se disso desde que Michel Rolland – que já «faz vinho» em 12 países – foi contratado para «micro-oxigenar» as pipas dos Mondavi. Bruxos!

Há cerca de três décadas que o sabor dos vinhos está a ser globalizado e o gosto dos consumidores uniformizado pelo diapasão da tríade Mondavi-Parker-Rolland. E até já se fala em vinho «parkerizado». Vale tudo, inclusive a falcatrua, para produzir vinhos normalizados, aromatizados, coloridos, maquilhados, nivelados artificialmente em pipas de carvalho novo, com um sabor a baunilha, que agradem ao paladar de Parker.

Os vinhos de marca globais, quase iguais, prevalecem sobre os vinhos de terroir, com o sabor característico dos locais em que são produzidos e a boa acidez que permite que sejam guardados para maturarem durante vários anos. Há núcleos de resistência, na Borgonha, no Languedoc e na Sardenha, por exemplo. Mas os «colaboracionistas», que seguem os senhores de Napa Valley e querem «vinhos imediatamente fáceis de beber», chamam-lhes «terroiristes». É possível ser moderno e preservar as tradições. A questão é saber se é possível resistir ao poder do dinheiro e à ditadura do paladar global.

«DN» - 10 Nov 06
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A MORTE QUE ESPERE!


INCITADOS pelas «conversas à lareira» de um caudilho agitador e charlatão, Arturo Farrell, que a opinião pública considera ser o «chefe secreto dos Jovens Turcos», cáfilas de jovens fanáticos e atléticos percorrem as ruas de Buenos Aires pela calada da noite, à caça de velhos, para os insultar, brutalizar ou matar à pancada. Arturo Farrell não hesita em recorrer à calúnia e ao embuste para alimentar os seus argumentos «mais inflamados do que razoáveis». Utiliza os seus «dotes de orador» e a «cálida tonalidade» da sua voz para fascinar «milhões de párias», convencidos pelas charlas demagógicas e populistas de que Farrell lhes está a «conferir consciência da sua própria dignidade».

O Diário da Guerra aos Porcos, título da extraordinária novela que Adolfo Bioy Casares publicou em 1969, agora editada em português pela Cavalo de Ferro, é o relato de uma guerra invisível, tão real como simbólica; de uma luta implacável entre jovens e velhos; de uma querela entre antigos e modernos dirimida na rua, ao pontapé e à bomba. Há quem veja em Farrell e nos «Jovens Turcos» uma clara alusão à subida ao poder do coronel Perón. O autor do diário refere-se, logo na primeira página, a um «movimento que brilhou como uma estrela fugaz na nossa longa noite política». E também há quem considere esta novela um «prenúncio das revoltas estudantis, da guerrilha urbana e, até, do movimento punk». A sua leitura consente estas múltiplas interpretações.

Todavia, como o próprio Bioy Casares salientou, o Diário da Guerra aos Porcos é, acima de tudo, uma «reflexão sobre a vida». Simultaneamente cruel, irónica e poética. É que os grupos rivais, os jovens e os velhos, também enfrentam um inimigo comum: a inexorável passagem do tempo e o envelhecimento do corpo, cárcere do espírito. Quase no fim, há uma cena hilariante, quando Isidoro Vidal vai visitar o seu amigo Arévalo ao hospital. O patético doutor Cadelago, tentando justificar «a identificação dos novos com os velhos», diz a Vidal: «Através desta guerra, eles entenderam de uma maneira íntima, dolorosa, que todos os velhos são o futuro de um jovem». Pior ainda: «Invariavelmente, o jovem elabora a seguinte fantasia: matar um velho equivale a suicidar-se». E daí que o serviço de psiquiatria não consiga atender todos os jovens que a ele acorrem.

O grupo de velhos amigos que se tratam por rapazes, pela simples razão de já o terem sido uma vez na vida, é inolvidável. Tal como a cena em que uma jovem vizinha, Nélida, seduz o velho Isidoro Vidal e o convence a ir viver com ela. A escrita de Bioy é clara, concisa, inventiva, poética. Já acabada a guerra idiota, uns miúdos a saltar ao pé-coxinho, frente à casa de Nélida, assediam Vidal quando ele chega: «Estamos a brincar aos correspondentes de guerra. Pedimos-lhe as suas impressões sobre esta paz». Ele diz-lhes: «Esperem por mim». Primeiro, quer subir e abraçar Nélida. «A porta está aberta» - murmura ela. «Fechamo-la depois» - responde-lhe Vidal. A morte que espere!

«DN» - 3 Nov 06
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ARROGÂNCIA IMPERIAL

Tucídides

QUANDO INVOCAMOS A HISTÓRIA para compreender melhor o presente, convém ter cautela com as analogias superficiais e é prudente evitar identificações que acabam por se revelar como falsas. Existem, todavia, exemplos com os quais é legítimo estabelecer paralelismos. A Guerra do Peloponeso, escrita por Tucídides há 24 séculos, é um marco da história política e militar que, pelo seu carácter demonstrativo e pelo rigor com que os factos são descritos, nunca deixou de ser convocada e estudada ao longo dos tempos, revelando, frequentemente, uma flagrante e surpreendente actualidade.

Ao lermos a narrativa de Tucídides, o que mais impressiona, nesta guerra que se prolonga por 27 anos, entre 431 a.C. e 404 a.C., causando a morte de milhares de civis e o fim da hegemonia de Atenas sobre o Mar Egeu e boa parte da Grécia, é o complexo de superioridade e a arrogância imperial da Cidade-Estado democrática. Não só em relação aos seus inimigos - Esparta e as outras Cidades-Estados oligárguicas, aliadas na Liga do Peloponeso -, mas também em relação a Cidades-Estados que pretendem ser neutrais e, sobretudo, em relação às Cidades-Estados aliadas de Atenas na Confederação de Delos, vergadas pelo peso dos tributos e politicamente tratadas como súbditas.

Na célebre oração fúnebre que Tucídides atribui a Péricles, em homenagem aos atenienses mortos no primeiro ano da Guerra do Peloponeso, o que avulta não é apenas o extraordinário elogio da democracia e da liberdade. É, acima de tudo, a justificação da guerra invocando a superioridade moral de Atenas, que legitima o direito de impor a sua hegemonia a todos os outros. É a «retórica da prevaricação», como lhe chama Umberto Eco: nós temos o direito de impor a nossa força aos outros porque encarnamos a melhor forma de governo que existe. O paralelo com a actualidade é irresistível.

Como salienta Jacqueline de Romilly, no livro sobre Alcibiade ou les dangers de l’ambition, Péricles afirmava não ser possível renunciar ao império e abandoná-lo, mas não pensava em conquistas. Mais ambicioso será o seu pupilo Alcibíades, 15 anos após a morte de Péricles (429 a.C.), ao afirmar que a própria existência do império o obriga a multiplicar as suas intervenções, não podendo, por isso, Atenas renunciar às conquistas. Alcibíades defende a ocupação da Sicília, não só por causa das suas riquezas (é a maior fornecedora de trigo para toda a Grécia) mas também pela necessidade de expansão do imperialismo ateniense. A expedição à Sicília será um completo desastre.

Entre o trigo siciliano e o petróleo iraquiano distam 24 séculos. Os conselheiros neoconservadores de Bush leram Tucídides e quiseram corrigir a História, convencidos de que ela não se repete. Desprezaram os alertas do estratego Nícias, sobre os riscos da expedição à Sicília. Mas o chefe do estado-maior do Exército britânico decidiu assumir agora o papel de Nícias, defendendo a retirada do Iraque, «sometime soon»!

«DN» - 27 Out 06
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O GRILO FALANTE E O CARANGUEJO


PARA ESCALPELIZAR o documento da Irmã Lúcia sobre o terceiro segredo de Fátima, escrito em 1944, Umberto Eco socorre-se de um conceito muito próprio e sui generis, a que ele chama, com ironia, o dom de pósmonição. Uma espécie de premonição póstuma ou, como diria o saudoso futebolista João Pinto, um prognóstico depois do jogo. É nessa perspectiva - como quem diz: assim também eu! - que Eco descasca o segredo de Lúcia, no qual são perfeitamente reconhecíveis citações do Apocalipse de S. João. Mas remata o texto com elegância: «Cada vidente vê aquilo que a sua cultura lhe ensinou».Este é apenas um dos muitos e magníficos textos que Umberto Eco reúne no seu mais recente livro, intitulado A passo di gambero, Guerre calde e populismo mediático. Nele, analisa e comenta o regresso triunfal das «guerras quentes», o início de uma nova época de cruzadas com a ressurreição do velho combate entre a Cristandade e o Islão, os fundamentalismos cristãos, a polémica antidarwiniana, o fantasma do «perigo amarelo», as grandes migrações dos «povos bárbaros», o ressurgir do antisemitismo, a instauração de formas de governo baseadas no apelo populista dos média - entre outros sintomas de regressão. «Como se a História, esfalfada por dois milénios de progressão, se enrolasse sobre si própria» e caminhasse às arrecuas, como o caranguejo ou o lagostim.

Impregnado pelo pensamento de Norberto Bobbio acerca dos homens de cultura, cuja função primordial é semear dúvidas, mais do que andar à colheita de certezas, Eco também sustenta que os intelectuais devem exprimir a sua criatividade, tanto através de ideias inovadoras como através da crítica constante do saber e das práticas antecedentes, sem esquecer a crítica dos seus próprios discursos. «Electrão livre», Eco desempenha o papel de «grilo falante», que não poupa nada nem ninguém à crítica, inclusive o partido que escolheu, mesmo correndo «o risco de ser fuzilado logo à primeira vaga».

Eco evoca ainda a metáfora de Italo Calvino em O Barão Trepador, para sugerir que «o intelectual deve participar, mantendo-se empoleirado nas árvores». Talvez perca «a vantagem de ter os pés bem assentes na terra, mas ganha em largueza de vistas». Não sobe às árvores para escapar a obrigações, mas por sentir que deve manter-se ágil se não quiser acabar como Visconde cortado ao meio ou como Cavaleiro inexistente.

Até para fazer a guerra é preciso cultura, nota Eco. Mas a desconfiança ancestral da direita americana em relação aos intelectuais levou Bush a ignorar os cabeças de ovo que poderiam explicar a mentalidade dos povos que ele decidiu bombardear e converter. Só que, como já avisava O bravo soldado Chveik, de Jaroslav Hasek, «no topo de cada árvore» pode estar «um soldado sem disciplina», coisa que o coronel Makovec acharia intolerável: «A disciplina, seus brutos, é necessária, porque, sem ela, vocês trepariam às árvores como macacos, mas o serviço militar fará de vocês, caterva de idiotas, membros da sociedade humana». Podia ser esta a réplica de Bush a Calvino e Umberto Eco.

NOTA: Os termos écrevisse (francês) e gambero (italiano) tanto podem ser traduzidos por «caranguejo» como por «lagostim». A editora francesa optou por reproduzir um lagostim na capa. Mas, em português, o costume é dizer: «andar para trás como o caranguejo».


«DN» - 20 Out 06
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BESTAS CÉLERES


SE ANDARMOS À CATA de velhos clássicos da literatura para oferecermos aos filhos ou a jovens amigos, depressa constataremos quão raros são os oásis que ainda restam no deserto de escaparates e prateleiras das livrarias, atravancadas pela contínua invasão das «bestas céleres». Era com esta divertida expressão que Alexandre O’Neill designava «o fabrico e o consumo desenfreado de um produto que por acaso se chama livro», e que é mais conhecido e popularizado, há já várias décadas, pelo termo best-seller.

Teremos muita sorte se o velho clássico tiver sido reeditado e estiver incluído na lista de «novidades» do mês, da quinzena ou, mesmo, só da semana. Se não, é escusado andar à cata dele pelas livrarias, porque já não está à venda. A produção e o consumo de bens culturais, como agora se diz, provoca o envelhecimento acelerado e fulgurante, não só dos velhos clássicos da literatura, mas também das obras dos melhores escritores do nosso tempo, se elas não tiverem a sorte de entrar para os «topes» de vendas.

O’Neill fazia uma distinção entre «topes» de vendas como O Nome da Rosa, de Umberto Eco, ou as Memórias de Adriano, de Marguerite Yourcenar, e «bestas céleres» como Love Story ou O Aeroporto, que já nem sei quem escreveu. A comparação actual poderia ser feita entre «topes» de vendas como A Mancha Humana, de Philip Roth, ou Amigos para Sempre, de John Le Carré, e «bestas céleres» como I’m in love with a Pop Star, de Margarida Rebelo Pinto, ou A Bruxa de Portobello, de Paulo Coelho, a muitas léguas da literatura. Sem esquecer Como perder peso num abrir e fechar de pernas, de Richard Smith, ou Isso agora…não interessa nada, de Teresa Guilherme. Mas sem citar o ror de códigos, cabalas, enigmas, segredos e profecias que estão na moda.
Fruttero & Lucentini, famoso par de escritores italianos co-autores de excelentes romances e crónicas, já se queixavam, há 30 anos, do facto de as livrarias se parecerem cada vez mais com os quiosques de jornais, aonde ninguém vai à procura dos diários da véspera ou das revistas do mês passado. Numa das crónicas do livro em que deploram a «predominância do cretino» (La prevalenza del cretino), citam Schopenhauer, em 1851: «Enquanto as pessoas, em vez de lerem o melhor de todos os tempos, preferem sempre e unicamente as últimas novidades, o século afunda-se cada vez mais nas suas próprias porcarias. O novo raramente é bom e o bom só se mantém novo pouco tempo».

Não sou assim tão pessimista. Lamento apenas que as «bestas céleres» removam a boa literatura das estantes das livrarias. E não me sinto à vontade nos snack luncheons de lançamento de novos livros. P.G. Wodehouse achava «medonho» ver os fotógrafos a obrigarem o autor a posar de livro na mão. O que não diria se folheasse a revista em que uma autora lusa de «bestas céleres» revela a que cabeleireiro vai, que sandálias calça e o desodorizante que usa. Bem mais difícil é escrever como Stendhal. E o certo é que eu só queria adquirir um exemplar de A Cartuxa de Parma, para o oferecer a uma filha.

«DN» - 13 Out 06
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A ÚLTIMA LIÇÃO DE UNAMUNO


HÁ 70 ANOS, em 12 de Outubro de 1936, um grito irracional e obsceno – «Muera la inteligencia! Viva la muerte!» – ecoou no salão nobre da Universidade de Salamanca, onde se comemorava o aniversário do descobrimento da América e o «Dia da Raça». O grito foi expelido por um general fascista e fanático, Millán Astray, mutilado de guerra, com um olho e um braço a menos, fundador da Legião Estrangeira espanhola e director do departamento de imprensa e propaganda criado por Franco, que já chefiava as forças nacionalistas instalado no primeiro andar do palácio episcopal de Salamanca.

No estrado do salão nobre, além do reitor, Miguel de Unamuno, tomaram lugar a mulher de Franco, Carmen Polo, o próprio Millán Astray e o bispo de Salamanca, Pla y Daniel, que publicara em Setembro uma carta pastoral proclamando que o levantamento nacionalista, embora assumisse «a forma externa de uma guerra civil», era «na realidade uma Cruzada». Na audiência, notáveis do Movimiento e membros da Falanje pontuavam a sessão com saudações fascistas ao retrato de Franco e o grito dos legionários, «Viva la muerte!», a que o sinistro e patético Millán Astray respondia com todo o vigor.

Unamuno tomou a palavra e disse: «Conheceis-me bem e sabeis que sou incapaz de permanecer em silêncio. Por vezes, ficar calado equivale a mentir. Porque o silêncio pode ser interpretado como aquiescência». Criticou sem rodeios «o necrófilo e insensato grito» que acabara de ouvir. Lembrando que era perito em paradoxos, afirmou que «este ridículo paradoxo» lhe parecia «repelente». Salientando que o general Millán Astray era um inválido de guerra, como «também o foi Cervantes», não hesitou em destrinçá-los a dedo: «De um mutilado que careça da grandeza espiritual de Cervantes, é de esperar que encontre um terrível alívio vendo como se multiplicam à sua volta os mutilados».

Foi então que Millán Astray expeliu o seu grito irracional e obsceno. Falangistas e militares sacaram das pistolas e uma delas foi apontada à cabeça de Unamuno. O que não impediu o reitor da Universidade de Salamanca de concluir o seu corajoso discurso:

«Este é o templo da inteligência. E eu sou o seu sumo sacerdote. Estais a profanar o seu recinto sagrado. Vencereis, porque vos sobra a força bruta. Mas não convencereis. Para convencer há que persuadir. E para persuadir seria necessário algo que vos falta: razão e direito na luta. Parece-me inútil pedir-vos que penseis na Espanha…Tenho dito».

Franco lamentou não terem morto Unamuno logo ali. Expulso da universidade e submetido a prisão domiciliária, morreu no final de 1936. O filósofo de Del sentimiento trágico de la vida era profundamente católico. Admirava Camilo, Eça, Antero, Pascoaes e tantos outros que evoca na obra Por terras de Portugal e da Espanha. Ortega y Gasset escreveu, em elogio fúnebre:
«A voz de Unamuno ecoava sem parar por toda a Espanha há um quarto de século. Ao cessar para sempre, temo que o nosso país sofra uma era de atroz silêncio».
Assim foi. Sobreviveu a obra. E uma admirável lição de coragem.

«DN» - 6 Out 06

OS EPÍGONOS DE LEO STRAUSS


INICIARAM A SUA MILITÃNCIA IDEOLÓGICA, sobretudo, na Universidade de Chicago, da qual eram professores o venerado mestre - o filósofo Leo Strauss (1899-1973) - e vários discípulos e colaboradores próximos, como Allan Bloom (o Ravelstein de Saul Bellow), autor de um ensaio, tão inteligente e populista como ressentido e reaccionário, intitulado The Closing of the American Mind, que foi um sucesso de vendas em 1987.

Chegaram a organizar «esquadrões da verdade straussiana», bandos de vigilantes intelectuais e autênticas milícias morais que interrompiam aulas dos professores que não pensavam como eles, para os provocar e intimidar, no estilo dos «guardas vermelhos» maoístas ou dos «guardiães da virtude» que hoje «patrulham» as ruas do Irão.

Optaram pela política, rumaram a Washington e infiltraram-se nos bastidores do poder. Colaboradores da Rand Corporation, participaram na elaboração do Project for a New American Century. Aconselharam Ronald Reagan, mas ficaram desiludidos com George Bush sénior, por não ter derrubado Saddam Hussein durante a primeira Guerra do Golfo. Investiram em Dan Quayle, vice-presidente débil e pobre de espírito.

Fizeram a travessia do deserto durante os dois mandatos de Bill Clinton, até que George Bush junior lhes caiu nos braços e aconteceu o 11 de Setembro. Tomaram conta do Pentágono, dos serviços secretos e da política de Defesa. Criaram o Office of Special Plans, tutelado por Paul Wolfowitz e dirigido por Abram Shulsky, co-autor do livro Leo Strauss and the World of Intelligence. Forjaram as provas da existência de armas de destruição maciça no Iraque e de ligações entre Saddam Hussein e a Al Qaeda.

Após a imprevista invasão do Afeganistão, Bin Laden continuou à solta, mas o Iraque foi finalmente invadido e ocupado com os resultados desastrosos que continuam à vista. O que obstou à execução integral do plano delineado por Wolfowitz, que previa a invasão da Síria e do Sul do Líbano (Israel bem o tentou, tarde e a más horas).
Estes epígonos de Leo Strauss (especialista em Platão e discípulo de Heidegger, que aderiu ao nazismo, e de Carl Schmitt, jurista do IIIº Reich) admiram a autocracia e cultivam a política como arte da dissimulação e da manipulação – e privilégio das elites, por via do que Leo Strauss considera «direito natural». As massas precisam de religião, nacionalismo e guerra, porque a paz universal e a harmonia entre povos são sinónimos de «facilidade» e «preguiça», contra a «vida árdua» e o «esforço» para expandir a fé e o império - americano, obviamente. Faz parte da cartilha dos neo-conservadores.

Em Leo Strauss and the Politics of American Empire, Anne Norton acusa-os de terem deformado e pervertido o pensamento do filósofo. Não é essa a opinião de Shadia Drury, em Leo Strauss and the American Right. Nem a de Seymour Hersh, em Chain of Command. Lendo os três, percebemos melhor o sarilho em que Bush filho nos meteu. E as razões por que tantos ex-maoístas se tornaram neo-conservadores e belicistas

«DN» - 29 Set 06

À BEIRA DO COLAPSO


EIS O QUE DISSE O VELHO, sábio e céptico Solomon Kahn: «A humanidade devorou num século todos os recursos mundiais, que tinham levado milhões de anos a acumular, e nenhum dirigente ligou meia ou deu ouvidos a todas as vozes que tentaram avisá-los. Limitaram-se a deixar-nos produzir em excesso e consumir em excesso, até que agora o petróleo se foi, a terra fértil esgotou-se e desapareceu, as árvores foram derrubadas e os animais extintos. O planeta está envenenado e tudo o que temos em troca disso são sete milhares de milhões de seres humanos a lutar pelas migalhas que restam, vivendo uma existência miserável». Disse mais o velho Solomon: «Houve uma altura em que tivemos o mundo inteiro nas mãos, mas devorámos e queimámos tudo e agora acabou-se».

Este é o cenário aterrador de uma novela de ficção científica, Make Room! Make Room!, escrita em 1966 por Harry Harrison, que com ela conquistou o Prémio Nébula, e na qual livremente se inspirou Richard Fleischer para realizar, em 1973, o filme Soylent Green, ainda mais impressionante, pessimista e trágico do que a própria novela. Esta só foi editada em Portugal em 1986, pela Caminho, com o mesmo título atribuído ao filme: À Beira do Fim. Voltei agora a ler a novela e recordo o filme como se o visse hoje.

Numa megalópole com 35 milhões de habitantes, a esmagadora maioria vive ao relento, ou nas catacumbas de um metropolitano que já não funciona, ou em carcaças de automóveis abandonados em parques de estacionamento inúteis, ou em navios corroídos pela ferrugem e atracados há muito nos cais - uma shiptown. Falta a água e os alimentos escasseiam, tudo é racionado, mesmo certos produtos sintéticos de origem misteriosa que são distribuídos como substitutos dos alimentos naturais. No filme, é a descoberta desse mistério que levará Solomon Kahn a desistir de viver e a submeter-se à eutanásia, numa clínica onde morre a ouvir uma sinfonia de Beethoven e a contemplar as imagens filmadas de um mundo que ele ainda conheceu, mas que já desapareceu há muito.

Infelizmente, não é grande a distância que separa ficção e realidade. Se o futuro é relativamente imprevisível, o passado está cheio de exemplos de civilizações que não resistiram ao seu esplendor, entrando em declínio e queda irreversíveis, até à extinção. São os processos dessa extinção – sobretudo a tragédia da Ilha da Páscoa, a decadência e o fim do Chaco, o esgotamento e queda da civilização Maya, o desaparecimento dos Vikings na Gronelândia – que nos relata o historiador e cientista norte-americano Jared Diamond, num extraordinário ensaio intitulado Collapse. Recursos naturais explorados até à exaustão, alterações climáticas, destruição do meio ambiente, guerras, secas, fome e incapacidade de adaptação à mudança causaram verdadeiros ecocídios. Também vale a pena ler outro ensaio de Jared Diamond, já editado em Portugal pela Relógio d’Água: Armas, Germes e Aço, sobre os destinos das sociedades humanas. Se não aprendermos as lições, a ficção poderá tornar-se realidade e poderemos estar à beira do colapso.

«DN» - 22 Set 06
http://sorumbatico.blogspot.com/2006/09/beira-do-colapso.html

CAPITALISMO TOTAL


TAL COMO PREVIA e temia o grande economista norte-americano Thorstein Veblen há quase um século (1908), ao salientar os desajustamentos entre a produção industrial e a especulação financeira, o capital industrial acabou por ser absorvido e dominado pelo capital financeiro. É este que, na era da globalização, comanda a economia real e dita as suas leis ao mercado, à política, ao Estado-nação e a cada cidadão esquizofrenicamente dividido entre os papéis de consumidor, de trabalhador e, às vezes, de accionista.

Num pequeno livro publicado há poucos meses, significativamente intitulado Le capitalisme total (Seuil), um antigo banqueiro e gestor de empresas, Jean Peyrelevade, explica com clareza que o capitalismo moderno está organizado como uma gigantesca sociedade anónima, uma sociedade de proprietários igualmente anónimos. Na sua base, cerca de 300 milhões de accionistas, 90 % dos quais concentrados na América do Norte, na Europa Ocidental e no Japão, controlam a quase totalidade da capitalização bolsista mundial. Regra geral de meia idade, com formação superior e um nível de rendimentos elevado, esses accionistas anónimos confiam cerca de metade dos haveres financeiros que possuem a várias dezenas de milhares de gestores por conta de outrem, cujo único objectivo é o de enriquecer os seus mandantes, tirando partido da mundialização.

Não pondo em causa o natural desejo de enriquecimento e a legítima vontade de empreender e de prosperar, o problema é que a fronteira que separa estes propósitos da pura cupidez é sistematicamente ultrapassada. Dado que as bonificações e stock options de que podem beneficiar dependem dos resultados obtidos, esses gestores pagos a peso de ouro sentem-se impelidos a alcançar performances cada vez mais surpreendentes em prazos sempre mais curtos. O desejo de ganhos ilimitados transforma-os em predadores. Taxas de rentabilidade do capital da ordem dos 15 a 20 %, só para distribuir dividendos, são totalmente absurdas, irrealistas e insustentáveis a longo prazo. Os lucros obtidos em bolsa, graças à especulação financeira, correspondem cada vez menos ao valor real das empresas e raramente são contrapartida de bens produzidos ou serviços prestados.

Os «verdadeiramente ricos» (high net worth individuals) e os «ultra-ricos» (ultra high net worth individuals) afastam-se cada vez mais do resto da população mundial. Só 77 mil famílias ultra-ricas (menos de um por cento das verdadeiramente ricas) detêm 15 % da riqueza mundial, ao passo que 50 % dos trabalhadores do planeta (1,4 milhares de milhões de famílias e 2,8 milhares de milhões de indivíduos) vivem com menos de dois dólares por dia. O capitalismo total é um capitalismo sem projecto e sem preocupações sociais, dominado pela «execrável sede do ouro» (Virgílio). Ora, como diz Peyrelevade: «O actual modo de vida ocidental não é generalizável ao conjunto do planeta: 20 % dos seus habitantes já consomem 80 % dos seus recursos». Resta esperar pela pancada.

«DN» - 15 Set 06

sábado, 27 de janeiro de 2007

O OURO DE O’NEILL


ALEXANDRE O’NEILL foi-se embora, morreu, fez há dias vinte anos. Mas a poesia e a prosa que escreveu ficaram, ainda cá estão, vivinhas da costa. Uma evidência, em duas frases feitas que tresandam a banalidade. E logo escritas a respeito dele, que jamais deu tréguas ao lugar-comum. Se pegava em algum, era para lhe torcer o pescoço, vibrar-lhe uma grande marretada e lançá-lo pelas ruas da amargura, se não com muito humor, com suprema ironia. Ele próprio reconheceu, em O Diabo que vos carregue (1982), «colocar a tónica num certo aspecto subversivo, desconstrutor da poesia que venho conseguindo desfazer». Acreditava mesmo «na existência do Diabo» e era – ou, pelo menos, confessa que chegou a ser – «um Diabo raisonneur, trocista, sarcástico, demolidor».

Quase sempre «recalcou o lírico que lhe assomava à lágrima», como escreveu no Retrato (sem boné) de Mário-Henrique Leiria, talvez revendo-se na frase. Embora tenha «tropeçado de ternura» em Um Adeus Português, belíssimo poema que se lhe agarrou à figura como lapa à rocha. As circunstâncias em que o escreveu, embora atenuantes, não o isentam de culpa. Confessa, em A história de um poema, que estava a sofrer «pressões inacreditáveis» por parte da família para não «ir atrás da francesa», a sua querida amiga Nora Mitrani, que o desafiara a «ir ter com ela a Paris, onde vivia». Chegaram ao ponto de meter uma cunha à PIDE, onde O’Neill foi interrogado pelo subinspector Seixas, em «linguagem descomedida», ficando sem passaporte por muitos e maus anos.

Extraordinário é que um verme, como este Seixas, tenha entrado a rastejar para um rodapé da grande poesia portuguesa. Mas foi assim que O’Neill escreveu o poema, alimentado por «uma raiva e um amor desmesurados, quer dizer, adolescentes». Poema que, «ingénuo como é, tem realmente a força do nojo e do desespero combinados com um derrame/contenção sentimental» que – diz ele – não mais igualou. O que é igual ao litro, se lermos e relermos as admiráveis páginas de poesia e prosa que foi escrevendo pela vida fora e que resistem pela morte dentro. A escrita de O’Neill é uma inesgotável mina de ouro a céu aberto. Mais do que exegetas e mediadores, reclama garimpeiros e exploradores da boa Literatura, para gozo dos sentidos e proveito do espírito.

«Lede tudo, sobretudo as obras sobre as quais haveis lido tudo», aconselhava ele enquanto fustigava «a bem-pensância nacional, sempre á procura de tralha para mobilar e decorar a sua cabeçorra». O’Neill repudiava a «ideia de que escrever é uma actividade chique e mobiladora». E depois? A resposta, lá do fundo dos séculos (1833) e traduzida por ele, dava-a Giovanni Gioachino Belli, um dos poetas preferidos: «Depois o ofício, o jejum, a trabalheira, / a pensão a pagar, as prisões, o governo, / o hospital, as dívidas, a crica, / o sol no verão, a neve no Inverno…/ E por último – e que Deus nos abençoe! – vem a morte e acaba no inferno». Sem estátua do comendador, façam favor!

«DN» - 8 Set 06

CRIMES HELVÉTICOS

NA MÍTICA SUIÇA de Guilherme Tell e do Monte Branco, do relógio de cuco e das vacas leiteiras, do chocolate Nestlé e do canivete multiforme, da indústria farmacêutica e do segredo bancário, da guarda privada do Papa e da eterna neutralidade, também há contos negros, crimes atrozes, personagens perversos e velhos «gargântuas», com uma sede e um apetite gigantescos, que se banqueteiam com ementas de fazer inveja a Pepe Carvalho e ao seu criador, Manuel Vázquez Montalban, que morreu há três anos.

Em 1976, Jean Ziegler denunciou Uma Suiça acima de qualquer suspeita, velho refúgio de capitais em fuga, a coberto do sigilo bancário e de contas numeradas, com os banqueiros a fazerem-se passar por pacíficos filantropos, sob o signo da Cruz Vermelha, da rentabilidade e da paz. A Paz Insuportável que John Le Carré descreveu, em 1991, na magnífica narrativa sobre um general do Exército helvético, Jean-Louis Jeanmaire, «que se fartara até à ponta dos cabelos de ser suíço» e que se tornara espião a soldo da URSS. Denunciado como «traidor do século», foi condenado a 18 anos de cadeia em 1977, aos 67 anos de idade. Sobreviveu, todavia, à pena de prisão, para contar a história: a de um espião que, conforme constata John Le Carré, saberia bem pouco para trair tanto.

Mas os tais crimes atrozes, personagens perversos e banquetes «gargantuescos», nesse «recanto da Europa Central primitivo e provinciano», ninguém os terá ficcionado melhor do que o suíço Friederich Dürrenmatt (1921-1990) nas suas magníficas novelas policiais. Todas as que li se desenrolam num pequeno país que «despolitizou a política» e que, «ao entrar no grande comércio, saiu da História». Um país varrido por um vento maléfico, seco e mórbido, o «Föhn», frequente no Norte dos Alpes, «que causa dores de cabeça, suicídios, divórcios, acidentes de trânsito e outras violências», como o escritor salienta em Justiz (Justiça), publicado há exactamente vinte anos e agora reeditado em língua francesa. Um vento como o suão, que fustiga os perseguidos pela justiça, sejam eles culpados ou inocentes, nas extraordinárias novelas de Friedrich Dürrenmatt.

Que eu saiba, a única à venda em língua portuguesa é a primeira (1951): O Juiz e o seu Carrasco (ASA de bolso). A concisão da escrita, a intensidade da intriga, a moral ambígua dos personagens culminam em duas cenas de antologia: o funeral do tenente da polícia e o banquete, farto e suicida, em que o inspector Bärlach desmascara o assassino que lhe serviu de carrasco. Já Die Panne (A Pane), é uma pequena obra-prima do humor negro. Durante um banquete «gargantuesco», quatro octogenários reformados – um juiz, um procurador, um advogado e um estalajadeiro – simulam, como se fosse um jogo, um julgamento no qual vão tecendo a teia em que se enreda um inocente (?) comerciante de tecidos. O génio do grande dramaturgo que foi Dürrenmatt (A Visita da Velha Senhora é a peça mais célebre) vai de par com o enorme talento do escritor (mais do que) policial. Os crimes helvéticos de Dürrenmatt mereciam mais edições em língua portuguesa.

«DN» - 1 Set 06

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UMA HISTÓRIA INGLESA
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NUM CLÁSSICO SOBRE FUTEBOL, provavelmente desconhecido entre nós e publicado há já dez anos – The Football Factory, de John King –, o protagonista, Tom, adepto de um Chelsea que ainda nem sonhava com Mourinho, começa por dizer que «o futebol é inteiramente uma questão de ambiente, e se os estádios estivessem vazios, se neles não houvesse tanto barulho, não valeria a pena lá ir». Para ele e para o seu bando de amigos ainda jovens, párias numa sociedade inglesa então em crise, devastada pelo desemprego e o alcoolismo, pouco importava a vitória ou a derrota, mas sim o cenário de violência caracterizado pelas cenas de pancadaria com os adeptos dos clubes rivais e de cacetada com a polícia. Nada que se parecesse com os «brandos costumes» lusitanos.

Mais de duzentas páginas e vários anos depois, Tom confessa que gosta sempre de ver o futebol pela televisão. Não como quando era criança e decorava os nomes das equipas, dos jogadores, dos estádios, mas como um «ritual de sábado à tarde, que tu não podes perceber quando és jovem porque andas lá fora às voltas com os truques da vida». Tom admite que, ao envelhecer, talvez perca os seus ímpetos de violência e sexo, para se contentar com o que lhe dava prazer quando era puto. «História de velhos que entram na segunda infância», diz ele, enquanto vê desfilar os eternos jornalistas especializados, uns a darem palpites válidos, outros a debitarem disparates, enchendo os nossos ouvidos de comentários sobre, por exemplo, a rivalidade entre as duas equipas, mas totalmente incapazes de reproduzir os momentos fortes do jogo que está a ser transmitido.

A televisão apropriou-se do futebol, «mas um tipo médio, que passa o tempo às voltas com o telecomando, de rabo sentado no sofá, só terá direito ao rectângulo de jogo e a três bancadas», lamenta Tom. Um tipo assim «vai malbaratar a vida a fazer zapping, regressando sempre à bola, atraído pelo ruído da multidão e por essa paixão que faz do futebol um desporto à parte». É certo que «os canais de televisão não atribuem qualquer importância aos adeptos, mas sem o barulho, sem o movimento dos espectadores, a bola não seria nada». Porque o futebol «é uma história de paixão» e «a televisão nada poderá contra isso». «Sem a paixão, o futebol está morto. Restam 22 tipos adultos a correrem atrás de uma bola sobre um pedaço de relva». Ora, são as pessoas que fazem do futebol uma festa: «Elas aquecem e tudo levanta voo». Isto é: «Quando tu tens uma paixão, não importa qual, ela transborda». É por vezes o que sucede com o pontapé na bola.

Esta é uma história inglesa, em que, apesar da televisão, os estádios continuam a transbordar de adeptos. Não é uma história portuguesa, em que os estádios, alguns deles novinhos em folha, continuam, regra geral, às moscas. Desolação que já nem consegue ser disfarçada pelas bancadas sarapintadas, estilo trompe-l’oeil, por Tomás Taveira. Cá, só há que esperar mais do mesmo. As eternas escaramuças entre dirigentes de clubes, da Liga e da FPF. O não menos eterno caso do Apito Dourado, cada vez mais ferrugento. O esquisito caso Mateus. Entre outros folhetins do folclore lusitano. Que não matam a esperança numa Liga bem disputada entre os três do costume. Em suma: o trivial
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